Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

é apenas o inconsciente

É preciso acreditar na liberdade para sentir quanto ela falha: quando uma força externa nos toma e nos deixa de fora: o ator principal senta-se na plateia: transitoriamente perdeu o controlo do que o próprio cérebro anda a fazer e, como um polícia em férias assiste a um filme pornográfico sem ter necessidade de formar uma opinião, o ator reexamina-se nos vários papéis que desempenhou. Obrigado a escapar da coerência do eu, larga o cérebro à pura exibição do que o constitui. Os gigantes dormentes entrechocam-se, os seus automatismos míticos, cruamente: «A psicose». Mas não é a psicose, é apenas o inconsciente. Como um palhaço no intervalo do circo recria a síntese carnavalesca dos escândalos em que se envolveu e a farsa do respetivo arrependimento, contar a história implica aplicar à experiência de vergonha e culpa um aparelho de distorções que, mantendo o valor catártico do desabafo, oculta os detalhes escabrosos de que nem sabemos falar. Esse submundo morto fala só – uma força externa toma a voz e fala-nos como se fôssemos, entre tantos submetidos, aquele que sabe a verdade. Mistificamo-la, claro, ao sabor da própria retórica da identidade: normalizamo-nos uns para os outros. Todos sabemos a inautenticidade do que dizemos: 1) que a normalidade é uma convicção, 2) que os solipsismos são psiquiatrizáveis, 3) que a sobrenormalidade pode ser inestética, 4) que a subnormalidade e a paranormalidade devem ser examinadas caso a caso, 5) que a misericórdia é melhor que o crime organizado, 6) que o crime organizado deve respeitar a política, 7) que os atores políticos sofrem catarses orgásticas (independentes dos aplausos eleitorais), 8) que os cidadãos são atores na plateia assistindo ao cérebro representando como se a normalidade fosse uma força externa pouco simpática, 9) que a sinceridade é a armadilha do mentiroso e, 10) que a liberdade não é a mera possibilidade de optar, mas uma convicção. Chegados a este ponto, é impossível demonstrar que a liberdade vale a pena, apenas que, fora do plano individual, a manipulamos com habilidade e nos sentimos confortáveis ao fazê-lo. «Liberdade» não significa «escolher» no sentido da consciência do próprio processo de escolha, tão só que o curtocircuitámos como vulgares libertinos. O inconsciente faz o que quer da nossa vida.

a sessão psicoterapêutica

Quando olhamos, distraídos, para os sintomas que acarinhamos secretamente, cada caricatura nossa esbraceja defendendo a sua porção de verdade. Contemplamo-la de relance e lá estamos com os nossos trinta mil anos de linguagem a morderem a carne. Porque a palavra ora se afeiçoa, ora nos entala numa sintaxe gigantesca, ora mente com raciocínios opostos à direção do tempo. Que fazer desses momentos de surpresa? Bastará, absortos, percorrer a estrada com o que acumulámos na cabeça fatiado em imagens tranquilizantes? Mas a bondade reverte-se no seu negativo: tropeçamos num final de filme aberto e tememos uma espécie de morte. Nas fraldas do inconsciente percebem-se os salteadores de uma fala perdida dirigirem-se-nos num quebra-cabeças vindo muito de trás. O especialista intervém: «Dá-me a mão, o que queres explicar? O papel do acaso nos acontecimentos do dia? O rumo da barca nupcial no fundo do lago onde os peixes vagueiam, como tu, colados às rotinas minimalistas dos carimbos, dos relatórios, das certidões? Decora o inventário das bênçãos, escolhe uma razão. No timbre indefinido da língua, és o princípio doutro sonho. A intolerância veio com alguém que chegou e pretendeu convencer-te. Um beijo apanhou-te e estás no arco triunfal da morte. Os mundos transfiguram-se por respirações próprias, mas, cada um deixa imperceptíveis as verdadeiras catástrofes. Escolhe a camisa, a dança, a casa, a ementa: a tua alma expressa-se: quem és está no rumorejar da imagem que te devolvo. Esquece o arquiteto dos caminhos paralelos. O relógio envolve-te numa eternidade caleidoscópica, o seu hálito são as viagens que te multiplicam num ser que ascende, cada instante, um palácio de pátrias turvas». Compara-me ao enviado que esqueceu a morada e tem o que é importante no bolso: «O que se ignora destrói: é humano», diz ainda. Quer curar-me de uma humanidade incessante e mal negociada desde o princípio: «Só sofrida a certeza é vencida, a abnegação da cruz encontra outras eventuais formas de alumiar». Diz a família, o bolo de aniversário, os insignificantes objetos que acumulamos serem órgãos como uma coleção de moedas. Propõe-me executar cálculos minuciosos como se uma metáfora garantisse alguma coisa melhor ou mudasse a cinematografia instantaneamente. Conforta-me a sua matemática do inconsciente que se estende do órgão e dos músculos que ignoram a razão do movimento, até à cidade e ao mundo infetados pelo excesso de razões. O ciclo de sintomas extinguiu-se, a paisagem alvoraçada acalmou-se. De língua de fora, mão estendida, parecia despedir-se: «O «eu» existe depois das pirotécnicas imagens de um momento de avidez; mera instância da fala, da continuidade das metamorfoses». Perguntou-me ainda: «Na placenta deseja-se?, e na cidade repleta de ecrãs? Não lhe prometo senão, num tempo linear, a beleza enigmática do mutismo. Ajudá-lo-ei a encobrir o sol para não ter de se confrontar com as impossibilidades». Nem de reenquadrar deuses exaustos, pensei.