Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o Disney de cada um (de nós)

Nunca me senti à procura do meu outro nem esta voz que sai de mim pretende a exatidão quando fala de si. Por vezes engana-se na idade, mas quanto ao mais sei bem quem sou, embora ignore o que me movimenta e no que me transformarei ou o que me desfará numa matriz de impossibilidades que ainda usará o meu nome, mas já não um corpo que outrora habitei. Habitamos no mesmo bairro toda a vida e não conhecemos os vizinhos, desprezamos a sua influência meteorológica e quanto um inesperado sorriso pode alterar uma vida. Podemos falar assim do corpo, como se fosse uma desapercebida paisagem de fundo onde cada tragicomédia individual é aplaudida ou vaiada, apenas dando atenção às patetices híper-expressivas aprendidas numa hollywood pacóvia como significando «felicidade»? Podemos aproximar a saciedade do corpo do bem-estar, mas este é mais lato e obscuro, tanto que em períodos de grande idiotia, consideramo-nos provisoriamente felizes. Todos os intelectuais troçam do conceito. Uns tentam moralizá-lo, dizem-no um merecimento que a nossa própria autossatisfação nos concede quando percebe o corpo a dançar a mesma música que cantámos no coro; defendem a justiça e a bondade universal, a lógica como o modo correto de construir uma verdade entre várias. Mas outros confrontam-nos com as diversas facetas do terror quando o próprio corpo se separa em intenções que se repelem; o pensamento constrói suposições já fora da realidade e nem sempre conseguimos manter a conversa sobre a justiça e a bondade porque estas adquirem valores idiossincráticos. Quase todos os charlatães recorrem ao conceito «felicidade» quando não têm mais argumentos. Chegamos a pensar que querem o nosso bem, mas quando pronunciam a palavra desmascaram-se. Já esperávamos uma habilidade no campo das significações, das que misturam o estado do corpo com as coisas que nos contaram em crianças. A «felicidade para sempre» já não é plausível, mas gostamos que ainda nos venham propor de que modo o sistema pode ser melhorado. Muitos estadistas falam de como as políticas poderão atuar nos nossos corpos: com a justiça fiscal, com a justiça equitativa, com a saúde digestiva, com a saúde neuronal, com a saúde prostática e vaginal e as respetivas interpenetrações. Prometem que as doenças serão melhor tratadas, mas a promessa eleitoral é a de uma felicidade sub-reptícia. Falam-nos de como confiávamos em criança, de como éramos amados pelo sistema que depositava em nós algumas esperanças, de como não fazíamos comparações nem era preciso, de como, mais ou menos, cada um teve o que precisou para fazer o seu caminho até a atualidade, de como nós próprios nos sentíamos em falta e nos surpreendia a bondade do sistema. Já que não nos entendíamos quando tentávamos que os nossos cérebros comunicassem e que chegassem a teorias estáveis, a programas políticos racionais e a uma ecologia amigável para todos, agora cabe a cada um procurar no outro de si o que de melhor pode oferecer ao sistema. Assim, que cada um se incremente como um jovem herói dividido nos seus otimismos ou como num leilão oferecemos o mínimo para obter o máximo. Eu que nunca procurei um outro, estou fora do corpo pós-moderno das identidades transitórias, estou fora de jogo numa equipa unipessoal, o meu voto não conta, cai fora dos assuntos que se discutem nos jornais. Não conto com mais vidas – apostei tudo nesta, portanto estou sem resposta quando me falam do outro. Tenho pensado no que lhe diria ao jantar, que consenso sobre a ementa seria possível se ele se manifestasse, curioso do seu eu original (que coincide com o autor); o que lhe poderei revelar que ele não saiba já de modo a que as nossas identidades, ainda que não se amem, convirjam num bom cidadão.