Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

subsídios para uma descrição do cosmos

Algumas pessoas põem condições antes de falarem. Dizem, como qualquer utilizador de um instrumento: «É a mente anterior à linguagem ou é esta que conforma a mente?». Acrescentam que consoante nos posicionemos, assim uma ou outra cadeia de implicações e que desta opção decorre o que comemos ao pequeno almoço, a igreja onde rezamos e o número de filhos, designadamente, o critério para a escolha dos seus nomes. Mas, também, o significado de «mente» afecta este processo e ignoramos como sair disto. Definimos «mente» sem linguagem e «mente» com linguagem e também definimos «linguagem» sem mente e mente sem «linguagem» e também concebemos estados intermédios em que a mente se complexifica à medida que melhor conhecemos uma linguagem. Isto leva-nos à questão do convívio da palavra (na mente ou na linguagem) com as outras existências (na mente e na linguagem), a palavra com a sua verdade provisória dispersa por milhões de livros em centenas de línguas (algumas já mortas). Sabemos que algumas verdades são contraditórias e, ainda assim, utilizamo-las, utilizamos as palavras ora porque nos amamos ora porque queremos apenas dizer que estamos tristes ou que o milho não cresceu como o ano passado o que não contradiz nada do que foi escrito – nem adianta. Isto leva-nos à questão do sentido da escrita para além deste mero valor expressivo a que qualquer cidadão tem direito, mas que é sobremaneira aborrecido. Portanto, se alguém pergunta se a mente é anterior à linguagem ou se é esta que conforma a mente, analisamos as suas intenções: se quer escrever poesia, sem dúvida que a linguagem precede a mente, que tudo o que esta tem a fazer é continuar um longo poema iniciado quando na viagem de Homero a Portugal em busca da sua apaixonada, mas se o que pretende é relatar-nos o que pensa do universo, o que pensa é anterior à linguagem embora esta o ajude a pensar e a dar o nome aos astros, substituindo o seu lugar pelo seu nome. Mas não há mais astros que nomes?