Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

SOBRE OS CEMITÉRIOS  

Não podemos enterrar os nossos mortos como fizemos ao cão quotidiano que nos aturou tanto tempo. Aos nossos mortos não deixamos que se quedem num lugar com sentido. Dedicámo-nos às pessoas e dedicámo-nos ao cão. Acompanhou-nos doze anos como nenhum humano. Numa sombra do jardim lembrará um companheirismo que permite pensar a humanidade e a civilização. A humanidade é o outro: o cão é o lugar vazio do outro, logo é o outro. A civilização é o que nos impede de enterrar os pais no jardim. É um conjunto de argumentos, todos bem pensados, que nos impede de fazer uma coisa que teria todo o sentido. Raramente pensamos nas coisas que a civilização nos impede de fazer – é isso ser civilizado, uma sintaxe aplicada à vida e que se sobrepõe à vida tal como a linguagem se sobrepõe ao pensamento e não questionamos as suas apertadas regras. Temos simpatia pelo português como estimamos o nosso jardim onde gostávamos que estivessem os nossos pais. Gostaríamos de os acompanhar na espera pelo apocalipse, que confiamos seja demorada, mas enquanto o português é flexível quanto à deposição do sujeito na frase, as pessoas têm que ser enterradas onde a civilização prescreve como uma espécie de tributo devido à linguagem: utilizámo-la, agora cumprimos a lei sem argumentar se essa higiene se justifica, se esse controlo estatal sobre os cidadãos que já não usam a cidadania se justifica, se essa ritualização funerária com as respetivas catarses de perda têm vantagens sobre o choro solitário num jardim. É como pensamos nos momentos difíceis: questionamos a civilização e a humanidade que, genericamente, respeitamos, ocasiões em que libertamos algo de incivilizável que persiste em cada um.

de como apenas a violência remove o homem do centro da evolução

Estamos no auge de uma experiência bucólica acompanhados por alguém que se afigura disponível para nos acompanhar todo o futuro. Sentimos no corpo uma atração geral pelo seu corpo, um processo vivido com um harmonioso agrado cósmico. De súbito, uma dor puntiforme lancinante no sovaco esquerdo que não podemos deixar de atribuir a uma formiga que deixáramos passar, generosamente, no banco de pedra, uns minutos atrás. Mordeu-me por motivos que consigo imaginar a partir de uma invertida empatia. 1) Desde logo sinto a diferença de escala com um sentimento de superioridade que me parece inútil justificar: é uma crença antropocêntrica de que estou no topo da evolução e, 2) que a formiga é um mero elemento sem individualidade de um meio que ocasionalmente me agride e de que me tenho que defender. 3) Cheguei a sentir pelo seu comportamento aparentemente curioso o mesmo que se observasse uma criança que explora uma gaveta: pega em cada objeto, sacode-o, leva-o à boca, chocalha-o contra o chão antes de o largar para se dedicar ao próximo. Depois de mordido compreendo que a sua aparente curiosidade difere da da criança, antes se subordina a uma ordem específica que a amesquinha como indivíduo. Desprezo tais sistemas, desprezo as coisas feitas simples em nome de uma qualquer totalidade. 4) Penso que não compreendo a sua simplicidade de elemento de um sistema que colhe os benefícios do seu trabalho de exploradora, mas não reconhece os interesses de cada elemento da comunidade – fora desta fórmula o que significam as inflexões do seu trajeto? Já não me ocorre falar de liberdade nem de determinação: talvez um detetor de feromonas explicasse essas inflexões no trajeto, mas o que determinou a libertação das feromonas que determinam o trajeto? 5) Não sinto simpatia pela formiga rainha que suponho existir e dar sentido à ordem do formigueiro. Não gosto da sobrespecialização de funções: cada indivíduo no seu nicho sem visão de conjunto como pode decidir sobre o destino do conjunto? 6) Porque me mordeu agora e não antes? Porquê tão perto do coração que carrega uma tão pesada simbologia? 7) Porque não me teme? Despreza a minha disposição à violência ou despreza a sua vida? 8) Não antecipou o risco de ser morta malgrado a desproporção entre a dor de me morder e a minha reação de a matar? 9) Deveria considerar outra resposta?, matizar a vingança – apenas prendê-la, torturá-la, mas não a matar? 10) Ou matar a formiga não é matar, mas apenas eliminar uma ameaça que pode morder de novo? 11) Terei ficado tão traumatizado pela dor da mordidela, que esta ofuscará o agrado da paisagem com tão estupenda companhia? Nietzsche dizia que sem dor não haveria uma impressão na memória de uma experiência, uma aprendizagem, que, enquanto o agrado da minha feminina companhia se esvanecerá em mais agrado, a mordidela da formiga me fará procurar outros lugares para namorar, uma biblioteca, um cinema, e a não voltar ao campo sem repelente de insetos.

crónica sobre o que deveria acontecer

Hoje, tento escrever uma verdadeira crónica sobre o que acontece no mundo de relevante supondo que seja o que interessa a um leitor ideal: a minha opinião sobre o mundo no dia dezasseis de dezembro de dois mil e dezasseis. «Relevante» implica um impacto na inércia de modo que, ao abrirmos a janela de manhã, logo percebemos que algo se alterou. É um sentimento fisiognómico, uma nova ruga ou um impercetível esgar ou um sorriso apenas muito levemente esboçado no rosto do mundo a que reagimos com curiosidade e inquietação. Creio que o que fez passar o mundo de ontem para hoje sem que nada de relevante se alterasse será o que o fará chegar a amanhã sem guerras atómicas, nem mais morticínios além dos expectáveis, nem novos disparates dos estadistas, nem novas modalidades de injustiça, nem mais corrupção embora reconheçamos também corrupto o que está estabelecido como normal, como eleitoral, como religião e moral. Vou passar o dia à espreita de acontecimentos relevantes nos noticiários de todos os continentes. Entretanto posso adiantar o início do texto: «Tal como a humanidade esperava, aconteceu n_ ______ que foi finalmente decidido que ______. Na verdade, o presidente d_ ________ por ocasião de _____ confirmou que no seu país _______ acontecer__. A população ficou ___ com a notícia que foi ___ em todos os _____. Esperam-se desenvolvimentos importantes para toda a humanidade em diversos sectores e com impacto positivo nos indicadores de ____.». Percebe-se, nas entrelinhas, o meu otimismo histórico. Embora o possa justificar, tenho consciência que o sucesso civilizacional decorreu com momentos de um intenso (e escusado) sofrimento e (atenção!) o sucesso civilizacional anterior pouco diz sobre o futuro, isto é, podemos estar descansados a tomar o pequeno almoço e já larvar o gérmen de um cataclismo ou um dos estadistas com o botão vermelho de acionar a guerra nuclear, subitamente resolver que sim. Talvez seja melhor desejar que nada de especial aconteça hoje e escrever uma crónica sobre o aniversário do leitor, ou sobre a psicologia dos crimes de guerra e a volatilidade dos respetivos valores, ou sobre a morte de um líder maçónico e o tráfico na sua rede de influências. Na verdade, não concebo um leitor ideal e tenho poucos leitores concretos com quem trocar opiniões, mas parece-me que todos os acontecimentos relevantes deste milénio aconteceram de um modo insidioso; foram subacontecimentos que encontraram uma circunstância e uma ocasião e fermentaram, tomaram os hábitos mentais da maioria dos humanos e continuam a estender-se a cada vez mais pessoas. Assim, se antes uma declaração de guerra, ou a descoberta da cura da malária, ou o envenenamento de um papa, ou a conversão dos mórmons foram relevantes e percebemos quando eles se tornaram eminentes, os subacontecimentos de hoje só passados alguns messes percebemos o seu impacto no mundo o que torna especialmente crítico escrever crónicas sobre o que acontece e mais vale escrever sobre o que deveria acontecer.