Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

CLUBE MEDITERRÂNEO

Há um momento na vida em que só resta partir para um clube de férias, desgostoso com a poesia ou para evitar novos imprevistos. Aí troçam da vestimenta, olham-nos como estranhos, jantamos sós, não temos parceiro para o ténis e são eles que têm razão, ou melhor, a razão é um braço de ferro. Percebem-se razões muito fundas desde a forma de ostentar as iniciais ao abordar uma mulher no bar da praia, ao uso de desodorizantes e odorizantes cutâneos e à culinária em geral. Até mesmo em situações difíceis o estilo conta, por exemplo, no gesto de abrir a carteira sem refilar, embora sabendo-nos enganados. Porque a poesia é não gaguejar quando as pontes ruem e se percebe não se poder contrariar a celestial naturalidade da linguagem. Então, é apoderarmo-nos do eco num recanto aluado do medo, ouvir o verso e o reverso. Mais vale esquecer as derrotas, concentrarmo-nos nos objetos pessoais, cuidá-los pelo que nos evocam e não lhes exigir senão um local contentamento. Perto do final, alimentar um desejo íntimo de que as coisas falhem. Percebe-se a sua definitiva insatisfação, mesmo que a mulher nos corresponda, que evitemos os sabores vulgares da culinária hoteleira e tenhamos parceiro para o ténis. Percebe-se a poesia ser um corpo na mente onde algumas coisas se inserem e donde outras são expelidas.

AGOSTO PODE TRAZER-NOS SURPRESAS APESAR DE ESTARMOS DE FÉRIAS

   Agosto foi um mês quente e árduo, mas o notável foi a sua lenta aterragem como um estrangulamento: onde os prados eram verdes, tingiram-se a seco ouro, e também os corpos bailavam e se tornaram alvos fáceis, atreitos à imponderação e à mentira. Embora sem critérios sólidos, o que parece contar é uma vontade de levitação atingir níveis de saturação no vácuo do corpo compatíveis com uma espiritualidade autêntica cujas conclusões sabemos improváveis. As férias são cenouras. Mais um ano passou. O jogo repetiu-se. Fizemos como os heróis subjugados por poderes que não conseguiram vencer. Nós somos o coro do drama. Esperamos um novo agosto com uma espécie de esperança. Há uma inércia nas crenças, mas não são as antigas profecias que a alimentam, antes um desempenho superficialmente inteligente que, na realidade, está enraizado na desordem donde as soluções espampanantes surtiram. Tentámos selecionar as mais adequadas, mas errámos. Em férias, permitimo-nos variar os critérios constantemente. Tentamos com o prazer provocar um estonteamento que estremeça o eu – e que se estenda aos outros cujo terno calor depressa esqueceremos. Multiplicámos os encontros inesperados. Agosto é propício à fogosidade e nada do que então façamos terá consequências sérias. Uma parte da nossa natureza é robótica, seguimo-la e reprogramamo-la com uma liberdade excessiva. Programamos o gozo e o inesperado, mas a inércia e a monotonia introduzem critérios inamovíveis. O que resulta é monótono em agosto; as suas cores pouco se destacam das fórmulas cinzentas da nossa normalidade. Quanto ao mais, só na lógica de uma literatura nobel resolvemos algumas das suas bruscas transições. De repente, aparece-nos um nódulo num pulmão e é um sarcoma. A cirurgia não removeu todas as metástases. Nunca temos a certeza se chegaremos ao próximo agosto. Pelo menos com a forma habitual.

hábito, atitude, caricatura

HÁBITO, ATITUDE, CARICATURA   Em particular nas férias, deixamos a nossa autoindulgência à solta e é quando percebemos que já não sabemos o que é consumir. Na verdade, o paradoxo da desnecessidade apropriou-se das nossas mentes de caçadores-coletores. As nossas necessidades crescem a uma velocidade nunca atingida e já não é possível reduzi-las a variantes de uma mesma tendência geral à sobrevivência. Podemos dizer que a sobrevivência se matizou, que pode ser servida por padrões de consumo diversos e que no limite do nada consumir pode encontrar seja um júbilo transcendente, seja a própria exaustão da sobrevivência que é uma via absurda para o aniquilamento. São precisas teorias do consumo que o realienem: 1) fomentando a troca de papéis entre abastados grandes consumidores e os que economizam na pasta de dentes, 2) encurtando o intervalo entre a formulação de um desejo e a sua saciação para que a libido não se perca com tempos mortos, 3) inundando o mercado de bens verdadeiramente supérfluos (um indagador universal a partir da mobilidade das nuvens, um arquivo panoramográfico, um cocegador com doseamento serotoninérgico, um programador de pequenos almoços) que tornem obsoleto pensar no que faz falta, 4) pastilhas que compensem o que falta, assim desfazendo o apetite (da fome e da sede, do sexo e do sono, de saber e de poesia, de amar os outros como a nós mesmos), 5) reembelezar a publicidade de modo a persuadir os que ainda lhe resistiam envoltos em ideologias eco-sistémicas, 6) aditivos ilusionadores a juntar a qualquer objeto para dilatar o seu tempo diário de utilização, 7) multiplicação dos parques naturais e de outros reservatórios de natureza a serem visitados em cápsulas rigorosamente impermeáveis, 8) entorpecentes cinematográficos para colorir o sono tanto para as pessoas que têm pesadelos como para as outras que não os tenham. As teorias do consumo devem, sobretudo, defender a desnecessidade de qualquer teoria pois o consumo deve ser o grande e inquestionável princípio de relação com a vida, assim anteceder e fundamentar todas as teorias. Em particular em férias, quando o corpo se lentifica é a ocasião para recolocarmos a metafísica do sentido: 1) o ser não tem fome, 2) a fome é o nada da posse, 3) a posse organiza a realidade, 4) a realidade possuída é necessária e contingente, 5) a questão do sentido não se coloca em férias, 6) em férias não se é – está-se, numa realidade episódica, contingentemente possuída e, como caçadores-coletores, resolvendo a fome sem trabalho.