Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o que fazer quando o poema acaba

Quando conseguir concluir o poema, embarcarei para a Índia e por lá ficarei ou noutro país onde seja impossível triunfar. Um poema contém uma micro-solução com exigências próprias quanto ao futuro: é preciso que os odores das ruas sejam penetrantes e libertos de passado para que, ávido de tédio, me procure sem saber para onde irei ou o que ando a fazer a exemplo da linguagem que penetra o poema. Pelo contrário, há cidades que são a joalharia de materiais etéreos, onde as palavras que são sangue e custam a encurvar jazem no magma da mente como direções de avenidas ilusórias. Deparo com elas em becos de urinar ou de silêncios furtivos e, quando chegam à boca, cuspo-as. Sem nojo ou menosprezo; são momentos em que as palavras desembarcam em pleno oceano e se afundam logo. No fundo de uma voz encontro o mar e o fogo, sim, mitos, lastro impossível de pesar. Para mim que preciso de viajar, de comparar cidades recentes com lugares onde tempo e ideias há três mil anos pararam, retornar significa cumprir um rito de omissão de sentido como quando as pessoas chamam a polícia e confessam crimes não cometidos só por serem possíveis. Não se pode permanecer numa cidade antiga se nos perdermos no seu enrugamento, se nos embasbacamos na sua corporalidade, se o turvamento nos vicia. Concentramo-nos no seu ressonar tumultuoso, observamos o lado para onde acorda, da mesma forma que os subterfúgios estremunhados do poema. O que os ratos dos esgotos transportam em qualquer cidade é uma cultura atravessada de sintomas, partilhada por todos e pelos anjos, uma espécie de doença do existir que se manifesta demasiado tarde. A esta enorme plateia perguntamos o que falha com indisfarçável desejo que falhe.

novos encontros com o futuro

Uma grande parte da poesia supõe uma iluminação que precede as palavras, ainda antes de as coisas existirem. Não é tanto uma fé quanto uma aurora aberta aos cataclismos que estremecem para fora de mim. Não se trata da entrada do belo pelas passadeiras hollywoodescas do Nobel, mas da semeadura de pequenas mortes onde as palavras deverão ulteriormente aparecer. O leitor perguntará onde?, em que domínio do virtual? Mesmo que se aceite a plausibilidade dos níveis de realidade descritos por uma equação, que fórmula delimita o domínio do poético? Nenhuma. Por isso a poesia é única e tão fácil de reconhecer ainda antes de introduzirmos a alma da morte ou um qualquer «tu» escabroso que faça avançar a ação das palavras. Ela é, nitidamente, conquanto não pretenda nada provar além do que lhe é evidente. A evidência é o sopro que sutura um lago às montanhas da fome e a água escorre e, por vezes, é sémen, alegria, inquietação. O alimento é um princípio de descrição consensual, mas não é evidente, antes supõe um estado edénico inconcebível senão como molde do futuro, como uma negatividade resolvida depois da qual os problemas desmesurados continuarão a surgir e as soluções serão cada vez mais complexas. Como o lago é o negativo da montanha, um barco construído na margem para o atravessar é a primeira condição do rumo, mas para diagnosticar o futuro teríamos de multiplicar o inconcebível dos rumos até ao número infinito da perfeição.