Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

sobre a infância e o desespero

Charlot e Picasso mal reagiram quando Sylvia Plath lhes morreu nos braços. Parecia representar. Nos poemas, o destino inscreve-se inconscientemente, pensaram. As impossibilidades da mulher-total: desvelado o mito da felicidade, ainda assim, levar a denúncia a uma apocalíptica poesia. Como uma tela sublime mantida na escuridão, julgou Picasso, como o guião nos incendeia e nos perdemos do que acreditamos, murmurou Charlot. Odiaram-lhe o marido: todos os poetas implacáveis do próprio narcisismo deveriam morrer por exaustão recebendo uma ovação que não acabasse, que não os deixasse dormir, nem comer nem escrever. A ela a pergunta que lhe fizeram foi onde ancorar a poesia? À época, grandes navios vindos da Europa levavam para os novos continentes os cidadãos escorraçados. São sempre grandes filhos-da-puta quem define os desalbergados do destino. Sempre se deportaram populações inconvenientes, agora era os que escaparam do extermínio. Tentava-se um equilíbrio nos ventos do destino (quase toda a França colaborara, mas vinha com os vencedores; era o pós-guerra). A ocasião desfez-se num sismo de células sangrantes. Frias. Endinheiradas ou comunistas, onde cabem as múltiplas significações do horrendo senão num grande intervalo entre as nuvens? Estas são as condições à nascença, inegociáveis, claro, por isso, podemos nunca desculpar quem nos fez existir em má ocasião. O real é um bem social, um laboratório espontâneo onde a televisão processa conveniências. Os pais não podem ignorar as circunstâncias. Uma poetisa é um caso especial do existir: ela é a catálise do real. Charlot e Picasso comentavam-lhe os poemas. Charlot tentava devolvê-los à mudez, recuperar com o burlesco uma noção de esperança a qualquer preço, mas não existia esperança na poesia dela. Era preciso uma pirueta e um inimigo reconhecível, não o marido nem o fantasma do pai, uma generalização já incompatível com a linguagem. Picasso estava na fase das tauromaquias; conhecia os riscos no trilho do suicídio. As suas pinturas corriam riscos poéticos. Todas as mulheres eram Sylvia e o poeta laureado, o touro brutal, o raptor tresloucado dentro de si, imperialmente, o seu cinismo refinado. Quando ela apareceu, tinha tomado uma sobredose de barbitúricos e cheirava a whisky, uma excessiva autenticidade, pensaram, mesmo para uma poetisa. Compreendera os mecanismos do mito: deixar-se dominar e sucumbir no extremo do desespero era o seu tributo ao amor, um limite da fecundação.

o desespero quando ignoramos a que é devido

Poucas pessoas dedicam algum tempo a pensar na felicidade. Em geral, usa-se o conceito de uma forma abusiva quando se pretende justificar uma grande decisão ou quando se pensa nos filhos. Procura-se a sua felicidade, mas espera-se ganhar alguma coisa com ela, colá-la à nossa mantendo um modelo uterino em que a relação de dependência se desloca subtilmente vivendo o progenitor à pala do filho. Podemos observar o mesmo noutros mamíferos, baleias, porcos, morsas e até nalguns gibões, mas nunca em amêijoas, nem nos perus, nas garoupas ou nas jiboias. Talvez seja precisa alguma inteligência para se manter dependente de uma mãe ou de um pai, desenvolver uma inteligência preparada longamente para falhar, para tirar conclusões distorcidas, avessas ao risco e à própria natureza das coisas. Um pássaro não pode manter um filho dependente porque não consegue voar com ele às costas, mas uma mãe humana pode tê-lo por perto toda a vida, até permitir-lhe inventar alguns esquemas que aparentam rebelião e, no entanto tem-no às cavalitas, já maior que ela, obeso, pateta. A humanidade tem criado muitos problemas biológicos inéditos e resolve-os com psicoterapias que são usos abusivos das palavras. Apelam a uma intencionalidade que não lhes pertence nem ao interlocutor, mas o que todas as psicoterapias propagandeiam é uma esperança condicionada a uma teoria da saúde mais ou menos pouco persuasiva. Subsistem porque muitas pessoas pensaram na felicidade como uma situação que lhes pertenceria por direito político. Recuando, encontramos alguém que nos prometeu a felicidade, sem reticências, sem hesitações, mera consequência de praticar as virtudes e cumprir as regras de bom comportamento quanto aos xixis e cocós. Hoje, julgam ter falhado e culpam-se. Não sabem do quê, nem aonde, nem quando. Outros pensam que alguém não lhe dá o devido (as amantes que os criticam, o patrão que os critica e não lhes reconhece valor, a família que os critica, não lhes reconhece valor e os iludiu com vanidades, o estado que os criticam, não lhes reconhece valor e os desiludiu brutalmente das suas vanidades castigando-os com impostos insuportáveis). Chegam a desesperar. Querem uma resposta concreta, precisa – o quê?, aonde?, quando? Apontam-lhes o pai, a mãe, mas não o polícia, nem o fiscal de impostos, nem o ministro da economia, nem os psicopatas que os empurraram no metropolitano. Pois os profissionais da entreajuda defendem que tanto a felicidade como a ausência dela se devem às mesmas causas da mesma forma que a digestão de um bife ou de um caracol usam os mesmos dispositivos. Ninguém acredita em nada, apenas que é preciso fazer alguma coisa para não desesperar.