Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

A CIÊNCIA ACADÉMICA  

Muitos dos artigos científicos mais chatos ou dos ensaios sobre coisa nenhuma que valha a pena ser escrita começam por: 1) mergulhar no étimo de uma palavra-chave qualquer, desmembrá-la do seu uso como se houvesse algo de ilegítimo na significação corrente que se estabeleceu, algo de inautêntico que atinge o pecaminoso de ter violado uma pureza primordial e que deve ser denunciado; 2) mais ainda, acreditar que esse significado perdido encerra o entendimento do problema, uma espécie de ancestral sabedoria intuitiva   ou mágica, que, encriptada, se encerrou; 3) uma citação de Sócrates, Platão, Aristóteles ou alguém dessa linhagem e que seja difícil refutar; houve um tempo em que as citações eram religiosas e demasiado prescritivas como se usássemos um chapéu-de-chuva antinuclear para os triviais aguaceiros outonais; 4) outros iniciam-se por um episódio histórico ou uma prática de um certo período histórico como se essa facticidade evocada ancorasse o discurso na evidência quase incoercível da memória; 5) iniciar um texto por uma experiência pessoal só funciona se o leitor conceder ao texto um crédito apenas por o autor ter escrito o que escreveu e isso torná-lo emérito; 6) o autor também pode começar por pôr o problema com várias citações, mas o leitor já antecipou que ele pretende, depois, modificar os termos em que o formulou e passa à frente os capítulos iniciais. 7) Este texto começa por um meta-começo, ou seja, tendo começado ainda não começou, mas não é por isso menos aborrecido nem mais meritório (a exemplo das artes, muitas outras disciplinas mergulham – perdem-se – no seu próprio fazer-se). Como se procurasse levar o aborrecimento do leitor a um ponto que só lhe restasse o abandono, o protesto, a recusa irritada prometendo nunca mais retornar às fontes científicas originais, um caudal inabarcável, antes esperar que os assuntos reapareçam num artigo de divulgação num noticiário generalista, sonolentamente lido depois do jantar.

contra o entorpecimento

As drogas sempre serviram para dar a ilusão da libertação. Não da liberdade – qualquer pessoa que as use sente constrangerem-se as suas escolhas, percebe o poder de substâncias que se imiscuem no íntimo do seu mecanismo de decidir, sentem o seu potencial de submissão, sentem que poderão ficar escravizadas para o resto da vida. Desvalorizar a liberdade é o custo do seu prazer. Mas, da mesma forma, o jogo e toda a parafernália de dispositivos de entretenimento virtuais. Apoderam-se, no cérebro dos mesmos dispositivos motivacionais, levam a pessoa aos mesmos ciclos de gozo seguido de uma saciedade cada vez mais periclitante. No Admirável Mundo Novo (de Aldous Huxley), as pessoas nasciam (eram produzidas) para um destino inscrito nas necessidades do sistema e eram condicionadas a servir essas necessidades através de um sistema de recompensas, nesse caso uma droga, o Soma. É um retrato terrível do que seria uma sociedade perfeita, uma sociedade estabilizada através do controlo implacável de cada cidadão segundo o modelo de um gigantesco formigueiro. Devemos repensar este aperfeiçoamento social que nos faz escravos. Devemos recusar uma racionalização dos recursos e dos procedimentos que meramente nos recompensa materialmente, mas deixa de fora aspetos da natureza humana porventura os mais nobres. As sociedades desenvolveram uma poderosa indústria de entretenimento que é preciso recusar: recusar as canções da treta, recusar os filmes da treta, recusar os romances da treta, os poemas da treta, o teatro da treta; recusar ir às compras pois quase tudo do que é necessário não é necessário. É preciso tolerar o aborrecimento pois mais vale que o entorpecimento. É preciso desocupar o ócio dos cidadãos para que possam estar sossegados a pensar.