Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o ano novo

É difícil começar o ano sem qualquer propósito. Quereríamos, apenas, mais tranquilidade que a dos últimos anos, em que tantas coisas aconteceram no planeta, que mais um ano passasse sem nos sobressaltar. Quanto ao mais, não se trata de não ousar objetivos ambiciosos com as respetivas estratégias de sucesso, nem de prudentemente nos remetermos a uma posição zen dadas as contingências políticas que se avizinham, nem de nos dizermos satisfeitos com a mulher, os filhos, a família e os amigos; satisfeitos com tudo o que nos foi proporcionado, até com o trabalho e, embora menos, satisfeitos com a poesia. Não. Não estamos resignados num mundo que parece, contudo, ainda bastante aperfeiçoável. Mas não nos excita esta época do ano. Tomamos a passagem do ano como os neanderthais, como alguém que conhece as vicissitudes dos calendários (ortodoxo, chinês, islâmico, etc.) e que desde o início da linguagem recebeu muitos votos de felicidades para os novos anos que se seguiram até hoje. Ignora-se se os neanderthais tinham um nome ou se se designavam pela dominância como na tropa (o alfa etológico correspondente ao general, o beta, a um tenente-coronel, os ómegas, são a soldadesca). Se eu fosse um beta teria milhões de votos de bom ano acumulados e teria respondido a todos com simpatia. Mas é difícil pensar como um neanderthal, é difícil imaginar a angustia que a passagem do tempo lhe provocaria sabendo que terá uma menor expetativa de vida do que no século XXI, que pouco terá para aprender comparado connosco, intoxicados em informação, que os perigos são muitos e que não vale a pena moralizar a situação política como fazemos atualmente. Gostamos de nos apresentar nostálgicos, como pessimistas racionais, alegando que no passado é que se vivia bem, próximos da natureza que era benigna e natural, que as pessoas eram também naturais e pacíficas e apontamos vários períodos em que preferiríamos ter vivido embora ninguém recue até ao Pleistoceno nem a épocas anteriores. Sim, o povo pode, finalmente, recuar; ser populista e recuar, ser contra as migrações, contra a Europa, contra a moeda, contra tudo. Neste princípio do ano é difícil fazer uma oposição seletiva e inteligente, o sistema baralha-nos com as filhoses e concertos gratuitos e ainda esperamos os reis magos.