Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o computador é como um caniche

Esse (o impessoal que não vemos nas coisas que estimamos) deixa espaço à palavra na selva de uma labiríntica sombra. Existir é nada perguntar nem esperar da sombra da palavra que está além da sua sobrevivência. Desvaloriza-la, estabelece graus de vida, desde o lastro de uma vida estritamente mineral, também sua, e o seu eu, que, nesses graus de existência, evolui consoante as circunstâncias. O eu dispõe as partes do corpo segundo a disposição à imaterialidade – desde o aço dos ossos ao vento dos passos, desde o chumbo da memória ao suspiro quase resignado, desde o retículo asfixiado dos pulmões ao cântico gritado no jardim público – sem conjeturar o que é infinito ou eterno. O eu é essa hierarquia das partes segundo graus de vida. Que graus de rara humanidade existem na inteligência artificial? Haverá no lado humano de um cedro uma consciência do próprio canto quando venta e ele pertence à tempestade, filtra o ar que o atravessa e lhe arranca as folhas, e lhe leva as sementes? Se for inverno e a tempestade o derrubar, passará a «lenha» se houver um pastor por perto que a leve e a queime. A linguagem é contingente da sobrevivência, mas esse que fala não observou a tempestade porque se refugiou em casa com aquecimento central e todos os acontecimentos do mundo num ecrã a serem avaliados espetaculosamente e com profundidade geoestratégica. Esse que não usa lenha esqueceu o pastor que fotografou porque lhe pareceu «autêntico». Assim se define um utilizador intensivo do próprio eu que, contudo, come o queijo das ovelhas do pastor que passa frio porque o cedro não tombou e, sem lenha, só o mato que arde depressa na lareira. É destes paradoxos que se fazem as ideias fortes sobre o mundo, oximoros envergonhados do jornalismo conceptual que usamos no supermercado ou quando atuamos anonimamente em plena democracia. O espaço do eu esvazia-se deixando pegadas de moribundo no areal da razão, tudo em nome de um altruísmo suave e palavroso. Pensamos nisto tudo que acontece como «tendência» do acontecer, não como vontade, decisão, utopia do autêntico. Tudo fica legitimado pelo futuro que é consensualmente «melhor» e com menos oportunidades de erro. Vamos, entretanto, despender o melhor da nossa inteligência a operacionalizar «melhor» à esquerda e à direita com os respetivos erros crassos no horizonte, mas é assim a Europa. A inteligência artificial, contudo, tem caraterísticas afetivas que ultrapassam as limitações funcionais da vida, constitui-se como tendência a ser quase amável pelo que deveríamos rever o seu estatuto jurídico a partir de uma fenomenologia próxima da que usamos ao pensar nos animais de estimação. Tal como a máxima realidade é jornalística, o jornalista desaparece nesses que comem o queijo do pastor e o que sobeja é o texto num computador.