Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

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O SISTEMA FUNCIONA COM PESSOAS INSIGNIFICANTES 

Somos todos insignificantes. Somos muitos e intersubstituíveis sem grandes sobressaltos sistémicos. É a partir da nossa insignificância que damos significado uns aos outros, mas ser significativo não é sair da insignificância pois a insignificância das pessoas para quem somos significativos também nos torna insignificantes. Ser insignificante é um estilo, uma relação com a vida marcada pelo cumprimento e pela dedicação. As coisas simples impõem funções e ritmos plácidos, mas deixam amplitude para uma suficiência que roça o transcendente o qual, contudo, persiste inconclusivo. Como se pertencesse à própria transcendência definir-se de uma forma imprecisa ou formular-se com precisão usando conceitos imprecisos ou não mensuráveis de modo a: 1) ocupar as pessoas insignificantes com formas específicas de aceitação das coisas não evidentes; 2) entorpecer as pessoas insignificantes com discursos arrebatadores sobre a transcendência de coisas que devem ser tomadas como significativas, 3) frustrar as pessoas insignificantes que não encontram a transcendência que procuram e se embebedam para não sentir o vazio, 4) alimentar o diálogo sobre a transcendência em que cada pessoa procura alimentar a sua fé com a fé do outro, assim desfazendo as suas dúvidas, 5) reunir as pessoas insignificantes numa forma comum de dúvida, 6) pois no que toca à transcendência as pessoas não insignificantes e que são, ainda assim, bem intencionadas, são mais imprecisas nos seus conceitos e tendem a abusar da nossa credibilidade nas palavras; 7) essas não pertencem ao «todos» inicial: tiveram biografias e autobiografias publicadas tornando-se personagens além da sua insignificante vida. Portanto, concluímos, somos todos insignificantes, mas nalguns polarizaram-se papéis críticos, necessários nos momentos históricos em que o sistema se arrisca a implodir; a figura da pessoa significativa é um estereótipo mítico que então surge, sempre o mesmo em qualquer época, sempre com uma retórica sub-reptícia sobre a transcendência com a qual reconforta as pessoas insignificantes.

CLUBE MEDITERRÂNEO

Há um momento na vida em que só resta partir para um clube de férias, desgostoso com a poesia ou para evitar novos imprevistos. Aí troçam da vestimenta, olham-nos como estranhos, jantamos sós, não temos parceiro para o ténis e são eles que têm razão, ou melhor, a razão é um braço de ferro. Percebem-se razões muito fundas desde a forma de ostentar as iniciais ao abordar uma mulher no bar da praia, ao uso de desodorizantes e odorizantes cutâneos e à culinária em geral. Até mesmo em situações difíceis o estilo conta, por exemplo, no gesto de abrir a carteira sem refilar, embora sabendo-nos enganados. Porque a poesia é não gaguejar quando as pontes ruem e se percebe não se poder contrariar a celestial naturalidade da linguagem. Então, é apoderarmo-nos do eco num recanto aluado do medo, ouvir o verso e o reverso. Mais vale esquecer as derrotas, concentrarmo-nos nos objetos pessoais, cuidá-los pelo que nos evocam e não lhes exigir senão um local contentamento. Perto do final, alimentar um desejo íntimo de que as coisas falhem. Percebe-se a sua definitiva insatisfação, mesmo que a mulher nos corresponda, que evitemos os sabores vulgares da culinária hoteleira e tenhamos parceiro para o ténis. Percebe-se a poesia ser um corpo na mente onde algumas coisas se inserem e donde outras são expelidas.