Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

ALGUMAS EXPLICAÇÕES  

O que é um bombista-suicida? Que variedade de heroísmo satânico é esse que aniquila humanos que estão próximos sem olhar para eles? Não podemos chamar ódio a esta destrutividade tão espetacular como se um fabricante de fogo-de-artifício se colocasse no papel do anjo do apocalipse e pretendesse instantaneamente chacinar todos os que representam o peso do mal. E não soubesse o que é o mal. Apenas que existe e que quase todos são cúmplices. Todas as lógicas coincidem nesta razão terrível, porque: 1) a morte como consagração legitima todas as formas de matar; 2) matar é um mera descarga ideológica; 3) a razão mística, se se dispõe ao absurdo, encontra pessoas ensurdecidas pela música adstringente da posse – considera-as pré-mortas; 4) pois quem possui está morto; 5) no sentido em que matar é desapossar; 6) desapossar de uma vida imerecida, desconsagrada, laica; 7) cada tiro interroga o papel de um deus; 8) parece querer despertá-lo como se tal deus não tivesse que descansar deixando o mundo no estado atual; 9) o bombista é o braço de uma ação de graças efémera, a graça que o identifica com a ação divina; 10) uma bomba-suicida numa estação de metropolitano ou à saída do templo é um cântico de louvor a Deus, instantaneamente, em todos os noticiários, uma oração espetacular 11) que recupera a tradição dos sacrifícios humanos; 12) o bombista-suicida não espera nenhum milagre, apenas que Deus não seja esquecido. 13) Argumento: o terrorismo é uma arma de guerra tal como a guerra é um terror; 14) de um lado uma guerra cara e burocratizada pela tradição e pela hipocrisia da honra, do outro, fanáticos cujo armamento único é a própria vida. A questão do sentido da vida para as pessoas coloca-se segundo graus de premência, desde um grau zero em que a vida se cola à execução da vida e o sentido não é pensado nem tido em conta, até um grau máximo em que o sentido da vida exige a não-execução da vida, uma total devoção à reflexão sobre a vida – que é incompatível com a continuação da vida. De uma forma ou de outra, o bombista-suicida toma consciência de como é miserável viver no seu grau zero e, abruptamente, passa o seu ódio («Eis o que fizeram de mim») para o estrangeiro, o infiel, o que não pertence. A bomba é um complemento da alma.

PROLEGÓMENOS SOBRE O BELICISMO E A GUERRA  

Em muitos casos, quando queremos falar do «humano», mencionamos Alexandre, o Grande e não o atual rei de Espanha, mais próximo de nós, ou mencionamos Sócrates e não Platão nem Aristóteles ainda que este tenha sido professor de Alexandre. Isto mostra como a simples menção contém não só o gérmen do erro, mas o aleatório da linguagem que repousa na ideia que cada falante tem da humanidade. Isto porque, como em qualquer facto histórico, a ideia de «Alexandre» é variável de pessoa para pessoa. Uns dirão o grande conquistador, construtor de cidades, outros lembrarão o homem culto que quis expandir a cultura helénica e destruiu a civilização persa ou qualquer outro detalhe biográfico de Alexandre que, sendo verdadeiro, poderá ser mais ou menos relevante. Ora o juízo de «relevante» é, também, variável. Podemos referi-lo ao que está descrito numa enciclopédia, mas o descrito numa enciclopédia difere do que está descrito noutra. Os filósofos contemporâneos, aqui, apelam, democraticamente, ao consensual confundindo o problema da verdade ontológica e o da verdade comunicacional, enquanto os outros filósofos do passado apelavam a Deus e resolviam o problema com maior força, embora, mais uma vez, o deixassem suspenso na própria contingência divina ou como se o problema não pudesse ter uma solução que permitisse aos ateus falar com os crentes, ou como se fossem modos diferentes de ser humano. E são-no superestruturalmente. Um mérito de Alexandre foi a difusão de uma cultura sofisticada nas zonas dominadas, ou seja, de um modo de pensar o humano e de viver essa humanidade, embora, como qualquer outro grande conquistador, ele possa ser visto como um vulgar ladrão numa escala tal que afeta os próprios fazedores de opiniões e de valores. Já não se trata de, meramente, vencer, saquear, escravizar, dominar, como muitos outros ladrões com os chefes de bando um pouco mais espertalhões que os outros bandidos. Quando os bandidos se dizem soldados, suspendem o respeito pela vida dos outros, metidos num grupo organizado para matar, desresponsabilizam-se dos morticínios, instalam-se num referencial de grupo que autoalimenta a sua disposição a invadir com uma violência ilimitada. Há nobreza nisto? Cito Santo Agostinho embora discorde da descontextualização etológica da agressão que, embora sendo apanágio de qualquer cultura eliminá-la, há situações em que a dissuasão pela força é o último argumento a que recorre quem julga ter razão. Criar uma solução transforma-se em aniquilar a oposição. Dizemos «É humano» ou, pelo contrário, dizemos «Trata-se de uma horrível selvajaria». É preciso retirar ao outro alguns atributos de «humano» para o atacar, é preciso retirar-lhe, pelo menos, a razão e a nobreza que são virtudes multifacetadas difíceis de argumentar. Por isso, as nossas razões são sempre mais nobres que as dos outros.

A RAZÃO DA GUERRA  

Quem decidiu a guerra que razões ignorou? Na espessura do passado, o hino frio sobre os voos que originaram a pátria?, o labirinto de liturgias que as razões já não servem perdidas numa rude teia de solidariedades?, o poema de um poema que deturpa? O lastro dos golpes oculta o princípio – o formigueiro de heróis desarrumados à espera de vez nas páginas da história. Que incertezas o furor da certeza alimenta? A indústria põe as armas, as armas impõem o ódio. Em cada um, a abissal memória de um soberano – e um desfecho – amnésico. Nas margens do pensamento esfumam-se os sistemas de reforço, preenchem-se de epopeias plagiadas – de hieroglíficos espelhos de uma alma total. Falávamos da razão da luta? Num inconsciente sem espelhos como surdem os impraticáveis consensos?

o avião abatido

«Fui eu que pressionei o botão vermelho. Pude fazê-lo. Todas as pessoas têm esta vertigem do inferno, de um nivelamento pela destruição. Haverá outra forma de revolução que não pelo aniquilamento? Uns passeiam de férias em ilhas luxuriantes enquanto eu estou numa guerra em que não sei o que defendo. Alinho-me contra os que passeiam. Perante a morte não há neutralidade, mas os que passeiam, ainda que não acreditem numa felicidade explícita e estabilizada, imaginam-na, pagaram-na e estão a tentá-la. Poderão ignorar-nos? Poderemos tolerar que nos ignorem enquanto morremos, ou rebentamos num míssil, ou de uma bala que eles venderam? Nada me resta nem tenho qualquer esperança. Como qualquer herói a minha vida não conta. É assim a guerra, pode-se matar, pôr de lado as interdições e as morais que nos impingiram, tudo o que outrora nos foi caro, por uma causa coletiva, um sonho coletivo, uma bandeira, um símbolo, uma pátria. Enquanto houver mísseis há guerra, há um ódio que não se interrompe, há uma inércia que não se detém. O que são tréguas ou o que é um avião lá no alto carregado de turistas senão virtuais atos de guerra – não há neutralidade: quem vai de férias despreza a guerra e os que morrem. Saem as brancas, ganham as brancas, os peões morreram cedo sem se terem apercebido do que disputavam. Os turistas do avião não pertenciam ao jogo, mas o jogo não deixa ninguém de fora. A guerra não implica consciência da guerra, assim como não implica nem bons nem maus motivos, a história refaz-se a contento de quem a escreve. A morte dos neutros em férias a caminho de um paraíso alugado não é diferente da morte dos soldados aqui em baixo. Ninguém sabe quem nos alveja nem conhece os seus motivos. Não percebo porque só abati um avião se a bateria dispõe de três mísseis.»

Alexandre o Grande

Seria bom que tivéssemos ultrapassado de vez a época dos impérios e das invasões sob qualquer formato. Sobretudo por uma questão biológica, seria bom que cada pequena população pudesse levar ao limite a sua culinária, a sua linguagem à lareira, a sua ideia de poesia, o corte de cabelo, até os ritos de sedução e de obscenidade. Não resistimos a fazer ferozes comparações e a retirar conclusões sobre o que é melhor para eles e para o mundo, a achar que algumas tribos não estão no bom caminho ou porque encalharam num local errado ou porque deparámos com elas numa má ocasião. Se as achamos atrasadas, invadimo-las, se estão adiantadas cobiçamo-las e invadimo-las. Sempre a superioridade militar comandou a dispersão no território. Perante a premência de sangue as fronteiras esfumam-se, as muralhas não resistem, nem as de Pequim com quatro metros nem a grande muralha com sete. Quando estudamos a cronologia de um império percebemos a própria dinâmica da guerra criar a necessidade de mais guerra da mesma forma que a convicção da própria superioridade legitima massacrar os vencidos, apagar a sua diferença. Nós, os turistas, usamos outros critérios de superioridade: identificamos ilhas de sobrevivência cultural descontaminada das linhas de produção e onde os caminhos entre os lugares não são linhas retas, antes seguem as hesitações dos rios e das montanhas. Essas zonas «preservadas», abandonadas pela nossa contemporaneidade, pertencem a outra época, repousam-nos a consciência ecológica. Somos micro-genghis-khan com a declaração universal dos direitos do homem no emblema. Também nos mataram o pai, roubaram o trono, levaram-nos a mulher e temos tantas outras razões de queixa a chamuscar. Já assimilámos todos os invasores, misturámo-nos. Seria melhor se viajássemos sem vender perfumes nem tirar fotografias ou comprar garrafas de água esterilizada. Viajar sem a logística destruidora de Alexandre o Grande, sem necessidade de construir Alexandrias ou hotéis de cinco estrelas para contar aos amigos como numa confraria de generais.