Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

raciocínio cego

Um sistema solar miniatura estabilizou a sua entropia e acabará por nos aborrecer quer o habitemos com as nossas ideias também miniaturizadas quer seja um modelo da nossa realidade onde possamos ensaiar cenários futuros. São estilos de vida em que as ideias são miniaturas das coisas e quando as palavras lhes chegam, partimos para o ginásio com outra disposição. Elas dão-nos a possibilidade de falsificar até a um limite em que as ideias ficam pouco plausíveis ou passam a corresponder a outra coisa. Por exemplo, removendo alguns planetas desse sistema solar, muitas pessoas não dariam pela falta, contudo, a perturbação electromagnética resultante provocaria uma agitação neuronal com manifestações imprevisíveis, ainda assim, continuaríamos a querer adaptar à nossa ideia um sistema solar que se tornou outro. Há teorias assim, tal como no amor há uma probabilidade de surgir qualquer coisa parecida com a felicidade a qual, depois, se esfuma sem que isso implique qualquer rearranjo global nem afete o nosso modo de vestir, ou de puxar o autoclismo, ou de nos abraçarmos depois de meses sem nos encontrarmos, ou outra manifestação de estilo. No entanto, o amor é afetado por pequenas circunstâncias que são imperceptíveis noutros domínios o que prova que somos muito mais sensíveis às salmonelas de um ovo estragado do que ao desaparecimento de um planeta; os neurónios não conhecem o amor do mesmo modo que nós: o sexo miniaturiza-nos e, se o amante desaparece, no cérebro, representam-se dezenas de encenações catastróficas que podem causar múltiplas respostas: 1) um pranto desasado com eminente queda do ninho, 2) a queda intencional do ninho, 3) um alívio inesperado como a cura de uma artrose ou da gangrena, 4) um lento descalabro existencial com ou sem alcoolismo, 5) uma mudança de vida radical: depois de uma tentativa de suicídio frustrada, a pessoa suspende o choro, parte para outro continente, muda de profissão, esquece o desespero, passa horas a olhar os astros, descobre a astronomia, como a matemática o agiganta na medida em que miniaturiza o seu desespero. Julga ter vencido a entropia e o aborrecimento e estar preparado para muitos cenários futuros. «Vamos a ver, logo se vê», é o que responde o cego quando lhe perguntam por cenários futuros.

sobre o atual contexto sociológico

Começo por dizer: «Estou farto da pós-modernidade». E justifico: «Estou farto dos truques linguísticos que passaram a truques cognitivos nos quais acreditamos e defendemos. Ficamos depois à espera que os destruam e que surjam novos propagandistas com novas bandeiras». Eu também estou farto da pós-modernidade e dos seus truques que se sustentam sem qualquer fundamento estético. Também já não conseguia continuar a contar histórias e a falar de mim como observador de mim como se a minha posição fosse privilegiada para o fazer. Nem sempre, como agora, estou de acordo com a minha voz interior e não é fácil imaginar-me a bordo de um fotão apontado aos planetas de vários sistemas solares (aqui o texto agulhou de uma reflexão pessoal para o que é essencial numa literatura abstrata). As viagens são demoradas e tenho pensado no que diria da literatura durante a viagem ou se encontrasse alguém interessado no tema num planeta habitável (outra metáfora sobre a natureza da inspiração na literatura). Também penso que literatura resultaria se me replicasse em milhões de personalidades de mim num planeta esplendoroso, mas deserto. Evitaria os comentários vulgares sobre o sentido e os paradoxos da vida; dedicaria o meu tempo às transições das palavras ao pensamento e deste à construção de uma arquitetura ficcional multifuncional cujas oscilações, por impulsos mínimos de qualquer coisa de indefinido que na Terra se designa por «inspiração», produzisse versões, todas artísticas, de uma espécie de Odisseia. Se não o «mim» sobre que mais poderia escrever que a minha viagem?, o meu texto remete para todos os textos (é isso a originalidade), mas preciso de regressar a casa como Ulisses onde mulher e filhos me esperam. O meu livro será uma obra-prima porque é intertextual, e relativista, porque é politicamente correto, e epistemologicamente neutro, porque é anti-libidinoso e etnodescentrado; será uma obra-prima com a sua própria verdade prática como qualquer produto. A minha obra-prima é como a obra-prima de qualquer cidadão que viaje. Quando chegar a casa, com os meus filhos ao colo, escreverei um grande tratado sobre a evidência ética, outro grande compêndio sobre as incumbências jurídicas e cosmológicas na aculturação dos extraterrestres e, talvez também, uma resenha de culinária futurista já com referência aos ingredientes que se cultivam na escuridão sideral. Continuarei a tomar posições públicas contra a pós-modernidade com os seus obsoletos ovos de colombo. Essas grandes obras parciais/globais que escreverei nunca serão obras-primas. Proclamarão a época das redes globais/parciais; que estamos globalmente condicionados pela ausência parcial, pela verdade parcial, por deuses parciais semi-macambúzios semi-omnipotentes. Estamos convictos de que triunfaremos nesta época da ubiquidade: todos, em toda a parte, simultaneamente.

reflexão sobre a confiança

Entramos no futuro entorpecidos. Foi ultrapassada a nossa capacidade de compreender, mas não damos grande importância ao que falha. Aparentemente, ainda assim, o futuro acontece e é difícil julgar se, de outra maneira (sem que nada falhasse), seria um futuro melhor. Ao nascer a maior parte de nós desenvolveu uma confiança ilimitada no sistema. É uma espécie de condição biológica básica que raramente desaparece mesmo que passemos por dramas absurdos (não os dizemos kafkianos pois, graças ao seu pai, Kafka teve uma vida previsível e confortável) e imponderáveis que provocam um insuportável incómodo. Confiamos que não morreremos asfixiados numa atmosfera poluída, nem intoxicados pelo mercúrio como o peixe-espada e o tubarão, nem vítimas de um inesperada guerra nuclear (ou convencional que seja), nem à fome, e esta confiança não nos abandona por muito assustadores que sejam os alarmes que nos chegam. As ameaças tornaram-se sistémicas embora ninguém vá disparar mísseis contra as Lages do Pico ou contra Ísquia ou contra Paris, Texas. Não são objetivos militares, mas para cada circunstância e para cada local existem hoje ameaças próprias, até a Paris do Texas pode ser alvejada por mera continuidade semântica com a Paris original, Ísquia, pelo valor da simbologia cristã da morte que as clarissas levaram ao limite. Ainda assim, não encontro nenhum pretexto para bombardear as Lages do Pico, mas o nosso cérebro descobre significações sempre que carece delas – segue-as e bombardeia seja o que for. Assim os riscos generalizaram-se; as guerras não são simples desentendimentos, nem são sequer confrontos de opinião entre ideologias ou culturas, são estados de alma em que perdemos a paciência como quando um mosquito nos sobrevoa durante a noite e resolvemos, enfim, aniquilá-lo. Haver armamento e exércitos favorece a eclosão de guerras locais, não empatizar com o mosquito que nos mordeu transforma-o em adversário não queremos compreender o porquê destas atitudes. É demasiada informação – distrai-nos dos dramas do que na humanidade falha.

lembrando o desespero obstinado de Bertrand Russell

A morte do Sol encerrou a fase terráquea da literatura de ficção científica. Ignoramos quanto tempo poderá a humanidade terrestre sobreviver numa lenta agonia vivendo em túneis na espessura do magma, mas nessas profundidades apenas a poesia lírica tem florescido: pequenos trechos que mencionam o limite, a ignorância, o erro, sobretudo a crendice científica e um milenar humanismo gabarolante expressarão a perplexidade frente à ruína do templo humano. A poesia, desde logo monumental e epopeicamente, a mente cantando como se as coisas vistas dos píncaros com as nuvens do crepúsculo encarnecendo o firmamento lhe proporcionassem corpo e matéria; as coisas do pensamento fossem o anúncio da realidade apenas sujeitas às regras lógicas da plausibilidade. Mas o pensamento são átomos instáveis e corpúsculos saltando de órbita para caminhos fora das prévias redes neuronais. As promessas, as esperanças, as utopias são episódios como sonhos que terão alguma função porque assim gostamos de pensar as coisas: úteis e anafadas ou lixo e traumas sujeito a catarses profissionais ou sublimantes. Mas, além deste encadeamento naturalista de causas, provimos as coisas de um sentido: ser-nos-á útil defender ainda propriedades de conjunto como o amor e a felicidade?, esses estados não serão meras abstrações verbais de uma culinária social patogénica? Qual a vantagem de nos iludir com a estabilidade do destino e com uma organização moral com códigos, leis e declarações demasiado estruturantes quando milhões de anos volvidos, estamos debaixo da terra, vivos ainda, reciclando até o ar e a água? Se antecipamos o vazio entrópico, algum dia, biliões de anos adiante, todo o cosmos se anulará; conseguiremos aforrar as descomunais quantidades de energia necessária para delimitar zonas do espaço sem expansão nem colapso? Trouxemos a isto a poesia de uma humanidade que come cogumelos, se embebeda com vinho de cogumelos, se entorpece com extratos de cogumelos e morre cada vez mais tarde em caldos de cultura de uma harmonia apodrecida. Será a carne de toupeira apropriada? Temos milhares de colonatos espalhados pelo cosmos; o fogo, o heroísmo, toda a devoção, toda a inspiração, todo o glorioso brilho do génio humano se dispersaram e fizeram a humanidade sobreviver à vasta morte do sistema solar. Como se houvesse, desde o bigue-bangue, uma previsão do trajeto, uma tendência à elaboração da energia em formas capazes de manter debaixo da terra, acesa a chama da poesia, acesa a luz de uma racionalidade intermitente que, se falha no plano individual, conduz a matéria cósmica para níveis de complexidade magníficos. Aqui, hoje, soterrados como minhocas, esperamos o socorro de uma civilização irmã. Chegará e salvar-nos-ão, sabemo-lo desde a matriz das nossas moléculas; temos uma salvação limite inscrita no enrolamento dos nossos genes, uma esperança indómita – o sol não nos engolirá. Só connosco, terráqueos, conseguirão as humanidades extraterrestres desenvolver o projeto de delimitação do bigue-crunch. Tínhamos teorizado, milénios atrás, o isolamento matemático de porções do espaço. Não havia, então, tecnologia disponível nem vimos logo uma utilidade no projeto, mas foi desenvolvido no quadro dos estudos de Teologia Experimental dadas as suas implicações. Hoje estamos preparados para isolar uma porção do espaço com uma estrela equivalente ao sol e recolocar alguns planetas na sua órbita. Se ainda tivermos tempo, poderemos repetir a operação poucos séculos após e fazer os dois universos evoluírem autonomamente. Isto acontecerá e escaparemos antes que a luz vermelha do sol moribundo cresça sobre nós e degluta a Terra. A literatura de antecipação continuará após a estabilização das nossas novas limitações.

considerações sobre a amizade

Gostaria de ter um amigo extraterrestre (ET). É como ter um amigo inglês ou doutra ilha exótica, ser exposto às suas peculiaridades e estimá-lo por ser assim. No limite, procurar em mim o reduto da vida que nos concilia – encontrado esse ponto, é fácil a amizade, fácil imaginar as estratégias que cada um inventa para levar a inteligência a algum lugar com o outro a reboque. No passado, os ingleses foram terríveis colonizadores, tal como os espanhóis. Eram grandes nações, mas Portugal nunca teve oportunidade de verdadeiramente dominar. Pilhar ou saquear sim, e evangelizar ainda que as nossas certezas fossem mais precárias que as dos outros; para muitos de nós foi possível ir, ficar, procriar, começar tudo do princípio. Amar um outro a partir de afinidades recentes ou criadas para o efeito. Ignoramos como será um intercolonialismo galáctico. Seria capaz de amar um ET azul ou proteoplástico com uma inteligência de térmita ou uma forma aracnídea solipsista com condutas sociais primitivas? Como me rever nas condições limite que as amizades constroem? Conseguiremos escamotear a sua lógica de confronto e de dominação? Com que próteses lidar com o efeito de escala para compatibilizar os órgãos da sedução? Imagino-me amar um pequeno ser amedrontado com a minha brutalidade, os seus membros protoplásmicos criados pelo desejo de me abraçar e dotado de uma nanointeligência fabulosa. Imagino-o a falhar, a descurar o seu interesse imediato pelas mesmas razões que fazem medo às pessoas que se acobardam em frente de cenários catastróficos. Qual de nós seria o Sancho Pança, o anti-oportunista enlaçado na minimização das condições da solidariedade, e qual seria Don Quixote? Numa grande ilha ou num grande planeta à solta e desorbitado, outras energias afetam a nossa ideia de amizade. Ainda acordaremos de noite com pesadelos de um inesperado rancor? Serão histórias de duendes impessoais, caprichosas peripécias de individualidades sem interesses definidos, súbditos momentâneos de omnipotências idiossincráticas, como eu à procura de uma realização afetiva na extrusão do entendimento. A amizade é um ponto na concavidade do espelho: a floresta, a megacidade, as galáxias, tudo o que é exterior e pode ser pensado impõe um realismo que se entrecruza na noite dos solitários, as hipóteses que deveriam acontecer entrosam-se noutras inviáveis; por amizade reinventamos os respetivos papéis. Será o cosmos tão grande que não se cruzam os destinos dos amigos?

monólogo cósmico

Porque se escondem as civilizações extraterrestres superinteligentes (CETSI) deixando-nos a falar sozinhos no universo? Que avaliação fazem da física e da poesia que não procuram os nossos autores? Desconhecem Arquimedes e Fernando Pessoa, ignoram Shakespeare, Confúcio e Einstein ou tomam as suas obras como pedra lascada? Quanto a mim, o diálogo é impossível com os nossos telescópios de vistas curtas e obsoletos radioscópios “descobrindo” galáxias redundantes. Nunca mais deixamos de pensar o mundo a partir do nosso trono civilizacional onde pretendemos um lugar visível na fotografia de grupo com os bacalhaus, e as ostras, e as árvores dos bosques, os seus esquilos e demais Disneyworld aos pés. Não saberíamos onde nos colocar se aparecessem de repente os representantes das CETSI. Resolveríamos a situação com a tolerância cosmopolita de Fernão Mendes Pinto ou com a diplomacia violenta do Albuquerque? As nossas mensagens ainda não venceram a velocidade da luz de modo que só daqui a séculos receberemos eventuais respostas num português que já nos custará decifrar. Como se nos apaixonássemos por um surdo-mudo fascinante e resolvêssemos esperar que os progressos da otorrinolaringologia resolvessem o défice de transmissão no nervo auditivo, só então obter uma resposta aos nossos apaixonados anseios. Poderá a paixão durar, assim se alimentando do seu devaneio? Como esperar apenas preparando o corpo para uma resposta que ignoramos em que frequência e em que referencial nos chegará? Sonhamos com a domesticação de um buraco negro para mobilizar uma luz rápida adaptada à ânsia, ao desejo, à paixão ou até que essa luz se conforme numa imagem tridimensional corporalizável. Poderemos então amar-nos através de replicantes mantendo uma supertelepatia neuronal que não se sustém nas ondas da sugestionabilidade histérica para plateias de idiotas, mas numa simbiose neurodigital que se dissemina exponencialmente entre humanos. Assim, sem maior redundância, se elimina o equívoco da linguagem explicitando-a num formato semântico pós-conceptual. Mas se somos capazes de pensar tanto futuro, seremos capazes de o fazer acontecer? Entretanto, enquanto mantemos esta atual relação precária com o possível, como explicar o silêncio cósmico?, será que enojámos os nossos interlocutores universais com as imagens que difundimos das nossas guerras, dos bárbaros desportos, dos entretenimentos concursivos ou de esmiuçamento sexual das estrelas em voga? A primeira e mais simples retribuição da simpatia é a imagem do eco: as CETSI não terão nada de semelhante com que ecoar a nossa ânsia de interlocução ou seremos nós que ignoramos as suas respostas? Desta vez, não queremos ouro e especiarias, mas informação e tecnologias. E se nos sonegarem a memória e nos subjugarem com a tecnologia? Não fizemos o mesmo?, seríamos capazes de resistir a dominá-los? Lamentavelmente sem interlocutores, exercitamos o nosso altruísmo distópico em sociedades perfeitas fingindo acreditar que não as perverteremos (democraticamente ou não).

 

a felicidade individual é cada vez mais curta

Amanhece. Desperta-se com a habitual avidez de factoides. Sobe-se ao farol, mas os que naufragaram já desapareceram e nem todos os factos são recuperáveis. O dia promete tranquilidade, ainda assim, há um propósito, procedimentos em curso. Quem entregará as armas enquanto o paraíso for mais que uma vã promessa? Quem conseguirá extorquir da sintaxe do que se avista os solilóquios do bem e do mal? Serão adotadas grandes medidas de pacificação cósmica homólogas dos nossos yogas de trazer por casa. Quem deixará os sofisticados hospitais da cidade, os seus seguros de vida (ainda demasiado restritivos), as suas propostas quase orgásticas, para construir formas autónomas numa paisagem desartificializada, uma morte até? Alguém cumprirá os seus sonhos primeiros? O dia-a-dia é a escultura de uma intenção até que toda a matéria se desgaste e se revele. Ninguém entoa os cânticos do futuro. Ainda estamos em recessão. No futuro, teremos a estatura corrente para anão, mas os braços serão tão pequenos que não chegarão à boca e só nos alimentaremos de chupa-chupas compridos. Depressa compreenderemos que haverá muitas oportunidades na vida que não conseguiremos agarrar. Deixaremos de ser imortais como atualmente; morreremos pelas 19 horas e ressuscitaremos pelas 7 horas (do dia seguinte), embora desempregados. A lua estará ligada a nós de um modo inexorável; é o cio. O lume, a luz do fogo, separar-se-á de nós como um arranha-céus tombado. Vivemos numa anti-epopeia da aviação provocando pequenos acidentes ao cuspir para o ar ou ao urinar contra o vento. Mas a linguagem continuará suave, recompondo as imagens segundo critérios cada vez mais flexíveis. No vagar do cérebro, as lágrimas da razão trocam o que aderiu ao vento, as águias surdas das coisas invisíveis, por um palco de bairro onde, trânsfugas do maravilhoso, de trás das cortinas apareceremos para exibir cinco minutos de felicidade – cada um escolherá a sua modalidade.

a vida inteligente extraterrestre

Lemos a ficção da vida inteligente extraterrestre (VIET) com alguma simpatia, mas notório ceticismo. Seria bom não estarmos sós num espaço tão imenso, mas que pudéssemos fundamentar esta esperança numa suspeita, num indício, numa sombra, num fóssil. Mas não: contamos apenas com uma simples equação da probabilidade da vida, uma mera pergunta filosófica com resposta dúbia ou indecidível. Mas estaremos preparados para um encontro tão esperado? A questão que escamoteamos é a do «exótico», a atitude mal disposta com que lidamos com a diferença no outro transformando-a depressa em antagonismo, tanto religioso (uma temática que assenta num pressuposto inverificável) como futebolístico ou desportista em geral (cujas regras não têm outra fundamentação que possibilitar o confronto). Ora acentuamos as diferenças tomando a nossa helénica beleza de terráqueos como cânone, a nossa irregular inteligência como satisfazendo os requisitos de «racional», a nossa sociabilidade como exemplo de tolerância e respeito, bem expressa numa moderada violência intraespecífica; ora, por outro lado, levamos a superioridade a uma atitude magnânima para com outras espécies como os caniches e os carneiros que apreciamos, seja pela sua doçura seja pela utilidade alimentar. Em geral, são inflexíveis questões de detalhe as que desafiam a estabilidade milenar dos nossos serões em família, um rato, uma vespa, um simples mosquito podem transportar uma carga ameaçadora causando um pânico coletivo. Portanto é imprevisível a nossa reação a uma aparição de ETs na nossa vida íntima: afugentar, exterminar, num caso limite, fugiremos como de um vampiro ou de um monstro. Podemos, hoje, produzir uma classificação exaustiva dos tipos de ETs, alguns, francamente bizarros, apenas os toleraríamos pela sua magnífica superioridade, outros, igualmente bizarros, mas menos inteligentes ou abertamente antidemocráticos, teriam reservado um papel inimigo e, vê-se na história, não serem precisas grandes razões para alimentar implacáveis guerras racistas. Portanto, anteveem-se bem os problemas que se seguirão ao surgimento da VIET; ou ela é eficientemente superior, compreende o nosso asco visceral ao exótico e nos impõem uma pedagogia da solidariedade universalista, ou nos submete ou derrota. Se for irregularmente superior, isto é, muito superior em certos domínios, no cálculo, por exemplo, como certos autistas, ou na acuidade e na destreza manual como alguns mongoloides, haverá alguma humanidade que tenderá a dominá-la – tentarão criar-lhes necessidades, inseri-la no mercado, retirar lucro das novas condições criadas para o seu conforto e este comércio poderá ser a melhor forma de convívio com as VIETs. Poderemos esperar atingir um comum mercado cultural, uma música intergaláctica, uma literatura de conceitos suportados por uma nova escrita universal à qual o cérebro humano se adaptasse. Esperamos que, até que a VIET apareça, consigamos, de vez, horizontalizar o poder ao máximo em termos de otimizar os critérios de decisão políticos a favor do interesse universal, assim evitar disputas entre líderes demagógicos, narcísicos, lunáticos ou, simplesmente, foleiros.

sobre a perfeição do estado (para um elogio da ingenuidade política)

Há uma fase para a desobediência, i.e., uma fase do desenvolvimento das instituições (seja um grupo de teatro amador, uma família de agricultores, um estado democrático ou autoritário, ou seja o governo de uma federação) em que a desobediência é benéfica. Poderíamos dizer que o estado se organiza sempre contra os desobedientes e não a favor dos que cumprem. É contra os rebeldes que nascem as leis, que marcham os soldados; é deles que os fiscais e inquisidores desconfiam e é para eles, depois, todo o sistema de enclausuramento (que pode facilmente evoluir para o aniquilamento moral, ou para a execução). Todos os heróis lutaram contra os que se rebelaram. Ocasionalmente, estes venceram e tornaram-se, eles, os heróis, ou os seus líderes. Substituíram o antigo poder (e os antigos heróis) – inverteram-se as posições: novas leis, novos feriados, novo estado, por vezes, mas a mesma autoridade, a mesma polícia a intrometer-se com a mesma matraca batendo nos costados sem ponderarem a resistência das costelas à fractura. Parece essencial ao estado o desrespeito pelo pensamento individual; alguém que não segue a manada fá-lo sentir-se ameaçado, recear a sublevação coletiva, a desobediência civil, a dissolução da autoridade numa tribo sem tirano. Esperemos que no futuro o estado se torne mais inteligente e seguro da sua autoridade agradecendo aos que lhe desobedecerem. Não os delinquentes habituais, mas os delinquentes altruístas (ou ingénuos). Sejam os que sentem a injustiça da justiça, ou aqueles a quem esta não chega, ou sofrem a sua terrível inoperacionalidade, a sua rígida desadequação aos novos tempos, aos que assistem à sua sobranceria grotesca, medieval, mesmo, e ainda que vítimas, conseguem troçar do estado e defendê-lo. Esperemos, também, que, no futuro, haja melhores desobedientes, ainda mais distantes do estado, mais autónomos, mas, amando-o verdadeiramente, olhem para as suas traficâncias, para os seus vícios, para as suas perversões, para a rigidez dos seus princípios obsoletos e, em vez de apenas denunciarem manuseando a ingenuidade da verdade, que atinjam um diagnóstico profundo e eficaz e o anunciem e se batam por ele. E, ainda que o desenvolvimento das instituições atinja uma suficiente perfeição, é preciso que os desobedientes conheçam a instabilidade essencial da perfeição e que nunca obedeçam.

crónica sobre o que deveria acontecer

Hoje, tento escrever uma verdadeira crónica sobre o que acontece no mundo de relevante supondo que seja o que interessa a um leitor ideal: a minha opinião sobre o mundo no dia dezasseis de dezembro de dois mil e dezasseis. «Relevante» implica um impacto na inércia de modo que, ao abrirmos a janela de manhã, logo percebemos que algo se alterou. É um sentimento fisiognómico, uma nova ruga ou um impercetível esgar ou um sorriso apenas muito levemente esboçado no rosto do mundo a que reagimos com curiosidade e inquietação. Creio que o que fez passar o mundo de ontem para hoje sem que nada de relevante se alterasse será o que o fará chegar a amanhã sem guerras atómicas, nem mais morticínios além dos expectáveis, nem novos disparates dos estadistas, nem novas modalidades de injustiça, nem mais corrupção embora reconheçamos também corrupto o que está estabelecido como normal, como eleitoral, como religião e moral. Vou passar o dia à espreita de acontecimentos relevantes nos noticiários de todos os continentes. Entretanto posso adiantar o início do texto: «Tal como a humanidade esperava, aconteceu n_ ______ que foi finalmente decidido que ______. Na verdade, o presidente d_ ________ por ocasião de _____ confirmou que no seu país _______ acontecer__. A população ficou ___ com a notícia que foi ___ em todos os _____. Esperam-se desenvolvimentos importantes para toda a humanidade em diversos sectores e com impacto positivo nos indicadores de ____.». Percebe-se, nas entrelinhas, o meu otimismo histórico. Embora o possa justificar, tenho consciência que o sucesso civilizacional decorreu com momentos de um intenso (e escusado) sofrimento e (atenção!) o sucesso civilizacional anterior pouco diz sobre o futuro, isto é, podemos estar descansados a tomar o pequeno almoço e já larvar o gérmen de um cataclismo ou um dos estadistas com o botão vermelho de acionar a guerra nuclear, subitamente resolver que sim. Talvez seja melhor desejar que nada de especial aconteça hoje e escrever uma crónica sobre o aniversário do leitor, ou sobre a psicologia dos crimes de guerra e a volatilidade dos respetivos valores, ou sobre a morte de um líder maçónico e o tráfico na sua rede de influências. Na verdade, não concebo um leitor ideal e tenho poucos leitores concretos com quem trocar opiniões, mas parece-me que todos os acontecimentos relevantes deste milénio aconteceram de um modo insidioso; foram subacontecimentos que encontraram uma circunstância e uma ocasião e fermentaram, tomaram os hábitos mentais da maioria dos humanos e continuam a estender-se a cada vez mais pessoas. Assim, se antes uma declaração de guerra, ou a descoberta da cura da malária, ou o envenenamento de um papa, ou a conversão dos mórmons foram relevantes e percebemos quando eles se tornaram eminentes, os subacontecimentos de hoje só passados alguns messes percebemos o seu impacto no mundo o que torna especialmente crítico escrever crónicas sobre o que acontece e mais vale escrever sobre o que deveria acontecer.