Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

NÃO TEM NOME, É UMA OGIVA NUCLEAR    

A demanda do mundo tem uma poesia implícita, mas o poeta, há muitos anos, não sabe a quem a dirigir. Os leitores estão imersos num magma de sombras que procede de uma atmosfera de questões que ainda não foram delimitadas nem se encontrou um lugar geométrico nem um retrato que contenha algo por que valha a pena lutar. Nesta atmosfera o poema nasce. As sombras engordam com imperativos categóricos impossíveis de estimar, mas é como o poema cresce, como cria a sua própria paisagem de transformações. Mas não se inicia um poema mencionando só o que vale a pena pois a beleza é um isco cheio de buzinas e riscos parasitas, torpedos dirigidos a alguém, a nós ou contra eles mesmos. A poesia são as vicissitudes do combate numa atmosfera de chumbo: «O meu livro será um inventário de perfumes e passos em falta: os que levam ao abismo e a estratégias de riso imperceptíveis». A narrativa repete-se porque o poema não tem narrativa: bactérias alojadas numa volúpia massacrada, ao espelho, longas manhãs, e preparadas para infetar qualquer boca que nos beije: cáries de rafeiro; o trajeto da carraça, profundo e simples como o do poeta contaminado por tantas expetativas que lhe infetam o poema e explodem numa loucura íntima. Tentou pôr critérios irrevogáveis numa humanidade simplista, mas o que encontrou foi um bando de estadistas acocorados jogando um póquer sem regras. Valerá a pena morrer pela burocracia do Estado e pelo seu indesmentível pai? Morrer pela nossa ilha com a sua contabilidade de cenoura e chicote aleatório? Por um filho com tratores bibliográficos muito musculosos e tão maiores que os nossos ou, ainda por uma criança minúscula a dar corda ao boneco no sentido errado? Pela sua mãe boneca-de-fancaria/vénus de Willendorf? Vale a pena morrer pela menina à procura de espaço para desovar? Por alguém, a mulher, a mãe, o pai, o leitor, mesmo outro poeta no auge da indecisão? Estamos dentro do binómio em que anões loucos trocam o lugar às coisas da mente. Valerá a pena desprezar o óbvio do olhar em troca de uma racionalidade excessiva?, ignorar o instante supremo em que o poema se evapora e o seu mundo estável sedimenta na mente? A viagem pode acabar numa ilha de amuletos, a barca, entretanto, ir ao fundo como outras. Valerá a pena arriscar tudo no timbre persuasivo de uma voz? Achamos todas as respostas superiores à nossa racionalidade. Um vulto muito acima normaliza um xadrez de interesses absurdo que nas próprias exigências se desfaz, mas já não discutimos se existe. Do coração do mundo, quando a avalanche de sangue se abate sobre o próprio coração, grande parte da alma aplana-se num modo de dizer confortável. E indesmentível a sua verdade própria. O poeta, pelo contrário, continua a navegação à vista – não encontrou resposta. Pode haver uma esperança, uma compreensão vertical da vida ou esperar-se o desmoronamento da muralha e o poema desencadear uma cidade com outra forma de noite.