Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

inventário das formas de morte

Embora haja milhões de modos de morrer – as pessoas morrem de pneumonia no inverno, ou de acidentes de viação, algumas têm um cancro fatal – poucas se desintegram com uma bomba aparatosa ainda que apaixonadas por alguém ou por uma ideia, poucas sangram até secarem como se assim voltassem a uma natureza pétrea adequada aos caminhos de montanha, poucas rebentam de tanto comer como se dominadas por um prazer vinculado a uma mãe inesgotável, poucas se atiram dos seus altos andares cantando o hino da alegria. Na verdade, embora variem as circunstâncias, os modos de nascer são ainda mais limitados. É o que medeia entre um e outro acontecimento que nos diferencia; já acreditámos em várias teorias da vida: 1) que a vida é atraída pela complexidade e que esta se confunde com a perfeição (como certas poesias que se depuram); 2) que a vida é atraída pela complexidade a qual contém o gérmen do aniquilamento (como certa escrita cada vez mais privada); 3) que a vida se executa por um procedimento robótico (como a respetiva poesia cibernética); 4) que a vida evolui (sem que tenhamos de fazer por ela); 5) que a vida guarda o que aprendemos (numa espécie de hereditariedade otimista); 6) que a vida humana não escapa a uma tendência física à degenerescência (alguns poetas deixam de escrever); 7) que a vida humana nos seleciona por uma animalidade pouco sofisticada (sexual e culinária); 8) que o único mérito da vida é a possibilidade da virtude (ou de um bom poema); 9) que a vida humana é marcada pela inevitabilidade da morte (e a melhor arte é um requiem ao modo de Scelsi). Tentamos levar a vida conciliando estas teorias sem sabermos avaliar o seu valor. Como vulgares batoteiros escolhemos as que mais nos favorecem em cada circunstância e mudamo-las com desenvoltura. Muitos mais poetas suicidar-se-ão ainda porque a poesia é mais complexa que a vida (ou vice-versa), ou por desajustes no interior da linguagem (ou no interior da poesia, mal servida pela linguagem e desadequada à complexidade da vida), ou por uma indefinível insaciedade que os traz à poesia sem saberem o que fazer da vida. Provavelmente são diversas as formas da complexidade na vida e na poesia. Talvez que ambas se toquem nos bons poemas. Talvez que entre as milhões de formas dos maus poemas falharem a mais importante seja não se tocarem.

o certo e o errado num poema lírico

Como entraram as rãs no poema? Por qualidades poéticas ou místicas intrínsecas ou como figurantes no lago onde Vénus renasce? Não tomamos partido neste momento da escrita, apenas aguardamos com curiosidade o desenlace do poema enquanto o poeta ora come cerejas, ora enterra a cabeça num balde de alcatrão, ora pontapeia um ecrã que não transmitiu a sua imagem. Depois, embebeda-se num lodo noticioso pouco exaltante e acaba o dia enviando os próprios excrementos aos estadistas mais inocentes. Intervém. As rãs cantam contra um maquinismo que não se desenvolveu. A simplicidade dos seus sistemas sensoriais parece-nos errar, fazem que se dirijam aos pequenos símbolos e cantem. Cantem contra os deuses originários que subsistem nos lagos dos poetas líricos. As outras verdades passaram por fases homólogas da verdade do poema, mas o poema da rã ainda não saiu da fabulação mítica. Um dia a ciência explicará estes erros simples e os teólogos deixarão a sua antropocriptosofia a favor de uma registo minucioso dos mecanismos de viabilidade poética. Então, uma provisória transcendência surgirá fora da escala das verdades homólogas, antes suspensa num encantamento simples como os balões na festa da aldeia. Alguns incendiar-se-ão com o vento. As rãs dormem, mas não as melgas que aproveitam para picar os amantes que, seminus, se abraçavam no escuro. O poema cria um circuito de factoides que percorremos porque nos detivemos no sítio errado. «Sítio errado» é onde está o que encontramos procurando pouco. Encontramos as rãs porque coaxam, a Vénus porque é bela e ocupa o centro da cena, encontramos a verdade porque assim a declaramos quando nos convém, mas o poema só o encontramos procurando muito, num sítio certo. «Sítio certo» é o lugar de cada coisa no poema. «Como entram as rãs no poema?» é uma questão errada.