Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

O PÓLEN E, DEPOIS, ANTES  

Quando recuamos muito, chegamos à «unidade essencial de todos os seres vivos». Atingimos, na opacidade essencial da matéria, o mecanismo que aglutina os átomos em cristais cada vez mais complexos até ao ponto em que a mudez e o silêncio se tornam insustentáveis. Seguem-se zonas ocas onde o vento sopra, por onde a lama escorre e se infiltra em buracos que transudam sangue. Este apela ao pólen, vida sem forma, que chama o vento, monta-o como se em cavalos surdos partisse pelos oceanos e chegasse aos astros. É nos vales que o pólen se detém, se enreda nas pedras das avalanches que durante o inverno tombaram e é entre elas que atinge uma forma. As raízes têm, entre as pedras, as formas possíveis, mas as folhas e as flores procuram agradar e inventam formas pelo prazer de agradar. Do jugo do semelhante todos os seres vivos se tentam libertar. Tentam individualizar-se e surpreender, tentam escapar do que está determinado. Quando recuamos muito, perdemos a magia deste repertório de adaptações: no lugar da vida encontramos um glorioso mecanismo de conciliações e, se olhamos para cima como se procurássemos uma chave que o decifrasse, deparamos com uma intuição indizível (pois nada deixa de fora – nem nenhum interlocutor). É quando percebemos provisórias todas as soluções: as formas de vida seguiram teorias da vida que eram versões imperfeitas dessa grande intuição. «Premonição», dizemos pretensiosamente porque intuímos que nos aproximamos de algo melhor. Abrimos a compreensão ao invisível. As coisas funcionam como o pólen, melhoram e funcionam melhor, como o pólen, também, mas as explicações podem não funcionar melhor.

SALMO 104, SEGUNDO ALEXANDER VON HUMBOLDT  

A inteligência fez-se antes dos astros como um molde de como as coisas deverão engrenar. Ela previu que as coisas ínfimas e simples poderiam habitar a imensidão, como bosões invisíveis ou aproximarem-se e repelirem-se segundo as conveniências de uma vontade de perfeição que nunca será consumada. Deu-lhes a luz para que, vendo-se, rejubilassem as que se amam e deu-lhes o espaço para que se afastassem as que se odeiam. As que se amaram, cresceram em torno de um fogo interior que veio com as palavras e fizeram sólidos e inabaláveis os astros; as outras tomaram o azul da tristeza e constituíram os céus como um manto e um limite onde as coisas quotidianas deverão acontecer. Entre a terra e o céu as águas viajam como os humores, entre o amor e o ódio, e escorrem das montanhas nevadas para os vales férteis e continuam até encontrarem os oceanos. Assim se tornaram complexas as coisas ínfimas e se chegou a um grau que reproduziu a própria inteligência. De início os gincos, os fetos, as cicas multiplicaram-se e revestiram os campos; depois esta vida quis mover-se e multiplicar-se sem que fosse o vento a espalhar as sementes ao acaso. Para isso, ganhou as barbatanas que remam nas águas a todas as profundidades, as asas que planam independentes do vento, mas, como ele, atravessam os continentes; também pernas para procurarem alimento nos campos e esta matéria que, diversamente, se move, cada espécie de ser com a sua inteligência resolveu a questão prática de darem origem a outros seres e assim sucessivamente. Os pássaros chilreiam e são belos e as fêmeas escolhem-nos e comandam-nos nos ninhos entre a folhagem tal como os peixes e os animais dos campos. Entre estes, o homem que cultiva a uva e se entorpece com o vinho; que cultiva o trigo e o cânhamo e a oliveira numa terra onde se fixou com as suas sementeiras e os seus animais. O sol e a lua de noite criam as marés, as estações; os aspetos da natureza apenas mudam as suas descrições, mas é impossível regressar a uma unanimidade, a uma síntese – a um cosmos unificado numa doutrina e num propósito.

como é difícil fundamentar argumentos filosóficos

COMO É DIFÍCIL FUNDAMENTAR ARGUMENTOS FILOSÓFICOS   Os filósofos não estão, como Lineu, habilitados para grandes juízos biológicos. É verdade que os humanos vivem num universo de palavras enquanto os caniches e alguns animais domésticos mais fluentes apenas compreendem uma dúzia de frases. Mas este mero atributo comunicacional marcará uma diferença de mérito significativa face a comunidades melhor organizadas que a nossa como a das térmitas ou a das abelhas? Melhor organizadas no sentido de uma menor entropia, de uma maior especialização dos seus membros, de uma estratégia reprodutiva muito organizada e nítida que deixa de fora procedimentos equívocos como o amor romântico e a paixão assolapada os quais introduzem na seleção critérios subjetivos volúveis e insustentáveis quando o que está em causa são os interesses da espécie. Portanto, não é elegante o filósofo fazer valer os seus argumentos pró-humanos salientando, além da linguagem, a livre-escolha que torna estocástico o devir social. Será civilizacional esta responsabilidade individual pelo destino da espécie? Vemos uma descoberta tecnológica inocente ser inserida no sistema e logo se estabelecerem redes comunicantes inéditas que tornaram ingovernáveis as manipulações de opinião. Qualquer um se tenta vender ao sabor de frenéticas modas que ninguém lança, qualquer um apregoa micro-utopias com regras originais completamente alienadas do humano, crentes que, essencialmente, o humano se transforma ora em monstro, ora em escravo, ora em robot ao serviço dos seus simplórios mecanismos de prazer. Não há mais lugar para o aventureiro que julga construir o seu destino; todos enredados em engrenagens como abelhas ou como formigas, como cidadãos responsáveis por mecanismos que, na verdade, nem sequer compreendemos nem nada decidimos senão abrir ou fechar a janela por onde espreitamos a humanidade que passa na rua. A humanidade é cada homem enjaulado na sua toca digladiando-se contra todos os outros homens. O humanismo é este ódio tranquilo, cada um com o seu colete anti-balas mais ou menos simbólico, enquanto uns poucos disparam balas ou bombas reais para que se cumpram anseios de felicidade, de perfeição e de justiça mal formulados ou deficientemente globalizados. As regras mudam constantemente bem como os estilos de sobrevivência. Ninguém pastoreia o rebanho, cada humano está hiperdomesticado e ultraconsciente dos seus direitos. Não fala deles, nem luta por eles, nem pensa muito quanto poderiam ser outros, mas surpreende-se quando o comparam a animais domésticos vivendo, também, num apartamento cercado pelos detalhes da própria colmeia, apenas aberto aos apetites que adquirem um certo grau de transcendência e complexidade, mesmo quando o cidadão se desloca no seu veículo ou na sua cadeira do metropolitano. Lineu não sabia para onde a humanidade se dirige – nem o filósofo.

de como apenas a violência remove o homem do centro da evolução

Estamos no auge de uma experiência bucólica acompanhados por alguém que se afigura disponível para nos acompanhar todo o futuro. Sentimos no corpo uma atração geral pelo seu corpo, um processo vivido com um harmonioso agrado cósmico. De súbito, uma dor puntiforme lancinante no sovaco esquerdo que não podemos deixar de atribuir a uma formiga que deixáramos passar, generosamente, no banco de pedra, uns minutos atrás. Mordeu-me por motivos que consigo imaginar a partir de uma invertida empatia. 1) Desde logo sinto a diferença de escala com um sentimento de superioridade que me parece inútil justificar: é uma crença antropocêntrica de que estou no topo da evolução e, 2) que a formiga é um mero elemento sem individualidade de um meio que ocasionalmente me agride e de que me tenho que defender. 3) Cheguei a sentir pelo seu comportamento aparentemente curioso o mesmo que se observasse uma criança que explora uma gaveta: pega em cada objeto, sacode-o, leva-o à boca, chocalha-o contra o chão antes de o largar para se dedicar ao próximo. Depois de mordido compreendo que a sua aparente curiosidade difere da da criança, antes se subordina a uma ordem específica que a amesquinha como indivíduo. Desprezo tais sistemas, desprezo as coisas feitas simples em nome de uma qualquer totalidade. 4) Penso que não compreendo a sua simplicidade de elemento de um sistema que colhe os benefícios do seu trabalho de exploradora, mas não reconhece os interesses de cada elemento da comunidade – fora desta fórmula o que significam as inflexões do seu trajeto? Já não me ocorre falar de liberdade nem de determinação: talvez um detetor de feromonas explicasse essas inflexões no trajeto, mas o que determinou a libertação das feromonas que determinam o trajeto? 5) Não sinto simpatia pela formiga rainha que suponho existir e dar sentido à ordem do formigueiro. Não gosto da sobrespecialização de funções: cada indivíduo no seu nicho sem visão de conjunto como pode decidir sobre o destino do conjunto? 6) Porque me mordeu agora e não antes? Porquê tão perto do coração que carrega uma tão pesada simbologia? 7) Porque não me teme? Despreza a minha disposição à violência ou despreza a sua vida? 8) Não antecipou o risco de ser morta malgrado a desproporção entre a dor de me morder e a minha reação de a matar? 9) Deveria considerar outra resposta?, matizar a vingança – apenas prendê-la, torturá-la, mas não a matar? 10) Ou matar a formiga não é matar, mas apenas eliminar uma ameaça que pode morder de novo? 11) Terei ficado tão traumatizado pela dor da mordidela, que esta ofuscará o agrado da paisagem com tão estupenda companhia? Nietzsche dizia que sem dor não haveria uma impressão na memória de uma experiência, uma aprendizagem, que, enquanto o agrado da minha feminina companhia se esvanecerá em mais agrado, a mordidela da formiga me fará procurar outros lugares para namorar, uma biblioteca, um cinema, e a não voltar ao campo sem repelente de insetos.

as questões cruciais sobre a evolução

Não se percebe o que é a evolução. Ou seja, não se percebe o que é que evolui e, ainda menos, se o que muda representa uma evolução ou um retrocesso. Não se percebe se foi a célula que mudou, ou o órgão enquanto federação de células, ou o próprio organismo, uma espécie de Europa que parece unida e bem definida, mas é ainda uma totalidade porosa e não muito coesa. Não podemos falar de evolução sem perceber se são os cidadãos que mudam e impõem mudanças no sistema ou se este ganhou uma dinâmica interna misteriosa, uma liberdade, uma vontade de ser sabe-se lá o quê e arrasta a mente de cada um com os seus jogos indefinidos. Mas conseguirá o organismo impor uma mudança aos seus órgãos e estes às suas células simplesmente através da burocracia da vontade? Foram as pessoas que mudaram e inventaram dispositivos que respondem às suas novas necessidades, como um elevador numa torre de cento e noventa andares, ou foram as máquinas que se fizeram existir umas às outras, umas solicitam outras e estas novas interagem e solicitam as pré-existentes dando lugar a um conluio de operacionalidades que demandam utilizadores cada vez mais sofisticados (e deixam os menos sofisticados vulneráveis à extinção). Contudo, quando os pesados (e descerebrados) dinossauros começaram a voar, de imediato não se percebeu o impacto na hominização. Cozinhas alegradas por canários e periquitos, desventurosos frangos no tacho, fígados de gansos torturados no frigorífico, a um canto, um papagaio num poleiro demora a falar, ou a própria ideia de passarola do padre Bartolomeu de Gusmão, só foram possíveis após o voo do pterossauro. Assim, quando hoje nos assenhoreamos do cérebro e o dizemos o suprassumo da evolução, ignoramos o que acontecerá às máquinas que entretanto foram criadas e o moldam como o vento moldou as aves e, antes destas, os pterossauros. Percebemos, contudo, que o tamanho dos dinossauros têm, apenas, um relevo cinematográfico e que deles nada resta na estrutura do nosso cérebro. Sabemos, também, que, no futuro, na estrutura dessas comunidades de máquinas superinteligentes nada restará da inteligência humana. Serão maquinas altruístas que se auto-constroem para a otimização dos sistemas cósmicos e se auto-aperfeiçoam para que a felicidade exista ou este otimismo é um resquício humano e o que conta na evolução é uma mera dialética anti-entrópica?