Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

OS REIS MAGOS  

Este ano, não escrever cartas ao Menino Jesus, este ano, testar a autossuficiência dos meios de produção instalados para satisfazer a nossa avidez de crentes, este ano recusar qualquer forma de ingerência transcendente nos mecanismos de saciedade ao dispor dos cidadãos, este ano degustar o despojamento monástico na versão franciscana, praticar um materialismo dogmático numa versão «bom selvagem», não antropófago, mas pouco generoso. Este ano, ninguém a quem apresentar uma listagem de desejos, a ninguém reconhecer a sapiência de os satisfazer ou frustrar segundo critérios de oportunidade. Por exemplo, no Natal deixo de gostar de chocolate tal a abundância rompe o equilíbrio entre uma avidez contida e uma oferta satisfatória. A generosidade dos amigos e da família não descobre em mim outras fontes de prazer. Não arriscam literatura ou música, não ousam testar a minha reação à escatologia nem, da mesma forma, a uma teologia reformada. Chocolate enjoar-me rompe estes mecanismos de trocas, torna-se, portanto, uma catástrofe social. Por isso, apesar da minha intenção de não escrever cartas ao Menino Jesus, escreverei uma carta aberta ao Menino Jesus. Pedirei: 1) uma versão moderna do canivete suíço com o dispositivo para assaltar bancos suíços, 2) uma versão certificada da Bíblia, 3) um preservativo com seletor de genes incluído, além do on/off, 4) um falador automático adaptável quer às memórias passadas (regulável de modo a evitar as memórias traumáticas) quer ao presente: basta pensar e ele expressa-me em português corrente, 5) um estimulador gustativo universal, com opções de sabores de todas as culturas de todos os tempos, 6) uma nuvem revestidora com temperatura regulável de -50 a +50ºC e colorida segundo a conveniência da situação, no limite de uma situação erótica, capaz de progressiva e subtilmente se transparentar e até de se abrir a uma segunda pessoa sem discriminação de género (para ser politicamente correto). (Nota: em Espanha as crianças escrevem cartas aos Reis Magos e há um grande esforço mistificador para que acreditem nessa generosidade oriental).

comer chocolate à noite

Só em circunstâncias extremas notamos como a realidade pode ser excessiva. Concebemo-la como a matéria-prima do pensamento, mas enganamo-nos pois, em geral, o pensamento não pensa a realidade, antes pensa coisas em segunda mão que, ao serem já antes pensadas, se moldaram às formas como o pensamento gosta de as pensar. Em particular, à noite, os insónicos remoem detalhes ocorridos há muitos anos e zangam-se por o próprio pensamento não pensar outras coisas. As pessoas sabem que o pensamento pode pensar tudo. Os grandes sonhadores usam o pensamento como chocolate – toda a sua existência é a língua no meio da boca cheia de chocolate, bochechado de um lado para o outro, produzindo correntes pastosas de chocolate que varrem as papilas com vagas de micro-orgasmos. São períodos em que a realidade é tremendamente evidente, percebemos próximo o limite da passagem à náusea – é quando a realidade pode ser excessiva. Às papilas do gosto vêm todas as convicções tornadas inúteis pela pujança da evidência, são momentos em que a fé soçobra, em que o patriotismo se desvanece, em que os vínculos e as pertenças se diluem, em que a própria esperança de uma total saciedade, de um poema completo, de uma palavra que sintetize tudo, parecem configurações do chocolate no paladar e toda a restante realidade que também aflui é um cenário irrelevante que apenas conta como repositório do que sucederá quando engolirmos o chocolate e alguma coisa consciente lhe ocupar o lugar. Inevitavelmente, uma desilusão – a recordação do chocolate nas papilas gustativas insinua-se em todo o cérebro como uma onda negativa de desprazer. O enjoo mata o desejo de mais chocolate e, desse nojo, abre-se o pensamento a outra realidade.