Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

COMO ABORDAR OS CONCEITOS INDEFINÍVEIS

Porque não é infinita a luz, pensamos numa palavra, «proa» ou «pera», e esperamos que se alumie. Compomo-la de improvisos, sombras de músicas perfurantes e perguntamos de quantas essências é o mundo feito, se a imanência do ser se aplica ao perfume ou a alguém. À consciência? O efeito do amor sobre a pele, a fluorescência que vibra em cada segundo dos poros, é a lâmpada de Deus e o que a funde – a eternidade possível. Pois o amor é a direção da proa; o sabor da pera, uma necessidade de algo que nos difunda na impregnação anterior da alma. Chamamos a isso «tempo» ou o tempo é a consciência dos estados à beira do precipício, os equilíbrios necessários ao aprender a manobrar os espelhos, colocá-los em paralelo até ao fim do «tempo», situação por definir onde já ninguém estará e eu saí muito antes.

FUGA E PRENÚNCIO DE UM INSTANTE    

Ao dizer o leito da espuma numa nascente virgem (cuja doçura os pés estranham), não percebemos onde a ondulação (ao deslocar objetos dentro de casa) atinge a volúpia de uma fotografia. Percebe-se a rugosidade dos instrumentos poéticos, a sua incerta localização nos muros do mar, rebatendo o abecedário das cores para os reflexos do branco no inconsciente de um deus. Nós dizemo-lo glorioso porque assim o pensamos automaticamente com a sucata dos adjetivos – sinos, gonzos, trompas como sopram uma persuasão que é preciso amar – e fugir do bucólico vale, as suas flores e riachos. Reconhece-se, na espuma dos enigmas, as traves de uma arquitetura primordial (a sua durabilidade sustém a persistência das coisas), e, conquanto se desfazem as formas nessa matéria suculenta, no seu opaco ama-se o melhor do hino, os desdenhados enigmas da vida. A lenta coalescência das coisas ignoradas musica a arte dos versos, ritmam-se, pausam sempre que o poema sobre nós desaba, o estrondo da vaga inunda-nos de um pávido suor. O infinitamente pequeno solta-se em nós, o oceano ruge, quer-nos de uma forma mortífera, nós os recipientes da espuma que equilibra as partes mortas, as roldanas da filmografia. Depois, finalmente abrimos os olhos às imagens – luas múltiplas, tetracéfalas, pirosas. Luas cambaleando pelo firmamento à procura da explicação, bêbedas mais que nós, luas de voluptuosas promessas, a própria forma da promessa, a espuma do seu oco enrijece-nos. Luas dos inextricáveis odores do inconsciente, arautos de deslumbrantes significações, bisturis fatiando-nos por dias de anónimas pertenças. Estamos à frente da imaginação e sorrimos e respiramos um vento de vidro no cimo de uma montanha de vidro donde segregamos alguma forma de olhar totalmente neutra. Apetece-nos rezar sem saber o que a seguir venha, ignorando o rosto de quem nos persegue, de quem para nós cozinha o mundo. Tudo vem da nascente virgem onde chapinhamos na espuma de um sossego avassalador, demónios de vidro, olhamos a própria transparência.

Edmond Husserl

«Sobre as dificuldades da fenomenologia, ainda hoje não sei exatamente se estou ipseizado. Muito do que eu sei de mim não é experiencial, mas passa-se num estado qualquer que eu não sei descrever. Não digo que me sinta sonolento com o eu a dissolver-se nas ondas lentas da universalidade, ou que esteja entorpecido pelos eflúvios monotemáticos da sexualidade, nem que tenha ficado socialmente inconsciente com as sequelas do último atentado. A maior parte do que se passa é deduzido da própria noção de existir como, num sonho, a continuidade se reestabelece entre episódios que digo meus apenas porque os sonho e outros episódios, alguns dos quais esquecera. Por outro lado, esses estados geram convicções diferentes sobre as mesmas coisas e a minha ipseidade afirma-se então como conciliadora entre uma filosofia estatal que exige racionalidade e coerência e o meu interior que não vê nenhuma razão para decidir entre uma coisa e a sua oposta. Sou um utilizador livre da mente – porque obrigá-la a reproduzir o estado e a sua burocracia? Para lhe pertencer, claro. Como viver fora dela? Como falar da minha ipseidade se ela não se apresenta com clareza? Digo consciência como se percorresse um museu de história natural às escuras – o foco da minha lanterna descobre, ocasionalmente, algo que me parece vivido por mim. Não me pergunto se faço batota com a mente intencionalmente ou por uma necessidade que não mentalizo, mas se me engano a mim próprio sobre a minha ipseidade tenho legitimidade para me apresentar aos outros com o meu engano e usar as minhas crenças opostas segundo a minha conveniência. E não suporto que me confrontem com a inconsistência do que digo. Tal como é autónoma a beleza de cada poema e cada um pode aludir a crenças que noutro poema surgem opostas ou como um ator representa o herói ou o vilão, tal como a maré enche e, depois, vaza, ou um comboio vai daqui até ali e volta na direção oposta sem que ponhamos em causa a mesmeidade do comboio, também eu não me subordino ao que fui. Portanto, não vejo violência em ter nascido nem em nada do que me aconteceu. Não dramatizo nem me tomo como objeto lírico. Aliás, não tenho má opinião dos meus pais que permitiram que os atravessasse como a uma autoestrada cultural para ter acesso à vida. Agradeço-lhes, também, não me terem obrigado a nenhum destino: pude mudar de autoestrada e seguir por onde as estradas se estreitavam e o caminho eram carreiros quase exclusivos. Provavelmente tudo isto que me aconteceu resultou de não estar ipseizado; assim, os meus pseudo-autoenganos resultam da instabilidade das minhas crenças, da instabilidade do meu corpo, da instabilidade da minha casa, da minha cidade, do meu país, da Europa e de todo o cosmos e são o que nos faz assim viver».

insolucionavelmente

Hoje, que possuímos a descrição completa de cada instante do cérebro, podemos focá-lo de diversos ângulos como um vulgar objeto tetradimensional ou deslocá-lo e construir conjeturas de glória ou de humilhação para onde ele nos arrastará se o tomarmos a sério ou o levarmos às últimas consequências. Husserl acabou, podemos afirmar: a objetividade inclui a subjetividade e lá aparecemos, os grandes poetas à frente com as suas fulcrais distinções disfarçadas numa forma de dizer ajardinada a gosto, e, depois, nós em cuja consciência tudo se mistura. Devemos, contudo, respeitar a aridez filosófica, cultivar formas de dizer cuja espalhafatosa precisão já não é acessível, devemos até formular versões alternativas da verdade como na arquitetura dos abrigos antinucleares. O próprio Fausto de Pessoa é um falso problema filosófico, um caso psicológico de inconformidade com as regras do pensamento: da ansiedade de tantos infinitos convergindo sobejava-lhe a noção obstinada de aborrecimento cuja psicocirurgia pouco proporcionou: as cenas paradisíacas dos nossos primórdios não enraizaram na linguagem, provavelmente perderam-se durante a evolução dos sistemas neuronais nacionais. Aguardamos uma desmaterialização cronologicamente orientada até ao surgimento da consciência para julgar os resultados exatos dessas investigações históricas. Antes, as orgias eram a regra quando os matriarcados dominavam, nada estava previsto, a gravidez era um puro arrancamento ao corpo em que o homem procurava envolver-se. Como outros órfãos, amarrado ao silêncio da ausência, Pessoa nunca compreendeu o cérebro nem sequer as suas máscaras triviais na linguagem e na consciência, por isso, viveu à deriva pela literatura clássica. Esteve a um passo de ser um homem de ação, um político, um líder com um variável sentido da oportunidade e da justiça. Rodeado de Ofélias e de Camélias, também de Cremildes e de Beatrizes, teria compreendido o amor estar além da sua enfezada miséria biológica, decidir-se pela avidez do prazer e não pelo histórico das suas masturbações. Ainda hoje o ouviríamos como ao Walt Whitman, gritar o instante da penetração, noite dentro com os soldados nos hospitais de campanha, feridos, ossos quebrados, mas ávidos de dar sentido e uso às suas gónadas hiperativas. Como despojos de guerra, entregavam-se à terra queimada sôfrega de feminilidade que habitava o poeta. No Fausto ouvimos, pelo contrário, a negatividade da consciência interiorizar-se numa culpa castrada. Ouvimos os seus arrepios, assistimos aos seus prosaicos horrores, descremos dos seus sobressaltos por adivinhações sorumbáticas ou por «mistérios» na terminologia do misterioso. Ele tinha razão pois o amor era não-intencional, vazo do querer de uma presença, a própria consciência do amor como estado da alma lhe destruía o desejo. É quando recria Fausto; a personagem é a não-intencionalidade da consciência, o puro pensamento quando falha alicerçar-se, até na poesia, e, assim, puro branco, o imenso que contém é receptivo e feminino como o princípio do mundo.