Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

A ATMOSFERA DAS CIDADES  

Podemos defender que, num sistema, as circunstâncias se repetem. Podemos pensar que, devido às inclinações dos seus elementos, se sujeitos às mesmas forças, estes se reconfiguram num formato já visto como se houvesse uma memória que ora sonha ora executa – como a memória de um demente que ora consegue regressar a casa com a sopa para o jantar ora se perde e vagueia pelas ruas até ser encontrado pela polícia e asilado onde acabará por morrer meses após. Portanto, também defendemos que as circunstâncias não se repetem, como foi o caso deste desgraçado a quem a misericórdia social cuidando matou. Mas não é pensando o destino que construímos a filosofia da ordem nem é pensando o caos que encontramos Deus gerindo-o segundo as suas inconfessáveis conveniências. Por isso, tanto podemos defender que o tempo envelhece os elementos tornando-os diferentes ou, até, coisas diferentes cada dia, como pensando cada dia e nos dias anteriores, pensamos nos dias que se seguirão, nos invernos que se seguirão, na época que se seguirá à atual época das transações virtuais e chegamos, talvez, a concluir ser inútil pensar que as circunstâncias se possam repetir pois a realidade confunde-se com o seu modelo e este é totalmente controlado por um sistema que se autonomizou da humanidade e dos seus tiranos. Assim, pode ser que a realidade exista (e se repita ou não se repita), mas o seu modelo é uma configuração muito mais sólida e indiscutível e independente das nossas mentes – uma atmosfera de ideias tão necessárias como o oxigénio e tão poluída como a atmosfera das cidades.

o protomarxista

Uma das primeiras pessoas a sentir a dimensão do mundo e, também o valor da reversibilidade moral foi o português Fernão Mendes Pinto. Antes dele, muitos outros partiram também com projetos específicos ou, mais frequentemente, inespecíficos que cabem na categoria de «procura de um mundo melhor» sem que, contudo, tenham procurado definir o que é «melhor» em particular se se refere ao mundo. Um dos mais desastrados foi Cristóvão Colombo que mesmo depois de várias viagens à América, continuou convencido de ter chegado à Índia e insistiu em chamar índios aos habitantes da América. Fernão Mendes Pinto ao chegar à Índia sabia o que iria encontrar pois muitos outros portugueses a haviam antes visitado. Alguns apaixonaram-se pela terra e pelo povo e não mais voltaram. Diogo de Couto chegou com um amor à verdade difícil de incluir numa versão da história de Portugal. Vista daqui, a história: 1) não é tanto o que acontece (o que acontece ou se agiganta, visto de demasiado perto, e logo passa, ou passa sem repararmos no tanto que causa e, assim, em ambos os casos o que acontece não é o que a história consegue descrever), 2) nem é a marcha da humanidade na realização de um programa genético (o que é uma teoria inverificável, recursiva, desengraçada por ser determinista, paúlica por não definir como a perfeição se alberga numa cadeia de ácidos – na verdade, se a teoria se relaciona com o amor, este terá uma forma obscura que nem os grandes amantes dominaram), 3) nem é o impacto das ideias na militarização e na reconstrução da terra queimada do pós-guerra. Nos Diálogos do Soldado Prático, Diogo de Couto faz bons diagnósticos das dificuldades administrativas dos portugueses, chegando a uma teoria da dissolução do estado como consequência da corrupção, enquanto outros cronistas se compraziam numa descrição indulgente das virtudes lusas em se desenvencilharem em situações de crise, mas incapazes de as prevenir estabilizando uma rotina tranquila, algo que se aproxime de um estado organizado. Fernão Mendes Pinto manteve, in loco, uma animada controversa com Diogo de Couto. Discordava, em absoluto, do seu amigo; acreditava, antes, no valor dialético da crise num sentido, dizia, protomarxista: é preciso criar pontos de fragilidade no sistema para que ele constantemente se aperfeiçoe, é preciso tomar a cidadania com um paradoxal amor à transgressão pois que as leis e até o poder são estados anquilosados do sistema que é preciso destruir. Por defender esta sistematização do temperamento lusitano foi expulso dos jesuítas ainda em plena China.

subsídio para uma história experimental

Podem-se estudar os grandes movimentos das massas humanas a partir do comportamento das formigas no seu meio natural, metodicamente manipulando algumas variáveis, presumivelmente também relevantes na história da civilização. E podemos fazê-lo sem ofender a dignidade de nenhuma das espécies em causa, trata-se de aproveitar um efeito de escala do olho humano sobre uma comunidade de formigas cuja organização impõe regras mais estritas que as humanas, ainda que possam visar objetivos semelhantes. Não vou começar pela noção de beleza e pela forma como ela influencia as escolhas numa hierarquia porque são complexas as determinações sexuais sobre o amor e a reprodução, no caso humano, enquanto as formigas parecem ter estabilizados os critérios de beleza. Atendamos, antes, à comunicação nas duas espécies em causa. Como exemplo da comunicação humana consideremos o jornalismo nos vários medias, a enunciação sucinta e performativa que alude a um evento: nada de literário, apenas o pingue-pongue de cada palavra sobre as emoções do leitor. Tal como as feromonas das formigas, essas palavras visam encaminhar o grande rebanho da humanidade para o interesse coletivo, sendo este sujeito a uma constante revisão. No caso dos formigueiros, parece estabilizado o «bem coletivo»: suficientemente desindividualizado, bem especificado o papel de cada indivíduo e o da comunidade (o que esta lhe proporciona e o que espera receber); sobretudo existe uma notável fixidez social que garante a estabilidade de todos os valores envolvidos. «Estabilidade» significa que a pertença não é questionada – mas será isto sustentável na civilização? A questão de investigação será definir o ponto quando um cidadão de uma comunidade deixa de o ser. Questionamos em nome de quê se organizam as comunidades humanas de forma tão diversa de um formigueiro? Porque invertem a pirâmide da ordem social conferindo ampla mobilidade ao indivíduo, respeitando a sua liberdade imprevisível, instabilizando o seu papel e desengrenando o tecido comunitário? Quando a sua liberdade se volta contra a comunidade, poderemos continuar a defender que cada indivíduo é um cidadão ainda que se tenha tornado um corpo estranho, um peso, um custo sem retorno? Não se trata dos incapazes, dos doentes e dos inválidos – nem da dissidência porque até os dissidentes amam a pátria (ou qualquer coisa de parecido, ou outra ideia de pátria, ou um deus, ou um passado, ou uma utopia da pátria), mas de um indivíduo que queira ativamente destruir a comunidade; di-lo-emos, ainda, um cidadão? O modelo seria uma formiga-soldado (portanto, não-reprodutora) subitamente tomada por uma paixão pela rainha, quisesse fecundá-la, entrasse nos aposentos reais, e, incapaz de copular (falta-lhe o órgão, copular não é a função da sua casta), mata-a. Incapaz de introduzir drásticas remodelações no sistema de castas optou por destruir toda a estrutura social do formigueiro. Se um indivíduo, intencionalmente ou não, se exclui, recusa integrar-se (trai, assassina, põe bombas, arrasa edifícios), deve-lhe ser retirada a cidadania da comunidade que ele recusa (ainda que continue cidadão de outro lugar ou de um outro mundo)? Se se recusa integrar, não pertence enquanto cidadão, só enquanto indivíduo. São equiparáveis os direitos do cidadão e do indivíduo? A casta das formigas religiosas são quem mantém a rigidez dos princípios dentro da comunidade; cortam os órgãos sexuais excessivamente grandes ou extirpam-nos das fêmeas, porque os machos são débeis e morrem logo após o voo nupcial. Na verdade, as comunidades não precisam de vidas longas para os seus cidadãos nem as conseguem sustentar. As grandes árvores são belas nos jardins e muito antigas, e, embora juntas, não formam uma comunidade; vivem muito porque cada uma apenas defende a sua longevidade individual. Assim, enquanto se autossustentar, viverá. Poderemos comparar as comunidades humanas, não com o socialismo do formigueiro, mas com o individualismo liberal de um jardim? Poderemos retirar algum valor moral prescritivo destas comparações?

o que se passa aqui é irrelevante, mesmo as nossas glórias e desgraças

O conceito de «Antropoceno» revela um humanismo de vistas curtas. O mundo existe no cosmos e o cosmos não é de ninguém. Bem entendido que a futurologia é feita pelos humanos e reflete os seus pontos de vista, mas é reconhecido que a vida maravilhosa das estrelas-anãs, biliões de anos a queimarem a sua própria luz até se avermelharem, expandirem e morrerem, deveria escapar das nossas metáforas. Até este demorado processo a que, sem esforço, chamaríamos «eternidade», difere da palidez e do encarquilhamento do livor mortis humano mesmo se ambos significam aniquilamento, mas o aniquilamento das estrelas-anãs não é «morte» na acepção humana. Por isso, deveríamos pensar no futuro que desejamos com complacência para com as nossas distorções semânticas e não sentados na nossa auto-suficiência, como no restaurante nos deliciamos com o menu, e, repimpados em tais certezas, não garantimos os melhores desenlaces para a nossa conturbada capacidade de gerar antecipações. Antropoceno, portanto, coloca-nos no cerne de um sistema visualmente muito evidente ao olhar humano que é, também, o meu – como uma psoríase ou como a sarna, mas, além da comichão que provocamos na crosta do mundo, parece insignificante a nossa existência para o grosso dos sistemas cósmicos. Na ausência de extraterrestres concretos, não imaginamos quem nos interpelasse como a ignorantes pretensiosos num diminuto sistema solar a um canto da galáxia sem sequer termos ainda colonizado nenhum outro astro. Vivemos aqui como no melhor dos mundos possíveis, com toda a astronomia a priori e leis da indeterminação que nos envolvem até quando falamos na posição dos eletrões. Tudo distorcido pela nossa presença, pela nossa linguagem, pela nossa sobranceria. Chamamos «Antropoceno» a esta tecnocrática ignorância composta de artefactos muito complexos, mas as nossas teorias são cada vez mais precárias. Um dia ignoraremos o que dizer do universo, tema de uma literatura de conjeturas e personagens fabulosas desaparecidas num futuro que tarda em chegar. Os nossos filhos aprenderão a história a partir dos nossos erros, das nossas lutas, das tecnologias que nos multiplicaram o cérebro e o fazem criar cenários que só funcionam com a incerteza. Eles já nem conseguirão enlouquecer.

heróis da língua e heróis nacionais

 

Que é a história senão a verdade do tempo, o juízo moral dos que mereceram o triunfo, a conjunção das glórias de uma identidade nacional? Nós, os fracos, precisamos de mitos fortes, precisamos dos nossos heróis do passado e de ver neles a sombra que nos move, de ver na sua alcova variada e intempestiva a indulgência criativa que não nos permitimos, nos seus feitos titânicos ler as manifestações de uma pátria que quer sangue e glória e que só através deles conseguimos amar. A pátria é apenas um solo, uma abstração, uma coincidência de interesses disputados numa paisagem de efeitos demográficos; porque deveríamos amá-la senão por uma autodefesa contra intenções de domínio que projetamos nos vizinhos?, serão semelhantes às que alimentávamos secretamente, nós, os antiparanóicos autorreferenciados de todos os delírios de ruína? Poderá cada cidadão reconstruir os tempos de uma autoidentidade sem aludir aos heróis façanhudos do passado e dizendo sua essa herança?, os panegíricos inflamam a sua alma cobarde; a minha contém uma narrativa empobrecida das fanfarronices de Pêro da Covilhã, de Luís Vaz de Camões, de Fernão Mendes Pinto, de Diogo de Couto e tantos outros desenrascados heróis da nacionalidade com o Afonso Henriques à cabeça bramando com a família. Com que ideia da história combatiam se o tempo tão pouco recuava logo se enublavam as versões? Preferiam-se os mitos que eram mais explícitas narrativas de como, do quase nada, por um encantamento sobre-humano, algo como uma nação surge, uma língua, um deus, uma tecnologia ígnea do controlo das formas, um relato de como os nomes dos signos se configuram nas constelações. Ainda hoje ignoramos porque se manipula a história, porque se organizam as descrições sempre com uma noção de bem e de mal tão mal argumentada e tão mal distribuída. Talvez por isso hoje tenhamos cada vez mais dúvidas sobre se teremos estado sempre do lado dos bons. Não compreendíamos bem as línguas estrangeiras. Os autóctones pareciam-nos tão próximos enquanto humanos que não compreendíamos porque tinham deuses diferentes e julgámos que eram os deuses que impunham uma narrativa das origens e uma cosmogonia acabada e etnocêntrica. Hoje achamos graça ao folclórico porque já não nos surpreende, mas menos aos radicalismos intolerantes que não inventam outra conciliação que no assassinato de todos os infiéis. O conceito de «povo de Deus» é, assim, antipático por ser demasiado exclusivo, deixar de fora a maior parte dos outros humanos o que não é próprio de um deus efetivamente perfeito que deveria ser abrangente e cosmopolita. Se os vencedores, porque triunfaram, detêm um tão descontrolado poder, para que precisam de nos manipular apresentando-nos como boas as suas vis razões? Hoje ainda escrevo em português porque ainda há portugueses nascidos em Portugal que percebem melhor as minhas razões do que as de Shakespeare ou as de Buda, as razões distorcidas onde afundamos a história da nossa comum identidade. Questioná-la é a única manifestação de coragem de que somos capazes, nós os fracos; temos menos a perder, o nosso pensamento precisa de claridade, tolera mal a trafulhice, lemos Os Lusíadas, divertidos, mas com alguma desconfiança.