Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

DIALÉTICA    

Já não se pode falar de desejo, mas de proximidade – que é a dança dos momentos quando têm duas origens e convergem. É uma relação espacial entre dois dispositivos preparados para o melhor e para o pior: 1) seja porque esta convergência ultrapassou o desejo, não no plano fusional, mas no do próprio aniquilamento, 2) seja porque a disponibilidade (e não a saciação) deu lugar a uma desesperada vontade que se foca em qualquer coisa (num semelhante, num clube desportivo, num deus fanatisante, numa coleção de borboletas, no próprio corpo como objeto de culto já separado do discernimento), 3) seja porque a disponibilidade é uma mera projeção da presença (neste caso, do desejo da presença: a ausência), 4) uma projeção no tempo e, 5) no fluxo de necessidades e ações que designamos por «viver a dois». Esta exposição assentou na existência de um consenso sobre o que é «melhor» e «pior», um consenso periclitante em si, isto é, instável para quem o apregoa e ainda mais se se pretende a partir dele regular a proximidade. Por isso, falamos de desejo entre dispositivos a fim de conservarmos a maior universalidade de que os humanos são um caso particular. Lembremos que as pessoas têm idealizações sobre a sua animalidade como se fosse obsceno o que fazem com os corpos uns dos outros, o que deixam fazer e principalmente o que não se permitem e persiste como devaneio escondido e envergonhado. O «melhor e o pior» não se explicitam como amor, não saem da autorreferencialidade emocional de uma expectativa prazenteira que não quer passar à ação. Dizem: «Não é desejar melhor do que possuir?» ou se mais ousarem: «Não é melhor seduzir como se desejasse?»; raramente: «Não é melhor o arrebatamento numa construção totalmente autónoma?». Já não se poderá falar de desejo, mas de uma proximidade intermitente ou descartável – uma divergência íntima e destrutiva. Preparam-se para o pior que é uma desconfiança que imagina e mata. De quem morre dizemos que amava e era fraco.

DE DENTRO DO CORPO COMPREENDE-SE TUDO

DE DENTRO DO CORPO COMPREENDE-SE TUDO   Malgrado toda a psicologia que pomos no assunto, ainda hoje é difícil avaliar o que viabiliza o amor. Vemos juntas pessoas muito felizes, outras que se detestam e sofrem julgando ter razão, outras ainda que definham consumidas pela desesperança do abandono. Algumas usam o amor para simplesmente procriar com entusiasmo, mas também existe quem abuse do entusiasmo de quem quer procriar. Portanto, é difícil ainda, sequer, listar os fatores que condicionam a coesão de uma relação bem como os que a minam. Tal como é difícil avaliar a veracidade de muitas coisas, é inconclusivo distinguir em cada género as estratégias implicadas nas relações. Por exemplo, como um vulgar sociobiólogo, contabilizar oócitos e espermatozoides e criar paradoxos com as desproporções. Porventura, a principal caraterística biológica da espécie humana é ter anulado o impacto do sexo nos comportamentos de acasalamento. Tendemos a atribuir à cultura estas conquistas cívicas que prezamos muito, mas ignoramos se danificarão procedimentos reprodutivos que evoluem há milhões de anos. Agora conhecemo-nos demasiado bem e amamo-nos ou destruímo-nos com maior eficiência, embora com os efeitos mais limitados juridicamente. Se tivéssemos que refundar uma teoria geral do amor, consideraríamos: 1) modular o papel das grandes forças que determinam a paixão e que liquidam a paixão; 2) regular o papel do acaso sobre uma libido convexa, em qualquer caso, adoçando os impulsos, demasiadas vezes, incontroláveis; 3) o papel do acaso e dos seus acidentes meteorológicos e sociológicos: todos os casais deveriam ter direito a uma lua-cheia espampanante na noite do primeiro encontro e, no regresso, a uma greve nos transportes públicos. No capítulo 1, veríamos cada molécula do universo ensaiar formatos de aglutinação com outras moléculas de modo a criar estruturas crescentemente mais complexas que implicam teorias de outro nível, também crescentemente mais complexas. Tem-se designado por «natureza» esta furiosa organização que desconjunta, congrega ou reconjunta as moléculas com um cimento muito coesivo designado «amor», uma tendência geral da matéria para ciclos de complexidade/caos. Esta humanidade escreve poesia e códigos e teorias e constrói monumentos para sua própria glória, constrói também, bombas nucleares e vive na eminência de uma guerra que reduzirá a cinzas a complexidade alcançada. Porque existem limites para a complexidade: quando se atinge um teto de beleza ou de justiça e perfeição social ou de harmonia e sintonia com alguém ou com tudo, o nosso cérebro não aguenta e destrói tudo para não se desfazer ele mesmo. No capítulo 2, a libido é um camaleão com insónias sempre à espreita de uma distração para saltar sobre o escaravelho-fêmea que acabou de devorar o macho com quem copulou perante o sociobiólogo estupefacto; procuramos metáforas para o acaso, uma dor numa cadeia de alienantes pressuposições. No capítulo 3, assistimos ao inexplicável e ao hipercomplexo, meros efeitos de escala. Os nossos olhos são um filtro demasiado claro: as coisas surtem evidentes, sem lugar para a espessura metafísica da transcendência: as nuvens simplesmente aglomeram-se, carregam o céu de um negro elétrico insuportável e negativo que o acaso desfaz em relâmpagos. Está tudo dito e se nos abraçamos é porque temos medo e nos queremos proteger. Se passada a tempestade, uma lua-cheia espampanante aparece, logo tomamos a situação como prenúncio de um bom augúrio e mantemo-nos abraçados omitindo que o início da situação foi uma tempestade que achámos temível. Mais tarde, quando numas curtas férias românticas, se depara com uma greve da aviação, percebemos o logro e repensamos tudo ao contrário: a tempestade e o medo como mau augúrio e concordamos em acabar a relação que julgámos eterna. Nisto os grandes amantes adotam uma escala trágica: com uma abrangência poética duvidam de tudo o que lhes parece evidente: do amor que aglutinou as nuvens e deu espessura ao céu. Estas, cobrindo a lua-cheia, criaram a ocasião de um abraço. Tudo isto que acontece são peripécias de forças irónicas que procuram equilibrar-se e nos arrastam para um destino. Tanto podemos dizer que pensamos demasiado como que pensamos mal ou que falhamos as coisas verdadeiramente determinantes ou que nada é verdadeiramente determinante e as coisas que como tal se afiguram são aglutinações de factos simples como o amor que, tal como nos uniu e às nuvens, também pode apagar-se sem o aparato de uma trovoada.

CALAR AQUILO DE QUE NÃO SE PODE FALAR  

Hoje ainda tive prazer com o seu nome. Pude dizer-lhe: «Amo-te fonte da vida, tesouro de éter, fluxo dos segredos ancestrais da poesia eterna – amo-te final de ópera divinizado e estático. Serei alicerce da tua beleza oceânica. Só tu me ouves, só tu toleras os adjetivos das minhas pomposas afirmações cosmológicas e me ajudas na inaptidão. Sinto os meus olhos de inseto mastigarem uma falsa doçura que me engasga, uma loucura nos planos das palavras que um beijo teu detém». E ouvi em resposta: «Vivo para ti na ilha onde a verdade são as flores de lótus do teu ventre. Quero os sorrisos de gato que aterram no meu peito, quero que ressoem no raro do poema, que das tuas mãos coisas raras aconteçam, assim te amo e espero que a ilha aconteça». Depois de um curto intervalo retomou com surda convicção: «Por ser transparente, percorre-me! Nado no teu beijo de ópio, sou a vaga, a força do temor, a seringa de outrora na gaiola de uma imagem intransmissível. Mistura-me num calor heroico. Que me transfigure para teu prazer». Aludia ao exótico das viagens imaginadas quando se imiscuem na imensidão radical do amor, no derradeiro segundo transigiu: «Na dureza deferente do amor, és a teia que se desintegra, cérebro no gatilho da loucura, ócio de carnaval rápido, beijos de balas». Como se eu fosse o fantasma do pai, a inveja sem ciúme do pai nu, cetro erguido, patético manto levantado ao vento, a sua ensurdecedora sombra, a sua ausência persecutória faz de si um espasmo da sua alma, o espectro de um poema macrocéfalo: «Exigias de mim a síntese de uma cascata, o justo valor da palavra, a água de uma flor. Dizias sermos a primeira referência à primavera; no limbo do espelho, ela, selvaticamente, dobrar-se. Depois, sonharmos em comum um planeta de exímios contadores de histórias». Adornava a nossa intimidade com detalhes escabrosos, assim desfazia o privado com afirmações excessivas. Tomaria a fala como um poder absoluto, mas em que lado do espelho germinava a semente? Disse-lhe: «O mar reincarna-te, as alegres gaivotas não são alegres quando recitam os orifícios por onde o teu corpo se escapa. Sou o mar da tua carne arrebatada na transição para a loucura – um desejar microscópico dos teus minutos derrete-me a vontade, puro material do tempo». Cantigas de amor correm por campos floridos até ao recanto do bosque onde o eco se multiplica: desencontro: cada som desmaia numa lágrima: foi assim o amor, a compreensão total de um delírio para sempre triunfante sobre a fome. Deitámo-nos, estrebuchámos fusionando-nos no maravilhoso parto de uma lua – atrás do cenário, quem sabe o que estará a acontecer, o que irá acontecer? Mais vale calar aquilo de que não se pode falar.

para uma teoria do valor do outro

Ao certo ninguém sabe o que é o amor: 1) uns colocam-no muito perto do sexo, 2) outros, a par de um reportório de manhas que usa palavras automáticas a que é difícil escapar; 3) outros ainda atiram-no para uma irmandade siamesa de interesses desemparelháveis, ou, 4) de preocupações e proteções e soluções sempre ao serviço de alguém mantido num altar de estranheza; 5) ainda, para outros, é admiração por alguém a quem se atribuiu um valor e cuja dignidade se diz respeitar, ou, 6) simplesmente, uma admiração que se fixou num gesto, num tom de voz, mais frequentemente, na graciosidade, quase táctil, do corpo ou de um detalhe do corpo, atributos que passaram a marcar uma personagem cuja presença se estima como a casa que habitamos porque é a nossa. O problema com o outro é não estabilizarmos uma destas formas de amor, assim tanto acontece desinsuflarem-se como deslocarmo-nos de um entendimento de amor para outro, surpreendendo o parceiro pois a nova situação pode ser abertamente desvantajosa para ele. Ainda sem levantar questões de poder que podem sempre ter uma leitura sexista, vamos tão só chamar a atenção para um valor instrumental atribuído ao outro por aquilo que ele proporciona e, aqui, está-se a abrir maximamente a noção de «valor» embora tentando não a moralizar (restringindo o valor à utilidade do outro): 1) o outro fonte de satisfação (um modo de nos tomar o corpo ou de o envolver no seu), 2) o outro fonte de vanglória (o outro-troféu exposto aos pares que nos admiram porque o possuímos ou, pelo menos possuímos o direito de o ostentar), 3) o outro fonte de proteção (como um chapéu-de-chuva nos abriga das intempéries ou como um chapéu-de-chuva antinuclear nos protege de males ainda maiores), 4) o outro fonte de vantagens alimentares (deixa-nos as sobras do seu pequeno-almoço, as torradas já secas, o xá preto refeito com água acrescentada), 5) o outro fonte de vantagens materiais (dádivas que nos parecem pagamentos a preço de saldo pelo que nos reservamos o direito de o roubar), 6) o outro fonte de devaneios (permanente e intocável, ele escapa-se quando o pretendemos tomar, aproxima-se quando o queremos deixar), 7) o outro, parceiro de cooperação (um altruísmo recíproco aplicado à sobrevivência). E se a noção de «valor» nos faz entrar no domínio do maior valor sobre o menor, também o «desvalor» interfere no amor. Na verdade, tudo o que tem valor se sujeita à desvalorização que tanto resulta de uma efetiva perda de valor (alguém que se demenciou ou que foi amputado ou operado à próstata) como resulta de treslermos o outro (as suas intenções, aviltantes, as suas observações, néscias ou agrestes, os seus gestos, toscos e desadequados). Portanto, quanto à estabilidade do amor, se o entendimento de «amor» é afim do valor atribuído ao outro, esse entendimento reforça o valor e este reforça o entendimento; se o valor (a beleza, por exemplo) se perde unilateralmente (consequência do próprio envelhecimento, em geral), o amor mantém-se apenas se o valor do vínculo superar o valor que cada um atribuiu ao outro.

uma definição original de «amor»

Não vamos continuar a tentar definições originais de «amor» como se faltasse ainda dizer algo relevante. Amando sentimo-nos transportados para fora da nossa quotidiana mesquinhez, mas já reconhecemos que essa exaltação pelo outro não é explicável pelos méritos do outro; é o funcionamento de um sistema que usa a vulnerabilidade humana ao sublime. Podemos, no lugar de definir, inventariar a ação que o amor pode conter (desde logo excluindo o amor-próprio que é um uso abusivo de «amor»). Assim, teríamos: 1) «Escrever». Inscrever um coração e uma seta no tronco de uma árvore ou um poema enaltecendo o que o outro nos faz sentir, cegamente atribuindo-lhe a nova beleza que vemos nas coisas (pois que a escrita precisa de errar). 2) «Compreender» e «nutrir»: compreender que «compreender» e «nutrir» nutrem todas as transações; também que uma disposição a compreender permite separar o aceitável do repulsivo pois que tudo é compreensível, mas nem tudo o que é compreensível é aceitável. 3) «Dar»; dar não apenas materialmente, mas como expressão e como criação; envolver-se num altruísmo a dois inesgotável como uma máquina com engrenagens acopladas, cada roldana cedendo energia à outra. 4) «Ouvir embevecidamente» os poemas do outro deixando para mais tarde uma terna micropiedade pelo seu mau gosto. 5) «Prometer». Prometer o melhor de si contando com uma versão otimizada do nosso eu e que o mundo corra de feição (pode não ser plausível). 6) «Fundir». Efeito do calor semântico nas auto-descrições do «nós». Risco: desaparecimento do riso. 7) «Controlar» o outro seja engradecendo-se de modo a não lhe deixar espaço à vontade; ou taurinamente investindo contra as suas defesas fragilizadas pelo amor, ou denegredindo os méritos que outrora gabou. A partida do outro ameaça-o porque a admiração é precária. 8) «Excitar/agredir/aliviar», um trinómio que vícia como o boxe. 9) «Agredir/expiar», um binómio que vicia como uma condenação a prisão perpétua. 10) «Oferecer/precisar», mas um oferecer interessado em gerar cobiça, uma cobiça que prostitui e quanto mais violenta maior a cobiça, maior a oferta, maior o vínculo. 11) «Passar o tempo com». Viver com o outro em substituição de viver consigo próprio – o outro tematicamente vital. 12) «Partilhar» – o outro representa a parte da humanidade que gostaríamos que concordasse com as nossas opiniões. As ideias da moda baralham a nossa correção amorosa: mulheres e homens só na velhice alguns estabilizam uma pose, só quando desistem de ser super-heróis e glamorosas vampes são capazes de uma extensiva generosidade, felizmente para eles esquecem ou fingem ignorar os ridículos papéis que desempenharam, mas é quando procuram uma definição própria de «amor».

o Taj Mahal negro

Toda a natureza existe e se embeleza em vista da reprodução. As flores do jardim competem para as abelhas que trabalham organizadamente para uma rainha-mestra reprodutora e fazem exaltantes as primaveras. A civilização especializa os indivíduos e distribui-os – a hierarquia marca a reprodução ou a reprodução condiciona a hierarquia? Nas sociedades humanas tudo pode acontecer no sentido de os papéis sexuais de cada género serem condicionados pela imaginação; esta condiciona as expectativas que são, por sua vez, sugeridas por uma interpretação do comportamento do outro. Esta observação do outro ora é muito recatada, restrita a um olhar uma fração de segundo mais demorado ou num relance sobre localizações indiscretas do corpo, ora são muito descaradas, quase javardas a percorrerem o outro de uma forma explícita e insistente – porque a javardice desrespeita e o desrespeito, tal como o poder permite tanto o requinte como o abuso e a submissão do outro que se amesquinha. Ficamos todos olhando o Taj Mahal e a pensar que morreremos a parir como a princesa. Catorze filhos teve ela, os últimos já entradota o que dilatava os riscos da gravidez, mas como cessar o império de uma rainha-mestra senão reinando ainda? Como morrer senão parindo? Assim como as lágrimas se soltaram simétricas, inconsoláveis e simultâneas do rosto de Shah Jahan, o marido, assim o mármore branco se esburaca, a alma rendilha-se, a eternidade parece insuperável como a tristeza. Pareceu-lhe absolutamente necessário outro Taj Mahal negro pois que o luto começa branco e simétrico da vida numa memória continuada por truques de evocações, mas há um momento em que a presença se perde e o que fica é o negrume da resignação. Os filhos depuseram-no impedindo a construção de um Taj Mahal negro na margem do rio oposta. Seria redundante, mas as pessoas tristes tendem à simetria.

a reprodução

Os termos aproximados foram estes: «Desculpe, agrada-me o seu aspeto; importa-se de me disponibilizar o pénis para que eu execute um procedimento de estimulação com vista a uma recolha de gâmetas?». Ele olhou-a um pouco surpreendido, e ela continuou: «Pretendo descontaminar a minha reprodução de interferências e, simultaneamente, controlar os fatores genéticos ainda sem romper com a intimidade biológica de fecundação. Seria um trato livre de quaisquer ónus ou encargos para si». Ele respondeu que se sentia honrado com tal distinção e se disponibilizava para, numa sucinta interação erótica, se dar a conhecer um pouco e, depois, ele mesmo introduzir os seus gâmetas nas vias genitais da interlocutora. Ela pacientemente explicou-lhe: «Não preciso de mais informação do que aquela que a sua atraente imagem me revela. Escolho-o como a um telefone, um eletrodoméstico ou um emprego: comparo atributos, imagino o desempenho e como cada coisa encaixa nas minhas rotinas, contudo, agradeço-lhe que me informe apenas se na sua família existem doenças genéticas». Ele negou. Ela questionou-o sobre a posição que escolhia para a manobra. Ele escolheu sentar-se. Ela solicitou que, consequentemente, ele expusesse o seu pénis como num campo operatório. Ele fê-lo. Ela sentou-se em frente e estimulou o pénis com gestos precisos. Ele produziu um discreto gemido quando na eminência da ejaculação. Ela recolheu os gâmetas num frasco esterilizado, despediu-se, agradecida e partiu. Ele continuou sentado alguns minutos a pensar nas consequências antropológicas do acontecido, mas não no destino do ser que resultará do procedimento.

as grandes amantes

«Gostaria, meu amor, de saber dar-te quanto o meu desejo te quer, gostaria de possuir a chave de todas as saciedades e escondê-la-ia para que me procurasses sempre como um adolescente, gostaria de todos os dias descer a escadaria do paraíso para nunca esquecer a tristeza de não te ter, para nunca esquecer a alegria paradisíaca de te ter, gostaria que o paraíso fosse eu aberta a uma eternidade ruborescida pelo desejo e as mil vezes que sobre mim viesses fossem coros de anjos louvando as primaveras mais férteis. Mas a minha beleza não chega ao tanto que te desejo, não chega para o que te quero nem para o quero que me desejes, não chega como aparência para a renovação do mundo que o nosso amor exige. Ele é a pura exaltação do coletivo em que nos fundimos persistindo cada um o calor claro do tempo. Precisamos de todos os mundos futuros numa euforia criativa que nos reverta os corpos e se materialize em todas as utopias que pensarmos. Os corpos nunca se amansam como o mar intransitável dos cabos que se adentram no oceano. Nesse desassossego a beleza cresce e esfuma-se nas nossas mãos de artifícios como esculturas de filigrana e fogo. Gostaria, meu amor, de saber qual o nosso futuro, se este plural com que nos designamos se acimenta e enraizará como um palácio cresce nuvens acima ou se a própria intensidade, como os vulcões se extinguem, levará à exaustão e nem as palavras do outro compreenderemos. O que serão as horas sem o tema da vida, nós como pescadores num oceano contaminado em que não acreditaremos? O que será cada minuto fechado sobre si; o amor como um aquário cada vez mais miniaturizado, cada um de nós como peixes robot paralisados nas suas próprias recordações? A mente nunca se amansa, ávida de uma certeza vulnerável, todos os alicerces que procura, no derradeiro passo do seu alento, sucumbem, castelos de cartas de um jogo mortífero. Ó meu amor, como ainda assim te amar?».

a declaração de amor

A questão importante do amor é quantas vezes ao dia deve ser declarado: «Ó meu amor, meu amor, Ó estátua fulva da minha ardente imaginação, Ó alma cinematográfica de todas as receptividades, alma do meu tectónico vazio, Ó avalanche de primaveras, Ó súmula de odores crepitantes, vem e desenovela-me a mente, vem e abre-me uma janela no tempo do devir, vem e faz-me ser». Uma declaração de amor interrompe o fluxo da monotonia tal como um carteirista, mas que caraterísticas deverá possuir para resistir a ser incorporada na monotonia? A monotonia são as plausibilidades, como manter a implausibilidade de uma declaração de amor, ou a surpresa de um ramo de flores, se ele é oferecido todos os dias à mesma hora? Ainda que as rosas de ontem sejam substituídas por túlipas hoje e malmequeres amanhã, poderá a mudança do formato verbal da declaração de amor obviar à monotonia que os ramalhetes de flores são? Conseguirão os amantes resistir a substituir as orquídeas murchas por delicadas flores artificiais? «Ó meu amor, meu amor, de ti irradia a graça do mundo: na monotonia do deserto, és tu a tímida nascente, o seu palmeiral e a alegria numa capoeira de galináceos alimentados para sucumbir como eu após o teu prazer». As orquídeas artificiais são mais belas. «Ó meu amor, meu amor, que o excesso de beleza das orquídeas que me ofereceste, a sua artificial perenidade dure em mim como uma vontade de ti risonha como um oásis; que nesse oásis queiramos a utopia dos grandes amantes históricos». Se o amor é sincero, é profícuo, haverá muitas fraldas para mudar e demoradas estadias na cozinha; as declarações tornam-se sucintas ou imbuídas nos gestos tensos da pressa e da fadiga. «Ó meu amor, meu amor, Ó meu amor, meu amor, Ó meu amor, meu amor». Já tudo foi dito, gastos os atributos do amor romântico tradicional, as imagens acimentadas dos objetos incomuns gastas nas metáforas dos sexos, formal e estrategicamente quase inconciliáveis. Dizemos desejo, repetimos desejo, insistimos com o desejo e é verdade que desejamos e que é verdade que o desejo é o ator mudo das declarações de amor – mas ao fim de catorze mensagens de amor diárias convenientemente correspondidas, sete anos, o desejo aumentou ou transformou-se? «Ó meu amor, meu amor, meu amor, tudo o que do amor já consumámos me desperta num delírio fusional. Querer-te insufla-me além do que consigo ser. O que me respondes são hinos de um enaltecimento cósmico de astros absorvendo-se e não mais sendo que fogo imaterial, em corpos já imateriais». Cada mensagem esconjura o abandono, significa medo, diz o que diz e o oposto do que diz. Diz o insuportável de, com o amor, a própria existência esvanecer, ser o outro o sujeito dessa ameaça – aplacamento e sacrifícios (mágicos e efetivos) em cada declaração de amor. Diminui o seu efeito desejante, mas aumenta o medo do abandono. Por isso continuam repetidas as declarações de amor.

as entrelinhas

A voz do homem morto ainda a ouvimos, distante, no seu poema ecoando para ninguém, persistindo como uma extensa demonstração lógica que todos desistiram de seguir, mas admitem como verdadeira embora lhes seja indiferente. Assim tratamos os poetas mortos, procuramos esquecê-los como, de uma forma ou de outra, fazemos a todos os mortos, mas os que nos deixam a voz, aparecem-nos inesperadamente, seráficos senhores das suas não-razões. Nós somos os vermes transparentes que lhes comem os restos. Para nós todos os dias são de festa e não tememos nenhuma palavra, mas um poeta com o pecado do medo está arrumado: ou ama descabidamente como um tirano cada configuração sonora ou, se pensa no temível suplício de se pensar, a destruição converge na sua aura. Aceita que magoar-se nos espinhos do vento é um comportamento tático aceitável; assim acede a uma volúpia que se quer exceder e, de vertigem em vertigem, o arrasta como a um palhaço a necessidade de fazer rir. Quer embelezar e otimizar o sofrimento, concentrar séculos de tecnologias de aniquilamento na ciência da sua morte. Era deste engano que falava o poema do homem morto. Permitira-se as triviais navegações pelo desvio, mas descobriu uma dor que era necessário infligir a alguém e insistia em chamar «amor» a tudo o que acompanhava a experiência da noite. Sim tinha a memória dominada pelos passos dos ratos que mordiscavam a sua apaixonada. Ela afastou-se como outras, mas era tarde de mais. Estava desfeita e não mais o esqueceu, nunca mais esqueceu as agulhas de um sublime infalível, o consentimento como experiência gritante de não ser. No poema não transparece o estado do poeta – ainda que falecido a sua voz é atual e futura, na sua epopeia, que lemos como a escrita de homem morto, freme um otimismo radical que imiscui futuro no que é atual. De resto, a sua amante nunca existiu.