Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o primeiro de maio

Deveríamos refletir sobre que noção de trabalho adotar quando pensamos no que é um trabalhador. «Trabalho» está contaminado por um marxismo duvidoso, quando «trabalho» é sobretudo o que resulta em movimento. Já agora restringiríamos «trabalho» ao que resulta em movimento para diante. Embora ignoremos o que está adiante, portanto, não aplicaríamos «trabalho» ao movimento que visa regredir para estados anteriores do sistema, nem tampouco ao que visa, apenas, estabilidade. Este trabalho é o repouso o qual, se for imerecido, é a preguiça (ou, em casos extremos, coma). Quando o trabalho se aplica totalmente no sentido oposto ao movimento do sistema para diante estamos perante formas epopeicas de nostalgia cuja nocividade é difícil de avaliar. Na verdade, se iniciamos essa busca da felicidade mergulhando no regresso à boa natureza-mãe, chegamos às tribos de neandertais rumando de África para o norte e, ao assomarem na Europa inquirindo-se se é mesmo onde querem instalar-se. Se o movimento para diante for incipiente, então não é preciso uma grande força para produzir mais movimento retrógrado e poderemos imaginar as tribos de neandertais regressando a África e, mais para trás ainda, subindo às árvores como os outros símios. Podemos imaginar sempre mais para trás até às formas incipientes de vida cuja misteriosa simplicidade não compreendemos. Assim, no dia do trabalhador devemos pensar que muito do trabalho produzido alimenta vícios de consumo inútil, que delapida, que aliena e que, em muitas circunstâncias, mais vale ler um livro ou escrever um poema do que trabalhar nesse sentido de transformar esforço em fancaria de supermercado. Hoje muitos trabalhadores foram substituídos por robots: a natureza do homem liberta-se de uma economia espúria de trocas indignas; finalmente a ontologia total do homem sem necessidades, o pós-despojamento, a pós-saciedade e o trabalho virtual de cada humano pensando-se na sua humanidade aberta a tudo.