Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

O NADA DA PERGUNTA JÁ É ALGUMA COISA    

Nunca percebi como um poema começa. Temos de definir uma zona de improbabilidade onde o tempo flutue como uma musa no éter; «musa de éter» e «musa no éter» equivalem a esse nada – e onde apareço eu? As sílabas da pergunta descamam-se sem fim em destinos que não atingem o ponto onde estamos; assim, memória e sonho se abraçam num oceano de éter. Todas as descrições falham quando pretendemos a origem. Posseidon e a musa amam-se como o poema se expande – cósmico, mas é outro o infinito que a página parece limitar, e prorrogável noutra página onde também não estou, mas não indefinidamente.

RELATÓRIO  

Ao fim de um ano a observar o que não acontece, conforma-se uma ideia de como o que poderia acontecer conduziu ao que aconteceu e não a versões otimizadas do planeta nem a situações de felicidade individual. Não se pode falar de uma determinação causal, mas também não se aplica a noção de «acaso» no sentido em que este designa meramente acontecimentos inesperados (coincidências, coocorrências, inflexões agudas numa linha de eventos conduzindo, por exemplo, a aparições e a ausências de pessoas quase definitivamente presentes e ausentes). Mas o que poderia acontecer num certo instante configura uma série de cenários previsíveis dos quais apenas um aconteceu. No instante seguinte o que acontece já é determinado por esse acontecimento e sucessivamente, donde o interesse da palavra «acaso» para designar um processo poroso, permeável a variáveis que não pareciam presentes no início. É através da ambiguidade da atribuição ao acaso de um determinado efeito que chegamos à esperança e ao desespero: à esperança porque o acaso pode viabilizar as hipóteses mais remotas de acedermos à fortuna e ao amor; ao desespero porque essas hipóteses raramente se verificam. O interesse de pensarmos o que não aconteceu releva da maior nitidez com que pensamos o acontecido: vemos como o que não aconteceu nos envolve: 1) porquê e como falhámos em fazer acontecer um cenário que desejámos? 2) Quais as forças que nos derrotaram? 3) Se a intensidade do nosso empenho fez aumentar a probabilidade de ocorrência de um cenário? 4) Como é que a vida (a nossa) se ajeitou a tantas contingências? 5) Como é que conjugámos a nossa impotência com a ideia de liberdade e, 6) com a de responsabilidade se não é racional a nossa ação sobre o que acontece?, 7) Faz ainda sentido ser obsessivo-compulsivo e planear o futuro como um funcionário público híper-responsável? ou 8) como fazem os políticos híper-irresponsáveis, será preferível deixar correr as coisas pelo mais fácil e mais conveniente e acreditar que, no final, a sua retórica banha-da-cobra se somará à vontade de cegueira do eleitorado? Ao fim de um ano a escrever sobre o que não aconteceu reconhecemos um único ganho: o próprio facto de termos pensado o que não aconteceu, de termos rido do que aconteceu tal como rimos do nosso desejo de que acontecesse o que não aconteceu, e de o termos feito num pequeno coletivo como se nos embebedássemos de sabedoria, juntos ao balcão da taberna.

o que acontece não se destina a nada

Tudo o que acontece nos entra pela casa e fixa-nos o olhar na pantalha do suceder. Há acontecimentos muito inesperados, outros muito espetaculares, outros terríveis, mas distantes, outros menos terríveis, mas que a proximidade torna ameaçadores. A maior parte do que se projeta na pantalha é histeria futebolística ou acontecimentos equivalentes que gostamos que aconteçam porque, acontecendo, asseguram-nos da possibilidade de uma normalidade. Qualquer normalidade nos serve a maior parte do tempo. A morte não é uma saída da normalidade, não é, sequer, uma verdadeira conclusão, nem confere sentido a nada, nem interroga ninguém. Muito do que acontece pode ser referido ao espaço do amor ou ao espaço religioso e, em ambos, todas as confusões semânticas encontram eco. Nem tudo o que acontece enraíza nesta forma de acreditar que aproxima o amor e a religião a qual, quando nos apanha, torna-se um vício que mobiliza tudo dentro do que somos. É a expressão do inexorável total, da desverdade que é a forma da verdade distorcida quando o amor é tóxico, do enclausuramento da liberdade numa diminuta gaiola se saciedades. Dá-se, então, o paradoxo de o que passa na pantalha se tornar indiferente como se tivéssemos visto todos os desenlaces possíveis da humanidade. Tudo o que nos entra pela casa e nos fixa o olhar na pantalha do suceder nos tornou alheios ao que efetivamente acontece. Não chegamos a dizer que a normalidade seja um colete-de-forças, apenas que as casualidades procedem de insondáveis mecanismos dos quais nos encontramos dissociados.