Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o conclusivo e o relevante

O meu pensamento para e contempla. Não julga, não categoriza, nada tem para decidir e pouco se pensa. Pensa o que contempla que é como um amor que não ama, ou que talvez ame, mas é em silêncio, ou talvez tenha amado, mas agora o que tem para recordar cabe num detalhe da paisagem. Parado como se tivesse sofrido todas as doenças do pensamento, todas as desventuras, todas as frustrações, muitas das alegrias maiores, mas o que tivesse presente quando contempla fosse um ponto de tranquilidade donde a paisagem se contempla e o inclui nela. Fica como um moribundo da ação, um inutilizado pela ação, um devotado à harmonia arbitrária entre as coisas, amarrado ao mastro da aventura com um olhar carregado de memórias. Todas as paisagens fazem crescer uma teia de aranha que é um véu sobre o futuro, um filtro que separa entidades, mas ainda longe de ser um critério de benignidade. Ao pensar o que contempla, o pensamento pensa-se e ao tentar simplificar o que examina excluindo-se, é atribulado por questões internas e faz-me surgir explicitamente como um «eu» ativo, como o sabotador das suas engrenagens transparentes, surpreendido a roubar chocolate quando devia estar a trabalhar para o bem da humanidade como qualquer pessoa: «O que fazes aqui? És o intruso dentro de ti.», diz-me como se dentro de mim decidisse em unanimidade ou como se pudesse pedir contas ao que penso. Estou nele como uma árvore no meio da floresta, mas quando vejo algo admirável, forço-o, ou quando algo de inadmissível acontece, tento que ele tome partido bem como se uma causa aparenta merecer ser considerada. Então, ele para e contempla, eu sigo-o nas suas deambulações, mas, ainda que conclusivo, pouco do que ele pensa merece ser dito.