Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

outra teoria da justiça

Hipogrifoaxologia é uma nova filosofia centrada no cidadão. Cada cidadão descende de um mito e constrói-se como mito. Desde logo, imaginamos a história de uma amor impossível entre os progenitores, seres com níveis de existência incompatíveis – uma criatura arcaica, rotunda com uma teoria do tudo e a respetiva paleontologia moral, enamorada de um ente evanescente cuja linguagem poderá nunca passar do estádio do periquito palrador. Num meio enriquecido, materializarem-se lagostas gigantes e outras formas de cidadania assexuada preparadas para o domínio pelo domínio ou outras qualidades humanas. O que conta é criar no cidadão a total submissão ao estado. Para isso, este recorre à antipolítica da tirania: permite-se tudo, nada respeita com o único propósito de manter o seu domínio. Em particular, permite-se não ter razão, meramente ocupar o poder com uma cegueira iluminada e mentecapta. Ao cidadão parece nada restar senão aquiescer. Mas alguns denunciam-no, apontam as dezenas de princípios axiológicos que ele transgride. O estado responde: «Posso, logo faço. Obedece ou destruo-te». E destrói pois a maioria carece do estado e hostiliza os que se lhe opõem. Um hipogrifoaxólogo é um cotado especialista nas convicções dos cidadãos. Para o estado é importante que a maioria apoie as suas falácias sem discussão o que é fácil: 1) por medo, 2) por medo de ser rejeitado, 3) por medo dos que não têm medo, 4) por medo de perderem o que é seguro, 5) por medo de pensar, 6) por medo de conclusões políticas óbvias, 7) por uma opção estética pelo poder, 8) por vício («mesmo o estado que não respeita deve ser respeitado»), 9) por uma extensão pública do masoquismo, 10) pela manipulação dialética do caos. Os insubmissos sabem quanto é difícil as pessoas mobilizarem-se por uma ideia de justiça, até por uma ideia natural de justiça, por qualquer ideia de justiça não enraizada numa vontade, num arbítrio divino donde imane uma tábua de mandamentos. Prefere-se a doce madorra do entorpecimento da mente pois o cérebro que diz sim ao estado é semelhante ao de um coelho: ágil a fugir, a largar tudo ou a quedar-se como morto no fundo da toca à espera que a atenção do estado passe com os seus ululantes perdigueiros: « Mata-o. Esfola-o. Se não foi ele foi o irmão ou alguém da sua aldeia. Mata-o. Esfola-o que é preciso é dar o exemplo». Qual exemplo? «O exemplo do medo, de que é melhor ter medo, largar tudo, fugir, desistir de ter razão, nada defender». É a expressão mais simples do coelho face a um hipogrifoaxólogo: o coelho sabe o que é a justiça? Sabe, mas não como um hipogrifoaxólogo.

resolução da fenomenologia existencial

RESOLUÇÃO DA FENOMENOLOGIA EXISTENCIAL   Hoje, já não faz sentido perguntar pelo sentido da vida. O sentido veio com a vida e nós ou o sentimos de imediato, como, ao ver o sol, temos a luz e o calor, ou, se não o sentimos, ninguém nos pode explicar como o encontrar (é como não ver o sol, não ter luz nem calor). Em qualquer caso a vida continua e as coisas têm de ser feitas. Este é o sentido para muita gente: os filhos que vieram e têm de ser criados, as contas do que se gastou sem pensar, as férias em que se obrigam a viajar para algum lugar exótico, cuidar da própria saúde como um escultor esculpe um torso o mais realista que consiga. Muita gente só em férias sente necessidade de pensar no sentido e encontram-no e quando as férias acabam continuam satisfeitas porque embora regressem ao frio e à monotonia, confirmaram estar no caminho certo. A questão do caminho certo não se correlaciona com o sentimento de absurdo: a maior parte dos cidadãos são democratas bem comportados, nunca saíram do bom caminho e, contudo, é desta população que saem os suicidários mais radicais. Sentem o fundo faltar-lhes como se a vida derrocasse e suicidam-se mansamente com pastilhas como quem recusa dar uma esmola e volta a cara para o lado, mas não protestam nem se revoltam com violência. Pelo contrário, são as pessoas que acreditam profundamente no sentido da vida que ao serem defraudados das suas pretensões (em geral, exageradas) tomam veneno para ratos, enforcam-se ou agarram numa arma e disparam sem hesitar. Provavelmente não encontramos em nenhum lugar do cérebro, vestígios do sentido – o cérebro pensa sem sentido, emociona-se em qualquer sentido, age em sentido oposto ao que deveria tal como as pessoas rezam sem nenhum microaltar cerebral a garantir a existência da divindade. Também da pátria, nem vestígio, nem da coragem que ela nos requer, nem da poesia e o empenho suado em cada palavra. Nenhum destes conceitos tão enraizados na língua enraíza no cérebro, ainda que a linguagem enraíze no cérebro. É com ela que afastamos Deus e a pátria com uma coragem que não vem do cérebro nem da língua, mas que a língua mistifica. Portanto, mais vale continuarmos a falar do sentido e a atribuir-lhe importância porque é ainda mais difícil fundamentar as outras questões importantes. Porque não nos matamos uns aos outros como antropófagos divertidos? Porquê respeitar os fracos e os velhos que já não têm préstimo social?, o que nos impede de os roubar, de os explorar, de os extinguir? Porquê a generosidade, a misericórdia, o altruísmo? Porque é que a beleza é melhor que a repulsa? Porquê a democracia, o futebol e a pílula anticoncecional? Respondemos porque sim, porque aderir é acreditar, o que já é sentir o sentido. Apenas sei que como porque tenho fome, amo se me atrai, canto se estou alegre, se triste choro e que o sentido não está no animal automático do corpo, mas no papagaio da alma que faz perguntas tontas apenas porque a linguagem lhe permite. Hoje, tudo o que é humano tem sentido para os humanos.