Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

SOBRE OS CEMITÉRIOS  

Não podemos enterrar os nossos mortos como fizemos ao cão quotidiano que nos aturou tanto tempo. Aos nossos mortos não deixamos que se quedem num lugar com sentido. Dedicámo-nos às pessoas e dedicámo-nos ao cão. Acompanhou-nos doze anos como nenhum humano. Numa sombra do jardim lembrará um companheirismo que permite pensar a humanidade e a civilização. A humanidade é o outro: o cão é o lugar vazio do outro, logo é o outro. A civilização é o que nos impede de enterrar os pais no jardim. É um conjunto de argumentos, todos bem pensados, que nos impede de fazer uma coisa que teria todo o sentido. Raramente pensamos nas coisas que a civilização nos impede de fazer – é isso ser civilizado, uma sintaxe aplicada à vida e que se sobrepõe à vida tal como a linguagem se sobrepõe ao pensamento e não questionamos as suas apertadas regras. Temos simpatia pelo português como estimamos o nosso jardim onde gostávamos que estivessem os nossos pais. Gostaríamos de os acompanhar na espera pelo apocalipse, que confiamos seja demorada, mas enquanto o português é flexível quanto à deposição do sujeito na frase, as pessoas têm que ser enterradas onde a civilização prescreve como uma espécie de tributo devido à linguagem: utilizámo-la, agora cumprimos a lei sem argumentar se essa higiene se justifica, se esse controlo estatal sobre os cidadãos que já não usam a cidadania se justifica, se essa ritualização funerária com as respetivas catarses de perda têm vantagens sobre o choro solitário num jardim. É como pensamos nos momentos difíceis: questionamos a civilização e a humanidade que, genericamente, respeitamos, ocasiões em que libertamos algo de incivilizável que persiste em cada um.