Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

SÓCRATES  

Não reconheço, no estatuto atual das minhas opiniões, a força televisiva de um triunfador. Não as diferencio bem das verdades que me ensinaram e das que nos impingem todos os dias como condição para as engrenagens sociais não griparem. A maior parte das visitas ao zoo são inconclusivas, a poesia pouco ameniza a crueldade dos grandes sistemas naturais. Se queremos ler a força latente da predação e da adaptabilidade como motores do sucesso, chegamos ao capitalismo mais inclemente de olhos fechados fuzilando os insolventes muito gordos, com a mochila cheia de bugigangas. O prazer, por outro lado, traz às explicações apenas a monumentalidade do presente, qualquer coisa como um relógio gelatinoso em estátua equestre deixando pingar minutos na boca de uma piranha. Acho que devia dar uma forma literária mais complexa ao que escrevo. A literatura parece um valor absoluto, não só pelos Prémios Nobel, em geral bem atribuídos, mais ou menos tardiamente, mas porque aglutina as melhores razões para o pensamento funcionar deixando-nos, ainda, liberdade para nos rebelarmos contra os pequenos tormentos da neurose. A partir da maturidade começamos a dedicar-nos cada vez mais à memória e menos à ação. Ignoramos se é a memória que pesa sobre a ação ou se esta ganha peso numa consciência muito complexa que não deixa espaço onde rebentem as vagas iniciadas noutros hemisférios. Por isso, tenho cuidado com o que revelo do que penso quando penso como tudo se deveria tornar maravilhoso. Não sei onde aplicar a minha bondade civilizacional: não podendo garantir que ela seja efetivamente benéfica, o meu cérebro neolítico gostaria de ser universal sem ter que ir às compras como um obstipado vulgar. Como seria a Alice, adulta e fora do País das Maravilhas? Casaria com Fernão Mendes Pinto e acompanhá-lo-ia ou continuaria a sua campanha infantil pelos direitos dos animais com o pássaro dódó proclamando a insustentabilidade das teorias darwinistas? A sua evidência, plausível para uns, não passará de pura escatologia, para outros? Eu tomo a minha opinião como evidente e julgo-a universal. Uma espécie de verdade. A opinião é a evidência dos outros quando se opõe à minha quando, na tradição de outros filósofos lingrinhas, olho o estado a partir do abuso da força, não do benefício da maioria. Os grandes opinadores são raros e lamentam a sua íntegra fraqueza. Não têm certezas sólidas em relação à fertilização extrauterina que é um detalhe genético como a cor das rosas ou a qualidade do poema com que a fêmea responde aceitando a corte do pavão demasiado emplumado. Muitos ambientes humanos tornaram-se demasiado barrocos, sobre-receptivos a uma humanidade enfraquecida. Certas mães, demasiado protetoras roubam, às escondidas os rebuçados dos filhos e as consequências destes padrões educacionais de inspiração freudista poderão dar lugar às futuras guerras das estrelas. Agora começo a perceber melhor o estatuto das minhas opiniões: é preciso desmontar as opiniões para que elas se afastem das certezas e pareçam verdadeiras opiniões sorrindo umas para as outras.