Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

NORMALIZAR-SE NA POLÍCIA OU NO HOSPITAL

Tendemos a construir o conceito «humano» a partir de uma bondade, de uma convivialidade e de um empreendedorismo altruísta que observamos, por vezes, nalguns dos melhores cidadãos. Damos por adquirido que partilhamos uma natureza pejada de atributos positivos que nos fascinam nessas pessoas que achamos admiráveis. Eles tornam-se uma norma ideal que sabemos nunca atingir, mas confortam-nos que tenham existido e louvamo-las, sejam religiosos abnegados, ou fanatizados, ou embevecidos, ou desesperados à espera de um reencontro com a divindade ou com algum dos seus avatares, ou sejam heróis de admiráveis feitos, mas aqui já é questionável o critério, pois, frequentemente, são heróis de realizações titânicas contra outras populações, de alguma forma, suas vítimas. Hoje, valorizamos especialmente jogadores destros em certas artes lúdicas (futebóis, boxes e outros haikidos greco-romanos, tenistas, etc.), também artistas hábeis de entretenimentos vários (comédia, pintura, literatura, etc.) e negociantes, e valorizamos menos alguns profissionais que desde sempre existiram para nos normalizar e entreter, como os poetas, as sacerdotisas dos templos, os filósofos de potente retórica, os saltimbancos e outros histriões, de terra em terra mostrando-nos as suas habilidades. Conhecemos melhor as terríveis pulsões que integram a normalidade e que um certo modo de viver social reprimia violentamente, e, também, outras pulsões, simplesmente as escabrosas que todos praticamos às escondidas porque o corpo as solicita e disfarçamo-las. Chegou-se a definir civilização como um sistema de sublimações, sem nunca se perder muito tempo a falar do iceberg escondido. Dizemos em certas ocasiões da mente aflorarem vontades que não conseguimos reconhecer. Inesperadamente, matamos, ou mutilamo-nos, ou atiramo-nos de um prédio à rua, ou insultamos um pobre polícia, e desculpamo-nos que ignoramos donde saem tais impulsos que reconhecemos maldosos e perversos. Onde o polícia falhou, o aparelho nominalista categoriza o desviante nas classes da exclusão: o psicopata, o louco, o tresloucado, o perverso, o alienado ou, simplesmente, o excêntrico, assim justificando uma compulsiva intervenção normalizante. Chama-se o médico, o bruxo, o curandeiro, o terapeuta, o charlatão: qualquer um que meta ordem nesta mente que se sublevou. O próprio sente a sua vontade escapar-se-lhe e submete-se. Quer retomar uma qualidade de «humano», em que nunca pensara, ainda que num formato menos otimista. Já não pensa na salvação, na vida eterna, na fama nem em ser admirado ou particularmente estimado, quer apenas voltar a integrar de pleno direito a categoria de «humano» cujo atributo de «racionalidade» sente ter deixado de preencher. Esses existem em cada um de nós: quando assomam de rompante, as suas carantonhas monstruosas no lugar da nossa, no meio do nosso pensamento contra tudo o que pensamos, dizendo enormidades com a nossa voz, alarmamo-nos, os olhos muito abertos procuram agarrar-se a algo como uma nuvem onde tanto podemos jazer à espera que a situação se resolva como intervir ativamente disputando o controlo da nossa voz

o direito à vida na Europa

Existem muitas teorias sobre a igualdade e muitos contextos para a «igualdade» que determinaram uma diversidade de ações revolucionárias com interesse sociológico, mas existem poucas teorias sobre a desigualdade. Prova-se que tudo se justifica racionalmente e que, frequentemente, só anos mais tarde é possível um juízo ético isento. Em nome da igualdade, alguns tendem a estender os direitos dos humanos a todos os seres vivos: a um cavalo-marinho, a um morango, a um pé de milho. O direito à vida incluiria o direito a não ser predado, nem assediado, nem toureado, a manter o seu território com os seus recursos alimentares intactos (que frequentemente implica violar os direitos de outros seres vivos que se sobrepõem no mesmo território, mas é sempre difícil levar um argumento moral às últimas circunstâncias sem cair no paradoxo). Imbuídos de um espírito prático naturalista, outros defendem regulações entre os seres vivos baseados na sua força relativa e nas suas manhas: quem tem menos força que tenha boas pernas, ou bons disfarces, ou mais inteligência – ou que se deixe devorar, pois, dizem ainda, o conceito de cadeia alimentar tem uma intrínseca respeitabilidade. A igualdade é uma bela ideia, mas não sabemos se é o melhor para a ordem social. É, também, um propósito moral insustentável: em nome de quê inviabilizar os omnívoros, os carnívoros e, até, os vegetarianos sem termos ainda uma indústria de proteínas alimentares artificiais? Enquanto a igualdade obriga a que se proteja à força os mais fracos, a desigualdade, simplesmente, elimina os mais fracos que não se submeteram, o que leva à violência permanente entre os mais fortes para determinar qual é verdadeiramente o mais forte absoluto. Porque dizem que mesmo com a igualdade instituída «há sempre uns mais iguais que os outros»; por outro lado, a igualdade pode ser vista de diversos pontos de vista e cada um defende o seu. É quando falamos de tolerância dos mais iguais para com os menos iguais e dizemos que todos devemos ser cordatos e civilizados e todos devem acreditar que temos toda a razão e os menos iguais devem ser civilizados e seguir as razões dos mais iguais. A questão complexifica-se porque a polícia e os juízes têm outras razões e juízes há muitos e polícias ainda mais e, embora os temam, ninguém estima as suas opiniões éticas que são cataventos. Portanto, o que está em causa é a ordem política, não é o conhece-te a ti mesmo. A igualdade supõe a consciência de sermos fraternalmente qualquer coisa que nos reúna numa natureza comum, por isso as teorias da igualdade têm dificuldade em nos persuadir a estender ao morango e ao cavalo-marinho o direito à vida em segurança e paz. Mesmo entre os humanos, há grupos que se excluem da igualdade, tribos que excluem o resto da humanidade da sua igualdade tribal, bandos de pirómanos assassinos que matam os outros humanos porque os desconsideram como pares. Terão ainda direito à igualdade? Não se trata de serem ou não europeus, são europeus que justificam racionalmente matar outros europeus. Mantém o direito à vida, tão tenazmente construído universal pelos cidadãos ou relegamo-los para domínios submersos como ao cavalo-marinho? Mas porque tratamos estes grupos como curiosidades antropológicas equivalentes a morangos de aviário ou a cavalos-marinhos impossíveis de civilizar? São assuntos delicados que exigem respostas civilizadas.