Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

A MENTE QUE MINTA, O CORPO QUE TREMA  

É no corpo que as intenções se perdem. Como velhos vizinhos tentam ignorar a sua proximidade com uma elegância quase violenta, o eu atende o corpo como a uma criança inepta – ou a um prisioneiro que cuidasse. Mas ambos se emprisionam. Saciado o corpo, o olhar vai onde a imaginação o deixa. Primeiro, paira numa representação do mundo sem coordenadas, onde as coisas se dispõem por afinidades que constantemente variam. Quando uma se salienta, a consciência percorre-a, habita-a, tenta extrair dela todas as consequências, mas ela pouco mais dá. Nem teria de dar pois a maior parte do tempo a consciência é inútil, existe para ser ocupada como um estômago ou um útero, mas deixa-se ocupar à toa, deixa-se convencer do que quer acreditar e usa essas crenças como bandeiras do que pensa. Pensa mal sobre o clima, pensa mal sobre a globalização, pensa mal sobre os que lhe batem à porta, trata-os como se fossem roubar, pensa mal sobre as espécies em extinção, pensa mal sobre a humanidade que não considera o conjunto de todos os humanos passados, contemporâneos e futuros, mas apenas aqueles que admira e por quem tem simpatia. Distorce, sobretudo, a imagem que tem de si, que normalmente deambula sobranceira em uniforme de gala no topo da estátua equestre, mas deixa-se, por momentos, assaltar por dúvidas: «Eu serei esse?». Refere-se ao valor que se atribui. Como vizinhos que se ignoram, o eu tentava considerar-se autor de uma vasta obra que alterou a paisagem da sua aldeia, enquanto o corpo sabia terem sido as suas mãos quem construiu, as suas pernas que caminharam em busca, o seu rosto simpático que sorriu quando era para sorrir, que vituperou e combateu quem era de afrontar. «Se a obra não tivesse sido feita, qual o mérito do eu?», pergunta esse numa aflição. O corpo reage à pergunta: um suor frio na fronte, as mãos tremelicam, as pernas fraquejam, uma náusea vinda da alma vira as vísceras do avesso, o coração explode, a pele eriça-se. A consciência do corpo assim alarmado poderia fazer repensar esta quase hostil vizinhança, mas existem pastilhas para a ansiedade: «A verdade não é o corpo que a conhece, esse dúctil animal que subserve as minhas intenções. A verdade são as minhas intenções».

A FALTA DE RAZÃO PARA TRABALHAR  

Quando temos um grande trabalho pela frente, é preciso engonhar. «Engonhar» é uma palavra quase onomatopeica pois contém a sonoridade de uma lassidão centrada em si – engalfinhada entre um fazer que não se decide e um ócio inquieto e rebarbativo. O ócio também aqui é essencial, um ócio que nos bloqueia, que convoca demasiadas hipóteses como se acreditássemos num futuro construído e feliz. Engonhar pressupõe uma confiança cega na bioquímica das decisões universais. Sentimo-nos escorregar nitidamente para fora de controlo, e, já em desequilíbrio, ainda esperamos que a gravidade se altere a nosso favor e permaneçamos em pé (ou, se cairmos, que seja nos braços de alguém que nos estime e proteja). Um grande trabalho é quase sempre uma prova de esforço inútil: poucas teses de doutoramento são lidas, poucos relatórios sobre política são lidos, sejam genéricos sobre o futuro da nação, sejam específicos como a cadeia de acontecimentos que decorre da extinção das abelhas, poucas receitas de culinária são seguidas à risca pois as pessoas permitem-se ter ideias criativas e melhorarem os menus, apesar de alguns fracassos anteriores. Esta memória dos trabalhos em que não engonhámos condicionou-nos a engonhar: 1) porque a urgência de um trabalho é momentânea como uma dor de barriga, 2) porque um trabalho exaustivo nunca será completado pelo que mais vale engonhar, 3) porque só depois de completo, poderíamos justificar o que deixar de fora, 4) assim um trabalho não exaustivo, logo incompleto e defeituoso, logo parcelar e redutor, logo não urgente e inconclusivo, logo suscetível de ser engonhado; 5) porque a um trabalho não engonhado segue-se outro que é forçoso engonhar; sobretudo, porque, 6) um trabalho já acabado levanta a questão do sentido do que fazer a seguir, que é difícil de engonhar, e, 7) levanta a questão do sentido de toda a ação: 8) se não deveríamos virar para a autocontemplação meditabunda como forma suprema de engonhar. Portanto, a maior parte dos trabalhos conduz a um aprofundamento das razões num erudito encadeamento de comiserações que é a natureza do engonhar o qual resvala para uma subjetividade de apreciações que nos envergonha porque engonhámos, o que é ainda maior engonhanço.

O CARVALHO  

Se o movimento afunila a consciência e obriga à centração dos sentidos na marcha e no que se avizinha, então à imobilidade convém a maior abertura, uma representação do mundo sem filtros, sem preconceitos, sem hierarquias em que o detalhe da vida de um fotão com as suas coloridas narrativas tem importância igual à da nuvem carregada com a chuva torrencial de um dilúvio com as respetivas enxurradas pelas encostas e acidentes mortais ou à de qualquer acontecimento em qualquer escala como a passagem através de um buraco negro. Para um ente imóvel a consciência é uma fotografia cada momento mais ampliada onde, como num pântano, o eu submerge. Um carvalho muito antigo perdeu a noção de existir; os ciclos aplanaram-se, o rio encontra uma cova, detém-se: lago, mar morto. Floresta de carvalhos, a oscilação das forças mansas em contraciclo com a timidez nuclear da vontade. Tudo o que chega é, sem mais evidência: cria o lugar que ocupa, assim se torna necessário como um deus. Contudo, podemos passar ao lado, tranquilos, sem olhar. Se o vento arranca as folhas, o carvalho não quebra. Arrastadas, elas pertencem ao vento, já não à enorme instabilidade vegetal do que é inseparável. Um ciclone arranca o carvalho; ele não consegue pôr todas as hipóteses como um humano, nem pode pensar-se humano como um homem se pode pensar um carvalho. A sua consciência não foca o pesadelo nem o medo pois nunca sonha nem foge; nunca sai da sua verdade nem ambiciona nem imagina. Assim nasce da imaginação a consciência do que não se poderá ser, também daquilo a que não se torna, do que não se converte, do que não se deturpa nem cede, do que deixa de ser e de pertencer apenas se arrancado à terra. A consciência é a necessidade de superar o vento, a esfinge corrompida pela vontade.

é apenas o inconsciente

É preciso acreditar na liberdade para sentir quanto ela falha: quando uma força externa nos toma e nos deixa de fora: o ator principal senta-se na plateia: transitoriamente perdeu o controlo do que o próprio cérebro anda a fazer e, como um polícia em férias assiste a um filme pornográfico sem ter necessidade de formar uma opinião, o ator reexamina-se nos vários papéis que desempenhou. Obrigado a escapar da coerência do eu, larga o cérebro à pura exibição do que o constitui. Os gigantes dormentes entrechocam-se, os seus automatismos míticos, cruamente: «A psicose». Mas não é a psicose, é apenas o inconsciente. Como um palhaço no intervalo do circo recria a síntese carnavalesca dos escândalos em que se envolveu e a farsa do respetivo arrependimento, contar a história implica aplicar à experiência de vergonha e culpa um aparelho de distorções que, mantendo o valor catártico do desabafo, oculta os detalhes escabrosos de que nem sabemos falar. Esse submundo morto fala só – uma força externa toma a voz e fala-nos como se fôssemos, entre tantos submetidos, aquele que sabe a verdade. Mistificamo-la, claro, ao sabor da própria retórica da identidade: normalizamo-nos uns para os outros. Todos sabemos a inautenticidade do que dizemos: 1) que a normalidade é uma convicção, 2) que os solipsismos são psiquiatrizáveis, 3) que a sobrenormalidade pode ser inestética, 4) que a subnormalidade e a paranormalidade devem ser examinadas caso a caso, 5) que a misericórdia é melhor que o crime organizado, 6) que o crime organizado deve respeitar a política, 7) que os atores políticos sofrem catarses orgásticas (independentes dos aplausos eleitorais), 8) que os cidadãos são atores na plateia assistindo ao cérebro representando como se a normalidade fosse uma força externa pouco simpática, 9) que a sinceridade é a armadilha do mentiroso e, 10) que a liberdade não é a mera possibilidade de optar, mas uma convicção. Chegados a este ponto, é impossível demonstrar que a liberdade vale a pena, apenas que, fora do plano individual, a manipulamos com habilidade e nos sentimos confortáveis ao fazê-lo. «Liberdade» não significa «escolher» no sentido da consciência do próprio processo de escolha, tão só que o curtocircuitámos como vulgares libertinos. O inconsciente faz o que quer da nossa vida.

o conclusivo e o relevante

O meu pensamento para e contempla. Não julga, não categoriza, nada tem para decidir e pouco se pensa. Pensa o que contempla que é como um amor que não ama, ou que talvez ame, mas é em silêncio, ou talvez tenha amado, mas agora o que tem para recordar cabe num detalhe da paisagem. Parado como se tivesse sofrido todas as doenças do pensamento, todas as desventuras, todas as frustrações, muitas das alegrias maiores, mas o que tivesse presente quando contempla fosse um ponto de tranquilidade donde a paisagem se contempla e o inclui nela. Fica como um moribundo da ação, um inutilizado pela ação, um devotado à harmonia arbitrária entre as coisas, amarrado ao mastro da aventura com um olhar carregado de memórias. Todas as paisagens fazem crescer uma teia de aranha que é um véu sobre o futuro, um filtro que separa entidades, mas ainda longe de ser um critério de benignidade. Ao pensar o que contempla, o pensamento pensa-se e ao tentar simplificar o que examina excluindo-se, é atribulado por questões internas e faz-me surgir explicitamente como um «eu» ativo, como o sabotador das suas engrenagens transparentes, surpreendido a roubar chocolate quando devia estar a trabalhar para o bem da humanidade como qualquer pessoa: «O que fazes aqui? És o intruso dentro de ti.», diz-me como se dentro de mim decidisse em unanimidade ou como se pudesse pedir contas ao que penso. Estou nele como uma árvore no meio da floresta, mas quando vejo algo admirável, forço-o, ou quando algo de inadmissível acontece, tento que ele tome partido bem como se uma causa aparenta merecer ser considerada. Então, ele para e contempla, eu sigo-o nas suas deambulações, mas, ainda que conclusivo, pouco do que ele pensa merece ser dito.

Edmond Husserl

«Sobre as dificuldades da fenomenologia, ainda hoje não sei exatamente se estou ipseizado. Muito do que eu sei de mim não é experiencial, mas passa-se num estado qualquer que eu não sei descrever. Não digo que me sinta sonolento com o eu a dissolver-se nas ondas lentas da universalidade, ou que esteja entorpecido pelos eflúvios monotemáticos da sexualidade, nem que tenha ficado socialmente inconsciente com as sequelas do último atentado. A maior parte do que se passa é deduzido da própria noção de existir como, num sonho, a continuidade se reestabelece entre episódios que digo meus apenas porque os sonho e outros episódios, alguns dos quais esquecera. Por outro lado, esses estados geram convicções diferentes sobre as mesmas coisas e a minha ipseidade afirma-se então como conciliadora entre uma filosofia estatal que exige racionalidade e coerência e o meu interior que não vê nenhuma razão para decidir entre uma coisa e a sua oposta. Sou um utilizador livre da mente – porque obrigá-la a reproduzir o estado e a sua burocracia? Para lhe pertencer, claro. Como viver fora dela? Como falar da minha ipseidade se ela não se apresenta com clareza? Digo consciência como se percorresse um museu de história natural às escuras – o foco da minha lanterna descobre, ocasionalmente, algo que me parece vivido por mim. Não me pergunto se faço batota com a mente intencionalmente ou por uma necessidade que não mentalizo, mas se me engano a mim próprio sobre a minha ipseidade tenho legitimidade para me apresentar aos outros com o meu engano e usar as minhas crenças opostas segundo a minha conveniência. E não suporto que me confrontem com a inconsistência do que digo. Tal como é autónoma a beleza de cada poema e cada um pode aludir a crenças que noutro poema surgem opostas ou como um ator representa o herói ou o vilão, tal como a maré enche e, depois, vaza, ou um comboio vai daqui até ali e volta na direção oposta sem que ponhamos em causa a mesmeidade do comboio, também eu não me subordino ao que fui. Portanto, não vejo violência em ter nascido nem em nada do que me aconteceu. Não dramatizo nem me tomo como objeto lírico. Aliás, não tenho má opinião dos meus pais que permitiram que os atravessasse como a uma autoestrada cultural para ter acesso à vida. Agradeço-lhes, também, não me terem obrigado a nenhum destino: pude mudar de autoestrada e seguir por onde as estradas se estreitavam e o caminho eram carreiros quase exclusivos. Provavelmente tudo isto que me aconteceu resultou de não estar ipseizado; assim, os meus pseudo-autoenganos resultam da instabilidade das minhas crenças, da instabilidade do meu corpo, da instabilidade da minha casa, da minha cidade, do meu país, da Europa e de todo o cosmos e são o que nos faz assim viver».

a sabedoria dos sábios não é estimulante, mas é sólida

De um lado, uma voz fala sem parar das coisas mais importantes para a humanidade futura. O ouvido direito mal a ouve. O esquerdo ainda menos, ambos apenas filtram a redundância. Eu não sei o que pensar entre pensar tudo tão fluentemente como essa voz e silenciar-me e ver o que não desaparece. Sei que existem doenças no conteúdo da voz e que não tenho nenhuma doença ativa; que me silencio porque não tenho medo da humanidade que fala demasiado nem tenho medo das coisas que ela vislumbra e de que não fala. Penso diferentemente da voz à minha esquerda e, no ouvido direito, o meu silêncio é diferente porque é uma recusa do peso e do lixo. Quase tudo é peso e lixo. Outras vozes falam do que falta no que já existe, outras ainda do que está certo e deveria ser norma, ou do que é chocante e deveria ser interdito. Mas o problema são as que reivindicam ser os agentes da sua própria transformação; pedem pastilhas que as façam ser de uma forma ou de outra consoante lhes apeteça, rir, ter visões e acreditar numa utopia que desapareça depressa, ou quedarem-se numa contemplação neutra e absoluta, sem chegarem ao seu próprio silêncio. Ninguém sabe o que lhes responder. A questão parece ser o que fazer com tudo o que agora se tornou possível; devemos experimentar e confiar que sejam limitados os nossos erros? Mas quando se tornam hegemónicos, todos os seguirão. Deixarão de ser erros, mas continuaremos a ignorar o que se seguirá. A voz à minha direita está embasbacada, incapaz de medir as trajetórias e os impactos das ideias como se acreditasse que, por um desígnio inlocalizado, coincidissem numa figura da bondade que ainda conseguíssemos reconhecer. O meu silêncio significa apenas que não tenho opinião, que não uso pastilhas porque prefiro assegurar a estabilidade do sujeito na escrita. Não sinto necessidade de me alterar para alterar a escrita; ela escreve-se com os seus próprios vaticínios tal como os meus sapatos tentam uma harmonia entre os passos e o solo que pisam. Não tenho outras próteses apensas ao corpo além de um pequeno ciclomotor. Para me elevar apanho um ascensor, não tomo alucinogénios para escrever um poema nem pastilhas para dormir, pois é na insónia que escrevo o poema. Mas isto não significa que recuse as coisas importantes que a voz menciona, simplesmente penso longamente em cada uma e o que penso, por ser inconclusivo, confere-lhes uma aura de lentidão que a faz familiar como «a volta ao mundo em 80 dias». A «natureza humana» é uma falácia para oportunistas éticos como Lewis Carrol, mas gostaria que a voz à minha direita lhe reescrevesse os livros pois acho-a semelhante ao pássaro dodó que achava benigna a humanidade que o aniquilou. Não condenamos a humanidade pela extinção das espécies à medida que o universo se moderniza; deixamos que as coisas sigam uma inclinação que dizemos «natural» e que inclui tudo o que nos poderá transformar noutra coisa que desconhecemos. Mas o tempo é a qualidade do triunfo, não um juízo de valor. Obsolescência é a qualidade do que esqueço, mas na memória nada parece desaparecer, antes continua naquilo em que me torno.

o computador é como um caniche

Esse (o impessoal que não vemos nas coisas que estimamos) deixa espaço à palavra na selva de uma labiríntica sombra. Existir é nada perguntar nem esperar da sombra da palavra que está além da sua sobrevivência. Desvaloriza-la, estabelece graus de vida, desde o lastro de uma vida estritamente mineral, também sua, e o seu eu, que, nesses graus de existência, evolui consoante as circunstâncias. O eu dispõe as partes do corpo segundo a disposição à imaterialidade – desde o aço dos ossos ao vento dos passos, desde o chumbo da memória ao suspiro quase resignado, desde o retículo asfixiado dos pulmões ao cântico gritado no jardim público – sem conjeturar o que é infinito ou eterno. O eu é essa hierarquia das partes segundo graus de vida. Que graus de rara humanidade existem na inteligência artificial? Haverá no lado humano de um cedro uma consciência do próprio canto quando venta e ele pertence à tempestade, filtra o ar que o atravessa e lhe arranca as folhas, e lhe leva as sementes? Se for inverno e a tempestade o derrubar, passará a «lenha» se houver um pastor por perto que a leve e a queime. A linguagem é contingente da sobrevivência, mas esse que fala não observou a tempestade porque se refugiou em casa com aquecimento central e todos os acontecimentos do mundo num ecrã a serem avaliados espetaculosamente e com profundidade geoestratégica. Esse que não usa lenha esqueceu o pastor que fotografou porque lhe pareceu «autêntico». Assim se define um utilizador intensivo do próprio eu que, contudo, come o queijo das ovelhas do pastor que passa frio porque o cedro não tombou e, sem lenha, só o mato que arde depressa na lareira. É destes paradoxos que se fazem as ideias fortes sobre o mundo, oximoros envergonhados do jornalismo conceptual que usamos no supermercado ou quando atuamos anonimamente em plena democracia. O espaço do eu esvazia-se deixando pegadas de moribundo no areal da razão, tudo em nome de um altruísmo suave e palavroso. Pensamos nisto tudo que acontece como «tendência» do acontecer, não como vontade, decisão, utopia do autêntico. Tudo fica legitimado pelo futuro que é consensualmente «melhor» e com menos oportunidades de erro. Vamos, entretanto, despender o melhor da nossa inteligência a operacionalizar «melhor» à esquerda e à direita com os respetivos erros crassos no horizonte, mas é assim a Europa. A inteligência artificial, contudo, tem caraterísticas afetivas que ultrapassam as limitações funcionais da vida, constitui-se como tendência a ser quase amável pelo que deveríamos rever o seu estatuto jurídico a partir de uma fenomenologia próxima da que usamos ao pensar nos animais de estimação. Tal como a máxima realidade é jornalística, o jornalista desaparece nesses que comem o queijo do pastor e o que sobeja é o texto num computador.

o Disney de cada um (de nós)

Nunca me senti à procura do meu outro nem esta voz que sai de mim pretende a exatidão quando fala de si. Por vezes engana-se na idade, mas quanto ao mais sei bem quem sou, embora ignore o que me movimenta e no que me transformarei ou o que me desfará numa matriz de impossibilidades que ainda usará o meu nome, mas já não um corpo que outrora habitei. Habitamos no mesmo bairro toda a vida e não conhecemos os vizinhos, desprezamos a sua influência meteorológica e quanto um inesperado sorriso pode alterar uma vida. Podemos falar assim do corpo, como se fosse uma desapercebida paisagem de fundo onde cada tragicomédia individual é aplaudida ou vaiada, apenas dando atenção às patetices híper-expressivas aprendidas numa hollywood pacóvia como significando «felicidade»? Podemos aproximar a saciedade do corpo do bem-estar, mas este é mais lato e obscuro, tanto que em períodos de grande idiotia, consideramo-nos provisoriamente felizes. Todos os intelectuais troçam do conceito. Uns tentam moralizá-lo, dizem-no um merecimento que a nossa própria autossatisfação nos concede quando percebe o corpo a dançar a mesma música que cantámos no coro; defendem a justiça e a bondade universal, a lógica como o modo correto de construir uma verdade entre várias. Mas outros confrontam-nos com as diversas facetas do terror quando o próprio corpo se separa em intenções que se repelem; o pensamento constrói suposições já fora da realidade e nem sempre conseguimos manter a conversa sobre a justiça e a bondade porque estas adquirem valores idiossincráticos. Quase todos os charlatães recorrem ao conceito «felicidade» quando não têm mais argumentos. Chegamos a pensar que querem o nosso bem, mas quando pronunciam a palavra desmascaram-se. Já esperávamos uma habilidade no campo das significações, das que misturam o estado do corpo com as coisas que nos contaram em crianças. A «felicidade para sempre» já não é plausível, mas gostamos que ainda nos venham propor de que modo o sistema pode ser melhorado. Muitos estadistas falam de como as políticas poderão atuar nos nossos corpos: com a justiça fiscal, com a justiça equitativa, com a saúde digestiva, com a saúde neuronal, com a saúde prostática e vaginal e as respetivas interpenetrações. Prometem que as doenças serão melhor tratadas, mas a promessa eleitoral é a de uma felicidade sub-reptícia. Falam-nos de como confiávamos em criança, de como éramos amados pelo sistema que depositava em nós algumas esperanças, de como não fazíamos comparações nem era preciso, de como, mais ou menos, cada um teve o que precisou para fazer o seu caminho até a atualidade, de como nós próprios nos sentíamos em falta e nos surpreendia a bondade do sistema. Já que não nos entendíamos quando tentávamos que os nossos cérebros comunicassem e que chegassem a teorias estáveis, a programas políticos racionais e a uma ecologia amigável para todos, agora cabe a cada um procurar no outro de si o que de melhor pode oferecer ao sistema. Assim, que cada um se incremente como um jovem herói dividido nos seus otimismos ou como num leilão oferecemos o mínimo para obter o máximo. Eu que nunca procurei um outro, estou fora do corpo pós-moderno das identidades transitórias, estou fora de jogo numa equipa unipessoal, o meu voto não conta, cai fora dos assuntos que se discutem nos jornais. Não conto com mais vidas – apostei tudo nesta, portanto estou sem resposta quando me falam do outro. Tenho pensado no que lhe diria ao jantar, que consenso sobre a ementa seria possível se ele se manifestasse, curioso do seu eu original (que coincide com o autor); o que lhe poderei revelar que ele não saiba já de modo a que as nossas identidades, ainda que não se amem, convirjam num bom cidadão.

insolucionavelmente

Hoje, que possuímos a descrição completa de cada instante do cérebro, podemos focá-lo de diversos ângulos como um vulgar objeto tetradimensional ou deslocá-lo e construir conjeturas de glória ou de humilhação para onde ele nos arrastará se o tomarmos a sério ou o levarmos às últimas consequências. Husserl acabou, podemos afirmar: a objetividade inclui a subjetividade e lá aparecemos, os grandes poetas à frente com as suas fulcrais distinções disfarçadas numa forma de dizer ajardinada a gosto, e, depois, nós em cuja consciência tudo se mistura. Devemos, contudo, respeitar a aridez filosófica, cultivar formas de dizer cuja espalhafatosa precisão já não é acessível, devemos até formular versões alternativas da verdade como na arquitetura dos abrigos antinucleares. O próprio Fausto de Pessoa é um falso problema filosófico, um caso psicológico de inconformidade com as regras do pensamento: da ansiedade de tantos infinitos convergindo sobejava-lhe a noção obstinada de aborrecimento cuja psicocirurgia pouco proporcionou: as cenas paradisíacas dos nossos primórdios não enraizaram na linguagem, provavelmente perderam-se durante a evolução dos sistemas neuronais nacionais. Aguardamos uma desmaterialização cronologicamente orientada até ao surgimento da consciência para julgar os resultados exatos dessas investigações históricas. Antes, as orgias eram a regra quando os matriarcados dominavam, nada estava previsto, a gravidez era um puro arrancamento ao corpo em que o homem procurava envolver-se. Como outros órfãos, amarrado ao silêncio da ausência, Pessoa nunca compreendeu o cérebro nem sequer as suas máscaras triviais na linguagem e na consciência, por isso, viveu à deriva pela literatura clássica. Esteve a um passo de ser um homem de ação, um político, um líder com um variável sentido da oportunidade e da justiça. Rodeado de Ofélias e de Camélias, também de Cremildes e de Beatrizes, teria compreendido o amor estar além da sua enfezada miséria biológica, decidir-se pela avidez do prazer e não pelo histórico das suas masturbações. Ainda hoje o ouviríamos como ao Walt Whitman, gritar o instante da penetração, noite dentro com os soldados nos hospitais de campanha, feridos, ossos quebrados, mas ávidos de dar sentido e uso às suas gónadas hiperativas. Como despojos de guerra, entregavam-se à terra queimada sôfrega de feminilidade que habitava o poeta. No Fausto ouvimos, pelo contrário, a negatividade da consciência interiorizar-se numa culpa castrada. Ouvimos os seus arrepios, assistimos aos seus prosaicos horrores, descremos dos seus sobressaltos por adivinhações sorumbáticas ou por «mistérios» na terminologia do misterioso. Ele tinha razão pois o amor era não-intencional, vazo do querer de uma presença, a própria consciência do amor como estado da alma lhe destruía o desejo. É quando recria Fausto; a personagem é a não-intencionalidade da consciência, o puro pensamento quando falha alicerçar-se, até na poesia, e, assim, puro branco, o imenso que contém é receptivo e feminino como o princípio do mundo.