Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

A ENTREVISTA DO POETA  

Hoje, poucos se comovem com a pieguice do poeta. O seu vazio (o vácuo das lágrimas) ainda resplandece ao amanhecer (ficção de uma glória inócua) para os que o acompanharam, bêbedos (o que não fizeram acontecer) e procurando o melhor caminho com o seu excesso de imagens pouco surpreendentes. Em qualquer caso, poucos o seguem (ao que serve a poesia?). Poucos cabem no seu «nós» que é uma primeira pessoa majestática, mas ninguém acredita na sua solidão, nem na sua hombridade, nem na amizade pelo parceiro com quem se embebedou. Defende-se na entrevista para o jornal de literatura dizendo que a mãe é uma figura mítica com um polo irreconhecível (uma Vénus reformada ou que é preciso idealizar) e outro em que as palavras trocam as cores e os momentos do brilho (o significado como ápice), que sempre esperou ir mais além o que fez dele um apressado jogador, amedrontado em cada lance que é como fala do amor. Ele gostaria que o acreditassem, gostaria de mansamente persuadir, gostaria que o tomassem não por um sonhador, mas por um visionário e que a sua voz saísse profunda como a de um oráculo. Hoje, ninguém reconhece a voz do oráculo. Soa estranha, bafienta; os augúrios são má literatura, os conselhos, uma catarse, todo o seu livro é uma catarse orientada por uma psicologia brejeira: que a água está inquinada e sabe mal, que come como um neandertal, que o tempo perdeu a cadência, que as tempestades o assustam, que o mar é feio, que as flores são efémeras como as nuvens, que as nuvens são seres enigmáticos como um poeta carregado de pedras (a fala e a escrita, diferentes distorções ou, como a noite falha, a pedra fratura). Antes o poeta deveria evitar a palavra «absurdo» para que as suas imagens do absurdo funcionassem, para que tivéssemos uma simpatia mínima pela sua dor, a indispensável para continuar a ler as minuciosas descrições do que transborda do poço para onde escorre não apenas o seu lixo, mas o da sua amante família, o dos seus furibundos mestres, o arfar das amantes cantarolando o hino do aborrecimento. Que não é só a linguagem, mas um impensado, por vezes assustador – que é cansativo transportar para a poesia. Acreditamos na sua sinceridade, mas não é o que queremos dele, nem o seu deserto, nem a energia morta do deserto, nem a energia do seu corpo que é mera metáfora. Também não o quereríamos hercúleo, palavras posando num concurso, apenas a alegria das coisas na sua justa medida.

O ABSURDO E A TEORIA DO MUNDO  

Um velho sábio ensinou-me da poesia a externa fatalidade da sua lógica de lastros, aquilo que ascende, a que, sem exagerar, chamaríamos «complexo». Ensinou-me que palavras como «absurdo» e «caos» devem ser substituídas pela sucinta impotência da compreensão por onde a poesia navega. Aprendi o protagonista da compreensão ser uma ficção que se pode tornar maçadora. Projetamo-nos nos seus cristais caleidoscópicos, as suas raízes radiam pelo sujo que num banquete de sóis fenece e nós sempre pensando ter que ser assim, embora algo de nós sedimente numa vívida música. Refiro-me a algo da minha aprendizagem do português numa Lisboa adormecida – «absurdo» e «caos» são lapsos da mente, lugares que a linguagem ainda não visitou, onde apenas filósofos exercem um aborrecido deambular. Onde eu cheguei – ou alguém que, para me ler, tenha de me inventar, tenha que, como eu, passear em Lisboa com a minha dinastia de dúvidas e princesas encantadas num pacote que designaríamos «felicidade em progresso» – mas «progresso» sem resolver a questão do absurdo?, de tudo o que precede o sentido? A inscrição na mente de um manual de instruções orientado para a felicidade resulta na principal teoria do absurdo: o mundo relido de modo laxo e indulgente, adaptado a uma esperança batoteira de inspiração democrática. A transcrição social dos reflexos torna-se homóloga nas células, nos músculos, no próprio vento porque trocámos a cor dos nossos coeficientes de sobrevivência: em todo o mar, nos corais, nas alegorias conscientes que transformam o caos dos monossílabos na busca surda dos ritmos, todas as coisas confirmam quer a «felicidade em progresso» como uma tendência universal à plenitude, quer o «absurdo» como uma versão rasca do «complexo» que pulsa no poema, que pulsa na música, que tende nos fios emaranhados das épocas e se perde, já fora de visão, nas linhas que decifram o infinito e o dizem absurdo.

uma botânica metapoética generalizável a toda a literatura

Quando escrevi um livro sobre a razão de ser das coisas tinha uma convicção apenas: que o absurdo é passear num jardim botânico sem tabuletas: nem o nome latino, nem o nome vulgar, nem a origem geográfica. Portanto, a questão impõe-se: poderemos pensar o mundo com a origem das espécies suspensa sem que as nossas especulações esbarrem numa opaca ignorância? Miramos uma árvore de alto a baixo, provamos os seus frutos, examinamos a relação dos seus ramos com os pontos cardeais; observamos como as aves pousam, como as primaveras que foram absorvidas ao longo de décadas deixam, agora, os minutos soltarem-se dos perfumes de modo a recomporem o próximo outono. Numa árvore exótica causa ainda maior estranheza sentir como a estatura serve a floração. Sentimos a mesma atração pela inutilidade de pensar a origem. O nosso cérebro, ao pensar uma árvore exótica, sente absurdo pensar a engenhoca da árvore, da seiva até à copa, do húmus das raízes até à clorofila ávida da luz do amanhecer. O nosso cérebro pensa o futuro, sofre pensando a razão de ser das coisas. O aborrecimento é pensar como um genealogista quando as direções estão contidas no propósito: não é a razão de ser das coisas que orienta o propósito, mas este que se estabelece da harmonia e de uma esporádica violência estratégica e, assim, cria a razão de ser. Claro que todos os seres comparticipam no resultado final que, como sabemos hoje, pode acontecer da pior maneira. Mas o meu livro não se ficou por aqui. Precisei de descobrir a razão de ser do desalinhamento dos propósitos: porque é que, num jardim botânico, os raios de luz descem sobre ausências e porque não são irrelevantes essas ausências. Dir-se-ia que os fotões têm uma memória amorosa e que se desagregam contra as árvores sem nome como se, a nós, a razão de ser das coisas, se a conhecêssemos e não a construíssemos, passearíamos numa vida sem absurdo, apenas conferindo o nome das coisas, verificando se as morfologias correspondem aos propósitos.