Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

O NADA DA PERGUNTA JÁ É ALGUMA COISA    

Nunca percebi como um poema começa. Temos de definir uma zona de improbabilidade onde o tempo flutue como uma musa no éter; «musa de éter» e «musa no éter» equivalem a esse nada – e onde apareço eu? As sílabas da pergunta descamam-se sem fim em destinos que não atingem o ponto onde estamos; assim, memória e sonho se abraçam num oceano de éter. Todas as descrições falham quando pretendemos a origem. Posseidon e a musa amam-se como o poema se expande – cósmico, mas é outro o infinito que a página parece limitar, e prorrogável noutra página onde também não estou, mas não indefinidamente.

A INSUBSTÂNCIA, COMO SE MATERIALIZA EM COISAS QUE SE TORNAM IMPORTANTES

Laranjeira das essências automáticas – «hímen hiante», lua eivada de imprecações como um solfejo parassexual inegociável se configura em turvos significados. A viagem é a intenção donde as imagens florescem. Quando acabar, estaremos numa construção cívica exterior à necessidade e a necessidade alastra e contrai-se ao sabor de entes fugazes a que chamamos «alma oponente» e que nos enlaçam numa luxuriante paródia de palavras. Salto de cabra velha. Cada etapa teve alicerces próprios que, depois da viagem, será preciso desmontar: fazer a viagem abstrata e universal: lume longo na gruta vazia. Nos seus muros raramente se perfila uma estatuária luminosa. Os adjetivos escondem os andaimes da palavra – pudicícia órfã voga lesta numa grande luxúria vegetal (de não-acontecimentos e ruído). No vinho, a ausência do termo – a voz funde. Uma duplicidade que escapa ao viajante porque assim são os cisnes e as flores e as mínimas paixões das pedras envoltas em musgo quando se destapam e se tocam. Por um instante os andaimes monumentais da liberdade parecem ilimitados e revelam-se numa pura errância visual. Quase apenas visual quando os panoramas engrenam numa utopia instantânea. A viagem prolonga-se numa falta insaciável. Eterniza-se. Depois, a paixão que tocou tudo, separa as coisas dos reflexos irredutíveis da racionalidade que invocamos para desculpar o que não se completa.