Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

A FALTA DE RAZÃO PARA TRABALHAR  

Quando temos um grande trabalho pela frente, é preciso engonhar. «Engonhar» é uma palavra quase onomatopeica pois contém a sonoridade de uma lassidão centrada em si – engalfinhada entre um fazer que não se decide e um ócio inquieto e rebarbativo. O ócio também aqui é essencial, um ócio que nos bloqueia, que convoca demasiadas hipóteses como se acreditássemos num futuro construído e feliz. Engonhar pressupõe uma confiança cega na bioquímica das decisões universais. Sentimo-nos escorregar nitidamente para fora de controlo, e, já em desequilíbrio, ainda esperamos que a gravidade se altere a nosso favor e permaneçamos em pé (ou, se cairmos, que seja nos braços de alguém que nos estime e proteja). Um grande trabalho é quase sempre uma prova de esforço inútil: poucas teses de doutoramento são lidas, poucos relatórios sobre política são lidos, sejam genéricos sobre o futuro da nação, sejam específicos como a cadeia de acontecimentos que decorre da extinção das abelhas, poucas receitas de culinária são seguidas à risca pois as pessoas permitem-se ter ideias criativas e melhorarem os menus, apesar de alguns fracassos anteriores. Esta memória dos trabalhos em que não engonhámos condicionou-nos a engonhar: 1) porque a urgência de um trabalho é momentânea como uma dor de barriga, 2) porque um trabalho exaustivo nunca será completado pelo que mais vale engonhar, 3) porque só depois de completo, poderíamos justificar o que deixar de fora, 4) assim um trabalho não exaustivo, logo incompleto e defeituoso, logo parcelar e redutor, logo não urgente e inconclusivo, logo suscetível de ser engonhado; 5) porque a um trabalho não engonhado segue-se outro que é forçoso engonhar; sobretudo, porque, 6) um trabalho já acabado levanta a questão do sentido do que fazer a seguir, que é difícil de engonhar, e, 7) levanta a questão do sentido de toda a ação: 8) se não deveríamos virar para a autocontemplação meditabunda como forma suprema de engonhar. Portanto, a maior parte dos trabalhos conduz a um aprofundamento das razões num erudito encadeamento de comiserações que é a natureza do engonhar o qual resvala para uma subjetividade de apreciações que nos envergonha porque engonhámos, o que é ainda maior engonhanço.