Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

a pós-natureza

Em breve poucos animais restarão fora das zonas demarcadas para a sua conservação. Conservar a natureza será outra função civilizacional que supõe a sua prévia destruição ou, pelo menos, uma séria ameaça à sua sobrevivência. Em geral, excluímo-nos da natureza excepto durante as férias. A nossa sobrevivência depende de condições criadas pela história e não por nós o que constitui uma fonte permanente de mal-entendidos. Cada um encontra soluções ótimas e impinge-as usando argumentos viciosos. São, contudo, os mais aceitáveis pois uma argumentação racional da utopia implica noções rebarbativas que já causaram inúmeras guerras no passado. Não existe um programa humanitário específico de conservação da natureza, cada país tenta destruir o indispensável, abater algumas árvores se necessário, por vezes, arrasar uma floresta, mas sem ter a intenção de alterar o clima e toda a gente fica surpreendida por este se alterar. Aí entram as explicações cabalísticas, milenaristas, catastrofistas, mas as que prevalecem são as que minimizam o problema confiando na regeneração eterna dos sistemas ecológicos. É um raciocínio simples do género «Se ainda não aconteceu é porque nunca acontecerá» ou mesmo dos que atribuem alguma espécie de invulnerabilidade a um povo ou à humanidade ainda que ela possa estar implicada na sua própria destruição. O que parece estar em causa é que, excluindo-se a humanidade do conceito de «conservação da natureza», ela própria não se poderá conservar, pelo menos do mesmo modo em zonas reservadas para o efeito. Assim assistiremos à situação dos parques naturais e outras reservas ecológicas que a civilização declarou ilhéus de «natureza» albergarem uma efetiva população de espécies sobreviventes, mas não o homem-turista que as deveria visitar nas férias e que, entretanto se extinguiu. A expressão hipócrita «pós-natureza» com que o homem contemporâneo se pretendia desresponsabilizar do seu destino, acabou por significar uma natureza que se viu livre da humanidade.