Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

ASPIRINA  

Não me revejo na química do corpo, mas dói-me a cabeça. Intuitivamente relaciono a dor com o que ocupa a cabeça, aquilo que simplificadamente designamos por pensamento, trajetos de balões iluminados por dentro, num céu negro. A dor são os entrechoques quando a espiral do vento chupa as imagens e fá-las correr atrás do tempo. Onde antes me apareciam imagens de uma beleza alcançável, até sons de uma voz perdida cantando o que eu nunca saberei dizer, agora é um cenário de escuras labaredas refletidas no aço de um punhal. Outras imagens mais originais introduziriam conotações parasitas na significação punctiforme da dor e da geometria impossível que faz um ponto inchar até ser uma esfera maior que a cabeça onde bolas de chumbo ocupam o lugar da copa das árvores que a ventania arranca. Assim, mantenho a metáfora sem uma especial crença na inspiração nem na lógica de conjunto que transforma uma ramagem de pinheiro numa árvore de Natal. Dizem que o corpo tem vinte triliões de células todas com o mesmo genoma. A minha dor de cabeça é uma rebelião contra tamanha monotonia. É impossível que tal organização seja sempre silenciosa, apenas procedendo por rotinas como um exército que atravessa os Himalaias mantendo coesão e disciplina. Uma rede de mensageiros articula os passos dos soldados que replicam uma lógica de grupo. Esta isenta-os da benevolência de antigos aldeões; dispõe à expressão dilacerada da morte que, numa estrada de arrancamentos, pontua uma saúde invertida. A vida como uma anti-aspirina numa equação que otimiza a dor, que espicaça as violações, que cede à sodomia lancinante dos mitos, à pilhagem cega – e que, por humilhação, acaba vencida. 

O SONETO TEM UMA CONCLUSIVIDADE MORTÍFERA  

A propósito dos Sonetos de Florbela Espanca visitei as impossibilidades do amor, as que se afiguram definitivas. Ela falava de «fulgor e lastro», dizia «nem filhos nem rasto» como se se bastasse do alucinante exalar de um banquete adiado. No corpo dos seus poemas vibra ainda a falhada festividade do mundo quando refere a nudez viva que as coisas prenunciadas exaltam. Como quando se espera um denso indício entre as nossas sombras. Nelas o pôr-do-sol refulge e é a invenção que nasce – os aritméticos caprichos das sombras: em cada uma abre-se o turvo submundo do nome com os seus zeros absolutos e astros indomáveis. Dito de outro modo, a porosidade que imiscui a morte numa estrela reverbera no infinito. A sua visceral escuridão desabitada é, no relento da noite, o dentro de uma saudade que cresce. As portas abriam-se de par em par, o homem aparecia-lhe com um acre inebriante, banhava-se na espessa seda de uma saciedade oceânica; depois, confundido, partia. Leve cegueira a de um poema, sempre o próximo. Conclusão: não se pode procurar a mãe na natureza, nem no restaurante que frequentamos por ser na esquina, mas antes numa memória de veludos e passagens do leite por navios em construção. Ou numa anti-mãe totalmente genital, a sua dupla face rindo e gesticulando como um boxeur em fuga para o Egito. Há momentos em que vê-la seria recusar o banquete, o tato dos pêssegos rumorejando, morangos púbicos rastejando como girassóis caramelizados, peras bêbadas, seios túrgidos sangrando ópio – apenas a aura; sim: Florbela sugestionava-se e reconstituía-se seduzida. Sem mãe nem pai e distante do que a constrangesse. Eram formas de amar reféns das rosas orvalhadas – sorrisos incontidos até algo morrer. Sempre num versificante desacerto com a paisagem transformá-la em jardim de lamentações, as próprias sombras o contaminaram. Um soneto seu é um aquário noctívago com os seus dançarinos decrépitos, mas divertidos mordendo os sítios do pudor, fundindo-se nela, falhando e desaparecendo. Este contentamento panteísta com a palavra atordoava-a, dessas exultações tirava apressadas conclusões que nunca se sustiveram. Matou-se.

A ENTREVISTA DO POETA  

Hoje, poucos se comovem com a pieguice do poeta. O seu vazio (o vácuo das lágrimas) ainda resplandece ao amanhecer (ficção de uma glória inócua) para os que o acompanharam, bêbedos (o que não fizeram acontecer) e procurando o melhor caminho com o seu excesso de imagens pouco surpreendentes. Em qualquer caso, poucos o seguem (ao que serve a poesia?). Poucos cabem no seu «nós» que é uma primeira pessoa majestática, mas ninguém acredita na sua solidão, nem na sua hombridade, nem na amizade pelo parceiro com quem se embebedou. Defende-se na entrevista para o jornal de literatura dizendo que a mãe é uma figura mítica com um polo irreconhecível (uma Vénus reformada ou que é preciso idealizar) e outro em que as palavras trocam as cores e os momentos do brilho (o significado como ápice), que sempre esperou ir mais além o que fez dele um apressado jogador, amedrontado em cada lance que é como fala do amor. Ele gostaria que o acreditassem, gostaria de mansamente persuadir, gostaria que o tomassem não por um sonhador, mas por um visionário e que a sua voz saísse profunda como a de um oráculo. Hoje, ninguém reconhece a voz do oráculo. Soa estranha, bafienta; os augúrios são má literatura, os conselhos, uma catarse, todo o seu livro é uma catarse orientada por uma psicologia brejeira: que a água está inquinada e sabe mal, que come como um neandertal, que o tempo perdeu a cadência, que as tempestades o assustam, que o mar é feio, que as flores são efémeras como as nuvens, que as nuvens são seres enigmáticos como um poeta carregado de pedras (a fala e a escrita, diferentes distorções ou, como a noite falha, a pedra fratura). Antes o poeta deveria evitar a palavra «absurdo» para que as suas imagens do absurdo funcionassem, para que tivéssemos uma simpatia mínima pela sua dor, a indispensável para continuar a ler as minuciosas descrições do que transborda do poço para onde escorre não apenas o seu lixo, mas o da sua amante família, o dos seus furibundos mestres, o arfar das amantes cantarolando o hino do aborrecimento. Que não é só a linguagem, mas um impensado, por vezes assustador – que é cansativo transportar para a poesia. Acreditamos na sua sinceridade, mas não é o que queremos dele, nem o seu deserto, nem a energia morta do deserto, nem a energia do seu corpo que é mera metáfora. Também não o quereríamos hercúleo, palavras posando num concurso, apenas a alegria das coisas na sua justa medida.

O NARCISISMO ESCANCARADO DE UM POETA HISTRIÓNICO  

Muitos livros de poesia não tiram todas as consequências de uma metáfora. Elas surgem por uma necessidade do texto, diz o poeta, mas sabemos que, sobretudo, ele quer encantar (quer-se encantar, escarafuncha a página como um melro à procura da minhoca, mas a minhoca escapa-se enquanto na metáfora surdem cavaleiros à procura da glória e do amor). As necessidades do texto são como as outras coisas a que a humanidade dá importância no seu quotidiano em família. Quando duas coisas se aproximam e eram, antes, estranhas uma à outra, uma, bela e opaca (os poetas gostam de enigmas), a outra, bela e transparente (eles enterram os rios em paisagens idílicas e espreitam os desenhos que a água escava), os leitores têm que as misturar como se inventassem uma doçaria. Mas nem todos os livros de poesia praticam esta navegação pela ternura. Muitos, da sua correta monotonia, levantam-se numa convulsão e cospem astros tirados do nada e dirigidos ao nada (tudo vem do nada e tudo morre e é nada, diz o poema sem grande originalidade). Pretendem desnecessárias as metáforas dando às palavras um desempenho implausível, mas o que diríamos de um poema que nos caísse em cima como a Teogonia a Hesíodo? Não estamos preparados para o caos primitivo nem saberíamos organizá-lo. Nem nunca deixaríamos que um defensor de uma nova ordem como Zeus, destronasse a ordem do tempo, nem que constituísse uma sociedade de advogados para gerir o paraíso, mas foram estas inflexões na previsibilidade dos comportamentos que tornaram necessárias as metáforas, não pelo seu colorido tropical nem pelas sonoridades de auditório clandestino, mas para lembrar o nosso papel na reconstrução do poema. Podemos achar que a metáfora redundou pindérica, mas também podemos achar que viola os mecanismos do pensamento e dizemos louco o poeta – simplesmente.

deslirificar o poeta lírico

Se reduzimos o lirismo à sua expressão mais simples, toda a canga privada que torna cada pessoa especial e a faz começar as frases com um insuportável «eu» muito redundante, se esvanece. Um após outro os traumas desinsuflam o eu. Se conseguirmos levar o processo até ao fim encontraremos, a bonomia de um humanidade contente com a vida, embora consciente do muito que tem pela frente. É como se ser poeta lírico resultasse de ser traumatizável e fosse uma adaptação às dores pregressas no sentido de guardar memórias sofridas com vista a reconhecer e evitar ulteriores dissabores, mas nada está garantido quanto à origem, à frequência, à justiça ou à razoabilidade de futuros dissabores. Assim, podemos conjecturar que um poeta lírico é alguém que: 1) malgrado ter estudado a estatística das ocorrências desgraçadas não compreendeu os mecanismos que as produziram, 2) ou compreendeu esses mecanismos e antevê que se repetirão porque sente uma espécie de cósmica culpabilidade, 3) ou que é alvejado por uma cósmica fúria que o atinge por ser essa a sorte dos poetas líricos, 4) ou que julga a poesia um esconderijo muralhado onde se pode escrever em vez de viver, 5) e que os versos são mensagens encriptadas que é preciso recombinar em formatos criativos, 6) por isso, se surpreende quando, o poema falha, embora a catástrofe não ocorra, 7) e com outras incongruências com os seus estudos de probabilidades. Um poeta lírico não olha o mar, prefere analisar exaustivamente o que se passa numa pequena poça na maré-vazia, os limos coloridos semi-clorofílicos, semi-lingerie semi-aquática que nem os caranguejos apreciam como só um poeta lírico é capaz de fazer. Passadas umas horas, a maré enche, restabelece-se a continuidade com o restante mar e deixa de se aplicar a noção de «poça. A complexa organização do território da poça que ele investigou desaparece, mas o poema que o poeta lírico escreveu restará como marca da poça na intimidade do seu eu. Isto é interessante? Sim, é um aspeto de uma realidade precária, provavelmente semelhante à das outras poças do fundo do mar tal como se removermos os traumas do eu dos poetas líricos encontraremos uma humanidade que se abraça fraternalmente, otimistas quanto ao seu futuro.