Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

em que nos tornámos?

Hoje em dia todos somos pós-modernos no sentido: 1) da incultura, 2) da superficialidade, 3) do laxismo, 4) da autorreferencialidade, 5) do niilismo, 6) da indiferença mascarada de tolerância, 7) da aceitação da batota intelectual como solução transversal e translata desde que formulada numa versão festiva, 8) do corpo preparado para tudo, mas que serve uma indulgência rasca, 9) do uso endrominado da linguagem. Portanto, não se trata apenas da falta de paciência para escrever um tratado sobre os macacos do nariz com uma demorada argumentação da sua importância. Cada autor do passado apresenta-se com os seus insuficientes méritos e cá estamos para o corrigir e meter no bom caminho. Hoje, qualquer idiota tem uma palavra a dizer a Comte, a Husserl, a Espinosa, até a Sócrates e a Homero e, claro, ao próprio Deus. Não se trata já da realidade, apenas da aceitabilidade do formato linguístico. Assim: 1) qualquer representação da realidade se for coerente, é incomunicável, 2) se for comunicável, oprime alguém, 3) se oprime alguns, ou beneficia outros ou perdem todos, 4) se todos perdem a representação deverá ser substituída por outra que sirva alguns, 5) mas se servir alguns, oprimirá outros, 6) se oprimir outros, poderá oprimir todos, 7) assim, se esta nova representação da realidade também não servir, mais nenhuma servirá, 8) portanto, a realidade ou é irrepresentável ou incomunicáveis as suas representações, 9) assim, cada uma terá uma eventual validade instantânea, precária, local pelo que o seu proprietário se dispõe a tirar o maior uso dela em estilo hollywoodesco, 10) que é o único que funciona, 11) porque é incoerente e comunicável. Não estamos satisfeitos com a pós-modernidade; estamos divertidamente entorpecidos. As suas posições deixam a cabeça partir para férias em fato-de-treino, dormindo até tarde como se tudo estivesse concluído e houvesse lugar para todos e mais alguns, desde que desprezem os autores mencionados e usem «deus» apenas à medida das suas conveniências. As coisas mudam para uma pós-realidade para a qual ainda não encontrámos nome, mas que já não é pós-moderna; é uma realidade interferida pela imaginação e pelo mercado onde os nossos dinossáuricos egos se diluem no jogo: o mercado é um jogo; a imaginação vive no mercado, dá e tira ao sabor do que a possa alienar pois a vida não precisa de ser pensada.

crónica sobre o que deveria acontecer

Hoje, tento escrever uma verdadeira crónica sobre o que acontece no mundo de relevante supondo que seja o que interessa a um leitor ideal: a minha opinião sobre o mundo no dia dezasseis de dezembro de dois mil e dezasseis. «Relevante» implica um impacto na inércia de modo que, ao abrirmos a janela de manhã, logo percebemos que algo se alterou. É um sentimento fisiognómico, uma nova ruga ou um impercetível esgar ou um sorriso apenas muito levemente esboçado no rosto do mundo a que reagimos com curiosidade e inquietação. Creio que o que fez passar o mundo de ontem para hoje sem que nada de relevante se alterasse será o que o fará chegar a amanhã sem guerras atómicas, nem mais morticínios além dos expectáveis, nem novos disparates dos estadistas, nem novas modalidades de injustiça, nem mais corrupção embora reconheçamos também corrupto o que está estabelecido como normal, como eleitoral, como religião e moral. Vou passar o dia à espreita de acontecimentos relevantes nos noticiários de todos os continentes. Entretanto posso adiantar o início do texto: «Tal como a humanidade esperava, aconteceu n_ ______ que foi finalmente decidido que ______. Na verdade, o presidente d_ ________ por ocasião de _____ confirmou que no seu país _______ acontecer__. A população ficou ___ com a notícia que foi ___ em todos os _____. Esperam-se desenvolvimentos importantes para toda a humanidade em diversos sectores e com impacto positivo nos indicadores de ____.». Percebe-se, nas entrelinhas, o meu otimismo histórico. Embora o possa justificar, tenho consciência que o sucesso civilizacional decorreu com momentos de um intenso (e escusado) sofrimento e (atenção!) o sucesso civilizacional anterior pouco diz sobre o futuro, isto é, podemos estar descansados a tomar o pequeno almoço e já larvar o gérmen de um cataclismo ou um dos estadistas com o botão vermelho de acionar a guerra nuclear, subitamente resolver que sim. Talvez seja melhor desejar que nada de especial aconteça hoje e escrever uma crónica sobre o aniversário do leitor, ou sobre a psicologia dos crimes de guerra e a volatilidade dos respetivos valores, ou sobre a morte de um líder maçónico e o tráfico na sua rede de influências. Na verdade, não concebo um leitor ideal e tenho poucos leitores concretos com quem trocar opiniões, mas parece-me que todos os acontecimentos relevantes deste milénio aconteceram de um modo insidioso; foram subacontecimentos que encontraram uma circunstância e uma ocasião e fermentaram, tomaram os hábitos mentais da maioria dos humanos e continuam a estender-se a cada vez mais pessoas. Assim, se antes uma declaração de guerra, ou a descoberta da cura da malária, ou o envenenamento de um papa, ou a conversão dos mórmons foram relevantes e percebemos quando eles se tornaram eminentes, os subacontecimentos de hoje só passados alguns messes percebemos o seu impacto no mundo o que torna especialmente crítico escrever crónicas sobre o que acontece e mais vale escrever sobre o que deveria acontecer.