Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Edmond Husserl

«Sobre as dificuldades da fenomenologia, ainda hoje não sei exatamente se estou ipseizado. Muito do que eu sei de mim não é experiencial, mas passa-se num estado qualquer que eu não sei descrever. Não digo que me sinta sonolento com o eu a dissolver-se nas ondas lentas da universalidade, ou que esteja entorpecido pelos eflúvios monotemáticos da sexualidade, nem que tenha ficado socialmente inconsciente com as sequelas do último atentado. A maior parte do que se passa é deduzido da própria noção de existir como, num sonho, a continuidade se reestabelece entre episódios que digo meus apenas porque os sonho e outros episódios, alguns dos quais esquecera. Por outro lado, esses estados geram convicções diferentes sobre as mesmas coisas e a minha ipseidade afirma-se então como conciliadora entre uma filosofia estatal que exige racionalidade e coerência e o meu interior que não vê nenhuma razão para decidir entre uma coisa e a sua oposta. Sou um utilizador livre da mente – porque obrigá-la a reproduzir o estado e a sua burocracia? Para lhe pertencer, claro. Como viver fora dela? Como falar da minha ipseidade se ela não se apresenta com clareza? Digo consciência como se percorresse um museu de história natural às escuras – o foco da minha lanterna descobre, ocasionalmente, algo que me parece vivido por mim. Não me pergunto se faço batota com a mente intencionalmente ou por uma necessidade que não mentalizo, mas se me engano a mim próprio sobre a minha ipseidade tenho legitimidade para me apresentar aos outros com o meu engano e usar as minhas crenças opostas segundo a minha conveniência. E não suporto que me confrontem com a inconsistência do que digo. Tal como é autónoma a beleza de cada poema e cada um pode aludir a crenças que noutro poema surgem opostas ou como um ator representa o herói ou o vilão, tal como a maré enche e, depois, vaza, ou um comboio vai daqui até ali e volta na direção oposta sem que ponhamos em causa a mesmeidade do comboio, também eu não me subordino ao que fui. Portanto, não vejo violência em ter nascido nem em nada do que me aconteceu. Não dramatizo nem me tomo como objeto lírico. Aliás, não tenho má opinião dos meus pais que permitiram que os atravessasse como a uma autoestrada cultural para ter acesso à vida. Agradeço-lhes, também, não me terem obrigado a nenhum destino: pude mudar de autoestrada e seguir por onde as estradas se estreitavam e o caminho eram carreiros quase exclusivos. Provavelmente tudo isto que me aconteceu resultou de não estar ipseizado; assim, os meus pseudo-autoenganos resultam da instabilidade das minhas crenças, da instabilidade do meu corpo, da instabilidade da minha casa, da minha cidade, do meu país, da Europa e de todo o cosmos e são o que nos faz assim viver».