Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

subsídio para uma história experimental

Podem-se estudar os grandes movimentos das massas humanas a partir do comportamento das formigas no seu meio natural, metodicamente manipulando algumas variáveis, presumivelmente também relevantes na história da civilização. E podemos fazê-lo sem ofender a dignidade de nenhuma das espécies em causa, trata-se de aproveitar um efeito de escala do olho humano sobre uma comunidade de formigas cuja organização impõe regras mais estritas que as humanas, ainda que possam visar objetivos semelhantes. Não vou começar pela noção de beleza e pela forma como ela influencia as escolhas numa hierarquia porque são complexas as determinações sexuais sobre o amor e a reprodução, no caso humano, enquanto as formigas parecem ter estabilizados os critérios de beleza. Atendamos, antes, à comunicação nas duas espécies em causa. Como exemplo da comunicação humana consideremos o jornalismo nos vários medias, a enunciação sucinta e performativa que alude a um evento: nada de literário, apenas o pingue-pongue de cada palavra sobre as emoções do leitor. Tal como as feromonas das formigas, essas palavras visam encaminhar o grande rebanho da humanidade para o interesse coletivo, sendo este sujeito a uma constante revisão. No caso dos formigueiros, parece estabilizado o «bem coletivo»: suficientemente desindividualizado, bem especificado o papel de cada indivíduo e o da comunidade (o que esta lhe proporciona e o que espera receber); sobretudo existe uma notável fixidez social que garante a estabilidade de todos os valores envolvidos. «Estabilidade» significa que a pertença não é questionada – mas será isto sustentável na civilização? A questão de investigação será definir o ponto quando um cidadão de uma comunidade deixa de o ser. Questionamos em nome de quê se organizam as comunidades humanas de forma tão diversa de um formigueiro? Porque invertem a pirâmide da ordem social conferindo ampla mobilidade ao indivíduo, respeitando a sua liberdade imprevisível, instabilizando o seu papel e desengrenando o tecido comunitário? Quando a sua liberdade se volta contra a comunidade, poderemos continuar a defender que cada indivíduo é um cidadão ainda que se tenha tornado um corpo estranho, um peso, um custo sem retorno? Não se trata dos incapazes, dos doentes e dos inválidos – nem da dissidência porque até os dissidentes amam a pátria (ou qualquer coisa de parecido, ou outra ideia de pátria, ou um deus, ou um passado, ou uma utopia da pátria), mas de um indivíduo que queira ativamente destruir a comunidade; di-lo-emos, ainda, um cidadão? O modelo seria uma formiga-soldado (portanto, não-reprodutora) subitamente tomada por uma paixão pela rainha, quisesse fecundá-la, entrasse nos aposentos reais, e, incapaz de copular (falta-lhe o órgão, copular não é a função da sua casta), mata-a. Incapaz de introduzir drásticas remodelações no sistema de castas optou por destruir toda a estrutura social do formigueiro. Se um indivíduo, intencionalmente ou não, se exclui, recusa integrar-se (trai, assassina, põe bombas, arrasa edifícios), deve-lhe ser retirada a cidadania da comunidade que ele recusa (ainda que continue cidadão de outro lugar ou de um outro mundo)? Se se recusa integrar, não pertence enquanto cidadão, só enquanto indivíduo. São equiparáveis os direitos do cidadão e do indivíduo? A casta das formigas religiosas são quem mantém a rigidez dos princípios dentro da comunidade; cortam os órgãos sexuais excessivamente grandes ou extirpam-nos das fêmeas, porque os machos são débeis e morrem logo após o voo nupcial. Na verdade, as comunidades não precisam de vidas longas para os seus cidadãos nem as conseguem sustentar. As grandes árvores são belas nos jardins e muito antigas, e, embora juntas, não formam uma comunidade; vivem muito porque cada uma apenas defende a sua longevidade individual. Assim, enquanto se autossustentar, viverá. Poderemos comparar as comunidades humanas, não com o socialismo do formigueiro, mas com o individualismo liberal de um jardim? Poderemos retirar algum valor moral prescritivo destas comparações?