Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

BONDADE E JUSTIÇA  

Não é simples a relação entre as boas pessoas e as outras, portanto, devemos refletir sobre essas interações em que encontramos tantas vezes a maldade das boas pessoas e gestos quase sublimes de gente que está no lixo. Contudo, não levamos a noção de boa pessoa para uma objetivação estatística do género «boa pessoa» é quem faz o bem a maior parte do tempo porque não a conseguimos observar todo o tempo e porque algumas pessoas que fazem o bem a maior parte do tempo, fazem coisas horríveis no pouco tempo em que não fazem o bem. A questão resolver-se-ia com um registo dos conteúdos do pensamento – postulamos que as boas pessoas são as que pensam bem o mundo, isto é, pensam-no como essencialmente neutro e aberto às ações benfazejas das pessoas de boa vontade que são as que, embora não pensem sempre bem o mundo, gostariam de o pensar sempre da melhor maneira. São as que admitem que, embora hajam diversas maneiras de pensar a melhor maneira para o mundo, estas pessoas de boa vontade que o pensam da melhor maneira, dispõem-se a ouvir as melhores maneiras das outras pessoas ainda antes de as julgarem boas ou menos boas pessoas. Neste momento levantam-se várias questões verdadeiramente relevantes. 1) O que podem esperar as pessoas boas das pessoas menos boas, apenas a sua bondade aleatória? 2) As pessoas más precisam da bondade das pessoas boas? 3) Serão estas meros alvos da sua maldade? 4) Como é que as pessoas menos boas fazem coisas boas e, simetricamente 5) como é que as pessoas boas fazem coisas más. 6) Partilharão os mesmos mecanismos, os do bem-fazer e os da maldade, que distorceriam as tendências à bondade das pessoas boas fazendo-as más e distorceriam a tendência à maldade das pessoas menos boas fazendo-as boas? 7) Haverá uma tendência cósmica à homogeneização da bondade/maldade? 8) Quando esse estado de difusão do bem no mal e do mal no bem for atingido o que ganhará o mundo? a) paz, por diminuição dos conflitos com versões cósmicas mal intencionadas ou abertamente loucas ou maldosas?, b) monotonia, por eliminação das opções desviantes?, c) saúde, por diminuição do stress, limitado ao stress autoinduzido no desporto e nos ócios?, d) estabilidade ecológica, por eliminação das versões mais destrutivas do lucro? 9) O que perderá o mundo com a desaparição da maldade? a) aumentará a entropia?, b) diminuirá a pressão evolutiva permitindo a sobrevivência de variações anómalas?, c) concluiremos pela necessidade dos sobressaltos beligerantes e das grandes revoluções violentas como meio de produção de novas formas de perfeição social?, d) poderemos concluir que a maldade estimula a bondade?, e) e que a bondade individual é insuficiente para garantir a bondade do mundo? De tudo isto segue-se que a justiça é a pior solução para regular o confronto entre as boas pessoas e as outras porque sendo institucionalizada com pessoas boas ou más, sábias ou estúpidas, de vistas largas e responsáveis ou conservadoras e nulas, produz resultados imprevisíveis, portanto pouco respeitáveis, que se sustêm apenas autoritariamente, exigindo a força para se impor quando era o uso da força o que queríamos evitar nas relações das boas pessoas com as outras.

BONDADE E JUSTIÇA  

Não é simples a relação entre as boas pessoas e as outras, portanto, devemos refletir sobre essas interações em que encontramos tantas vezes a maldade das boas pessoas e gestos quase sublimes de gente que está no lixo. Contudo, não levamos a noção de boa pessoa para uma objetivação estatística do género «boa pessoa» é quem faz o bem a maior parte do tempo porque não a conseguimos observar todo o tempo e porque algumas pessoas que fazem o bem a maior parte do tempo, fazem coisas horríveis no pouco tempo em que não fazem o bem. A questão resolver-se-ia com um registo dos conteúdos do pensamento – postulamos que as boas pessoas são as que pensam bem o mundo, isto é, pensam-no como essencialmente neutro e aberto às ações benfazejas das pessoas de boa vontade que são as que, embora não pensem sempre bem o mundo, gostariam de o pensar sempre da melhor maneira. São as que admitem que, embora hajam diversas maneiras de pensar a melhor maneira para o mundo, estas pessoas de boa vontade que o pensam da melhor maneira, dispõem-se a ouvir as melhores maneiras das outras pessoas ainda antes de as julgarem boas ou menos boas pessoas. Neste momento levantam-se várias questões verdadeiramente relevantes. 1) O que podem esperar as pessoas boas das pessoas menos boas, apenas a sua bondade aleatória? 2) As pessoas más precisam da bondade das pessoas boas? 3) Serão estas meros alvos da sua maldade? 4) Como é que as pessoas menos boas fazem coisas boas e, simetricamente 5) como é que as pessoas boas fazem coisas más. 6) Partilharão os mesmos mecanismos, os do bem-fazer e os da maldade, que distorceriam as tendências à bondade das pessoas boas fazendo-as más e distorceriam a tendência à maldade das pessoas menos boas fazendo-as boas? 7) Haverá uma tendência cósmica à homogeneização da bondade/maldade? 8) Quando esse estado de difusão do bem no mal e do mal no bem for atingido o que ganhará o mundo? a) paz, por diminuição dos conflitos com versões cósmicas mal intencionadas ou abertamente loucas ou maldosas?, b) monotonia, por eliminação das opções desviantes?, c) saúde, por diminuição do stress, limitado ao stress autoinduzido no desporto e nos ócios?, d) estabilidade ecológica, por eliminação das versões mais destrutivas do lucro? 9) O que perderá o mundo com a desaparição da maldade? a) aumentará a entropia?, b) diminuirá a pressão evolutiva permitindo a sobrevivência de variações anómalas?, c) concluiremos pela necessidade dos sobressaltos beligerantes e das grandes revoluções violentas como meio de produção de novas formas de perfeição social?, d) poderemos concluir que a maldade estimula a bondade?, e) e que a bondade individual é insuficiente para garantir a bondade do mundo? De tudo isto segue-se que a justiça é a pior solução para regular o confronto entre as boas pessoas e as outras porque sendo institucionalizada com pessoas boas ou más, sábias ou estúpidas, de vistas largas e responsáveis ou conservadoras e nulas, produz resultados imprevisíveis, portanto pouco respeitáveis, que se sustêm apenas autoritariamente, exigindo a força para se impor quando era o uso da força o que queríamos evitar nas relações das boas pessoas com as outras.

O ABSURDO E A TEORIA DO MUNDO  

Um velho sábio ensinou-me da poesia a externa fatalidade da sua lógica de lastros, aquilo que ascende, a que, sem exagerar, chamaríamos «complexo». Ensinou-me que palavras como «absurdo» e «caos» devem ser substituídas pela sucinta impotência da compreensão por onde a poesia navega. Aprendi o protagonista da compreensão ser uma ficção que se pode tornar maçadora. Projetamo-nos nos seus cristais caleidoscópicos, as suas raízes radiam pelo sujo que num banquete de sóis fenece e nós sempre pensando ter que ser assim, embora algo de nós sedimente numa vívida música. Refiro-me a algo da minha aprendizagem do português numa Lisboa adormecida – «absurdo» e «caos» são lapsos da mente, lugares que a linguagem ainda não visitou, onde apenas filósofos exercem um aborrecido deambular. Onde eu cheguei – ou alguém que, para me ler, tenha de me inventar, tenha que, como eu, passear em Lisboa com a minha dinastia de dúvidas e princesas encantadas num pacote que designaríamos «felicidade em progresso» – mas «progresso» sem resolver a questão do absurdo?, de tudo o que precede o sentido? A inscrição na mente de um manual de instruções orientado para a felicidade resulta na principal teoria do absurdo: o mundo relido de modo laxo e indulgente, adaptado a uma esperança batoteira de inspiração democrática. A transcrição social dos reflexos torna-se homóloga nas células, nos músculos, no próprio vento porque trocámos a cor dos nossos coeficientes de sobrevivência: em todo o mar, nos corais, nas alegorias conscientes que transformam o caos dos monossílabos na busca surda dos ritmos, todas as coisas confirmam quer a «felicidade em progresso» como uma tendência universal à plenitude, quer o «absurdo» como uma versão rasca do «complexo» que pulsa no poema, que pulsa na música, que tende nos fios emaranhados das épocas e se perde, já fora de visão, nas linhas que decifram o infinito e o dizem absurdo.

sobre a dialética

Quando dois burros iguais atrelados à mesma carroça, puxam em direções opostas, nenhum tem legitimidade para se considerar correto e criticar o outro por puxar na direção errada. Fariam melhor se iniciassem ensaios de cooperação intraespecífica. Ignoramos se foi este o caminho para a sociabilidade dos humanos, mas quando duas placas tectónicas colidem e dão lugar a um magnífico vulcão no meio do oceano, só após muitos séculos de arrefecimento se dará a colonização da ilha por várias formas de vida. Só então saberemos se o movimento das placas foi bom ou mau. Será preciso esperar que arribem as aves e que instalem no rochedo formas de vida que vêm com o vento. Assim, volta a colocar-se o problema da tensão entre substâncias que diríamos diversas tal como os burros que tracionam a carroça em sentidos opostos são como as nuvens que parecem idênticas, mas, quando estas chocam, produzem magníficos relâmpagos (da mesma forma que as placas tectónicas, os sismos). Portanto, está em causa a questão de uma certa identidade conceptual que gostamos de ligar à ação, mas, de outro lado, de a enraizar nos aspetos; donde: 1) desde logo o simulacro. As próprias pessoas variam a sua ipseidade ao sabor das circunstâncias, o que é inquietante. 2) Assim, pensamos que entidades essencialmente iguais se obrigam, por uma necessidade de harmonia, a procurarem sinergias, cada pessoa com o seu holograma, este diferente do seu holograma de há seis meses atrás. 3) Se, entretanto, malgrado iguais, colidem, temos de considerar providenciais os efeitos da colisão, ou seja, «bons»; mas se os efeitos resultam, efetivamente, «maus» é porque uma das entidades iguais era um simulacro. 4) Se são as diferenças estruturais que provocam antagonismos, uma terceira possibilidade seria os sismos e o que descreveríamos como o colapso elétrico das montanhas aéreas, que são enormes zonas de matizados coloridos, de diferente transparência e densidade, e de contrastes arrevesados, serem manifestações de uma ordem que se quer recompor. 5) Portanto, os burros que puxam um para a esquerda, outro para a direita, têm, provavelmente, cargas elétricas opostas – quando a carroça implodir, cada um disparar-se-á contra o muro do quintal, mas não perceberão porque magoaram a sua cabeçorra nem atribuirão a dor à não cooperação. 6) Mais uma vez, depois de a situação que os afastou os ter tornado diferentes, é a dor que os aproxima; quando a situação se resolve, são dois burros magoados; a diferença desapareceu, tal como só depois dos relâmpagos ou do sismo podemos avaliar se os efeitos foram benéficos. 7) No caso de duas pessoas envolvidas na mesma tarefa, como freiras (ou como soldados combatendo), e vestidas de igual, nunca são como dois burros puxando a carroça na mesma direção, os próprios burros poderão fazê-lo por razões diversas em cuja subjetividade não penetramos. 8) Este argumento é confuso, mas como decidir se é melhor caminhar na mesma direção ou divergir?

o mundo ao mudar

O mundo mudou, declarou com um misto de entusiasmo e um sentimento indefinido a que chamamos medo. O medo mobiliza-nos, mas quando dizemos que o mundo mudou não explicitamos se o medo é um valor ecológico ou uma mera fuga sem que tenhamos tempo para qualquer elaboração. Para o mundo mudar é importante que continuem a existir lugares seguros e comportamentos de fuga, quase em pânico, para casa ou, em circunstâncias especiais, para um abrigo antinuclear. Qualquer cidadão organiza a sua vida refugiando-se nos pontos mais seguros que encontra (na medida do possível como as águias nos cumes ou os ratos em tocas escuras nas caves) continuando, contudo, a considerar-se uma pessoa digna e corajosa. Só quando uma inesperada ameaça se interpõe ele descobre a sua cobardia e nós descobrimos as suas formas de lidar com o medo: 1) falar alto como se os espíritos sussurrantes se assustassem; 2) gritar palavras de ordem muito consensuais e mobilizadoras como um verdadeiro herói (todas as pessoas têm uma ideia clara das exigências do heroísmo e de como lhes escapar); 3) camuflar-se ou transparentar-se ou outra forma de acanhamento no sentido de diminuir o tamanho do corpo (ou diluí-lo numa multidão ululante); 4) agarrar numa faca ou numa metralhadora e desatar a matar a torto e a direito como forma de precipitar um desfecho para um terror que já não se suporta; 5) fechar-se num quarto, imóvel, fingindo-se morto para si próprio, resolvido a não existir enquanto as expectativas tumultuosas do mundo melhorar não se resolverem. O mundo melhorar não é uma situação estável. A melhoria avaliada hoje não nos assegurará que o mundo não piore num prazo inestimável. Mudar não significa nada numa perspetiva cósmica pois o mundo é um mero ponto de vista planetário, um ponto de fuga onde se revelaram insustentáveis as perspetivas das dialéticas históricas. Fizeram bastantes estragos, talvez por o mundo ao mudar não as seguir, antes fazer intervir novas forças que constantemente germinam e o arrastam. São estas as forças a que se alude quando se diz «O mundo mudou», apenas varia o tom de uma expectativa otimista pouco fundamentada a uma expectativa alarmada que tende a associar-se ao «antigamente era melhor» igualmente infundada.

a sabedoria dos sábios não é estimulante, mas é sólida

De um lado, uma voz fala sem parar das coisas mais importantes para a humanidade futura. O ouvido direito mal a ouve. O esquerdo ainda menos, ambos apenas filtram a redundância. Eu não sei o que pensar entre pensar tudo tão fluentemente como essa voz e silenciar-me e ver o que não desaparece. Sei que existem doenças no conteúdo da voz e que não tenho nenhuma doença ativa; que me silencio porque não tenho medo da humanidade que fala demasiado nem tenho medo das coisas que ela vislumbra e de que não fala. Penso diferentemente da voz à minha esquerda e, no ouvido direito, o meu silêncio é diferente porque é uma recusa do peso e do lixo. Quase tudo é peso e lixo. Outras vozes falam do que falta no que já existe, outras ainda do que está certo e deveria ser norma, ou do que é chocante e deveria ser interdito. Mas o problema são as que reivindicam ser os agentes da sua própria transformação; pedem pastilhas que as façam ser de uma forma ou de outra consoante lhes apeteça, rir, ter visões e acreditar numa utopia que desapareça depressa, ou quedarem-se numa contemplação neutra e absoluta, sem chegarem ao seu próprio silêncio. Ninguém sabe o que lhes responder. A questão parece ser o que fazer com tudo o que agora se tornou possível; devemos experimentar e confiar que sejam limitados os nossos erros? Mas quando se tornam hegemónicos, todos os seguirão. Deixarão de ser erros, mas continuaremos a ignorar o que se seguirá. A voz à minha direita está embasbacada, incapaz de medir as trajetórias e os impactos das ideias como se acreditasse que, por um desígnio inlocalizado, coincidissem numa figura da bondade que ainda conseguíssemos reconhecer. O meu silêncio significa apenas que não tenho opinião, que não uso pastilhas porque prefiro assegurar a estabilidade do sujeito na escrita. Não sinto necessidade de me alterar para alterar a escrita; ela escreve-se com os seus próprios vaticínios tal como os meus sapatos tentam uma harmonia entre os passos e o solo que pisam. Não tenho outras próteses apensas ao corpo além de um pequeno ciclomotor. Para me elevar apanho um ascensor, não tomo alucinogénios para escrever um poema nem pastilhas para dormir, pois é na insónia que escrevo o poema. Mas isto não significa que recuse as coisas importantes que a voz menciona, simplesmente penso longamente em cada uma e o que penso, por ser inconclusivo, confere-lhes uma aura de lentidão que a faz familiar como «a volta ao mundo em 80 dias». A «natureza humana» é uma falácia para oportunistas éticos como Lewis Carrol, mas gostaria que a voz à minha direita lhe reescrevesse os livros pois acho-a semelhante ao pássaro dodó que achava benigna a humanidade que o aniquilou. Não condenamos a humanidade pela extinção das espécies à medida que o universo se moderniza; deixamos que as coisas sigam uma inclinação que dizemos «natural» e que inclui tudo o que nos poderá transformar noutra coisa que desconhecemos. Mas o tempo é a qualidade do triunfo, não um juízo de valor. Obsolescência é a qualidade do que esqueço, mas na memória nada parece desaparecer, antes continua naquilo em que me torno.