Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

carnaval sem máscara

A máscara é um uso do rosto. O rosto é a porção nua do corpo, mas poderia ser outra parte qualquer. Há culturas que despem o corpo e culturas que cobrem o corpo das mulheres. Até os olhos veem através de uma rede como se não pudessem esquecer a sua prisão. Estes véus no rosto protegem o rosto da expressão. A máscara não esconde o cansaço, nem o desespero, nem a revolta como uma confissão por um delito que pudesse ter cometido e que mais vale pagar desde já. Portanto a máscara total significa a proteção total do rosto – o silêncio expressivo do rosto – pois que quem tem o rosto silenciado como pode falar, ou rir, ou protestar, zangar-se ou submeter-se, até? A máscara quer o rosto como o rosto quer a máscara, quer o seu silêncio estereotipado colado nalguém que brinca ignorando ou não ignorando que as razões humanas podem ser desrespeitadas e o poder, sobretudo o poder ostensivo que fere, que extorque, que violenta, que condena, ao ser suspenso por uns dias, pode ser humilhado e derrotado num jogo de trevas e luz. Mas as máscaras caem e nada as substitui; trevas e luz são o estado normal das coisas cerradas no seu inverno e o que esperamos do carnaval não é nenhuma forma de esperança: a suspensão das diferenças nas hierarquias, uma grotesca igualdade de parecer grotesco, de se reinventar grotescamente no sexo oposto, de se assenhorear de um castelo de papel e ser um general ou o chefe da polícia. O plebeu vestido de rei do carnaval sabe-se condenado a morrer na quarta-feira de cinzas: o carnaval é uma passagem marcada pela libertinagem e o rei mal sabe o que a sua morte significa para a normalidade das coisas. Depois, o jejum, a abstinência de carne e de sexo porque a mente precisa de máscaras, as regras precisam de um rosto, de uma mão violenta que mistifique o destino, que finja encaminhá-lo como se soubesse para onde. Inventa: o destino é um uso do poder.

terça-feira gorda

Realçar o não acontecido não implica desvalorizar a pletora de insignificâncias que constituem, dia a dia, o acontecer. Por vezes, fartamo-nos da monotonia e estimula-nos saber dos tumultos nalgum lugar, de preferência longínquo; desejamos (superficialmente) que os bons ganhem e façam o progresso avançar e que os maus sejam convertidos ou neutralizados. É claro que preferimos a calma na nossa cidade onde os tumultos são previstos e o que acontece segue uma ordem que construímos e que é difícil de abalroar. Aqui temos um papel mais ou menos estabelecido que seria custoso mudar. Por isto, é aqui que o que não acontece é importante – e não o é pelo facto de poder ter acontecido, nem a probabilidade do seu acontecimento é relevante pois não teria alterado nada de significativo, mas porque dedicamos muito tempo a devanear seja: 1) porque desejamos o que ainda não temos, 2) porque tememos o que nos possa advir, 3) porque queremos controlar o que poderá acontecer, 4) porque pensamos poder fazer acontecer algo desalinhado do acontecido (o improvável), 5) porque planeamos formas substitutivas do desejo susceptíveis de consumação, 6) porque o desejado não tem que passar a consumado, 7) porque o devaneado pode acontecer em formatos frustes e de curta dura. É ao que serve o carnaval. Porque esta desmesurada atenção ao que acontece, que nos faz competir todo o ano para que mais coisas nos aconteçam melhores do que aos outros, temos a convicção que camufla muitas outras coisas que também poderíamos ter sido se fizéssemos as coisas acontecer doutra forma. Muitas pessoas trocam de género nestes dias o que pode dever-se quer a simpatia pelo que seriam com o XX ou XY trocados, quer ao desabrochar de parafilias omissas quer a aproveitar a oportunidade para ridicularizar o género oposto. E motivos não faltarão: há um acumulado de reclamações de parte a parte, mas nem sempre reclamam por boas razões. Nem sempre percebemos o propósito de quem troça: se por vezes aparece na crítica um convite à mudança e à conciliação, em geral a intenção é varrer de cena drasticamente alguém ou uma situação negativa. Nada disto tem relação com o cómico, nem sequer com uma golpe catártico bem apontado ao presidente de serviço; é apenas o grotesco de um palhaço interno que já não conseguimos esconder: ele solta-se como um papagaio foge para morrer longe do poleiro, desiludido pois achava ser mais libertadora a liberdade. Assim, fica tudo na mesma.