Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

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SOBRE A VISIBILIDADE DOS SERES INTUÍDOS   

Como aceitar o ponto como paradigma das coisas visíveis se o definimos como não tendo dimensões? Se localizamos um ponto do espaço pela interseção de coordenadas, como o encontramos se o que nos sobeja é uma abstração? No entanto, percebemos demasiado bem um ponto que não vemos, mas disputamos muitas outras coisas que também não vemos. Deus, por exemplo, é uma necessidade lógica como o ponto é um necessidade geométrica. Isto é aceitável? Construímos imagens planas a partir de pontos invisíveis e construímos templos magníficos dedicados a entes nunca vistos. Isto é factual, mas o que é um facto quando nada é feito, mas sofrido ou aceite? Acrescentamos uma terceira dimensão e aparece-nos uma esfera, uma pirâmide, outros sólidos. Agora, vemo-los, mas cada um constituído de pontos que são invisíveis. O que é a visibilidade senão uma construção que nos aproxima do mundo quando as coisas já estão bem organizadas na nossa cabeça? O que sabe um papagaio que repete o que ouve, mas não diz o que vê? E uma cagarra que voa milhares de quilómetros de um ponto ao outro como encontra um e outro ponto como se não fosse grande o mar e igual? Se é plano o mar como é que é esférico o que vemos plano (uma deposição de pontos à mesma distância do centro da terra)? Mas como pomos Deus num plano de pontos se são invisíveis os pontos? Partilhamos com as cagarras o mesmo sistema de orientação pelos astros ou os nossos satélites levam-nos do destino para o interior do ponto onde perdemos a dimensão da vida? O papagaio vive num poleiro num ponto da sala; a cagarra vive num trajeto entre os Açores e o Índico, nós estamos algures num trajeto numa linha de funções automáticas como se fossem necessárias soluções caso a caso para cada momento de angústia. Ou como se a angústia fosse lucidez pela indeterminação: o que vemos mexer é a velocidade no espaço, a das cagarras voando noite dentro com as suas vozes de choro lactente, ou a vida está imóvel no tempo e este passa sem se revelar e um dia falha e desaparecemos? A nossa vida pode, assim, ser como um ponto e os seus desencontros (é quando  falamos de «amor») terem a necessidade da própria coerência da indeterminação. É quando queremos pensar o que não vemos que vamos mais longe como se fôssemos o fotão de Einstein, cego e imaterial como um ponto, contudo, matéria de tudo o que vemos fora da escuridão fria das distâncias. Como falar do acaso se nos encontramos e nos amamos ainda que definindo «amor» como impossibilidade?, mas o acaso guia o universo enquanto o amor só e importante para algumas pessoas.