Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

OS MISERÁVEIS  

Os que estudam o homem nunca se chegam à varanda sobre os miseráveis que passam nas suas entorpecidos rotinas, contudo, são eles que contêm os dotes indivisíveis do intemporal da história. São os agentes que nada marcaram, nada produziram, comeram e respiraram como os outros e a nada se sentiram obrigados, nada devolveram, nada geraram; testemunhas do que não aconteceu, do que não foi desejado, do que ninguém narrou. A sua vida está no subsolo da cinematografia quase panorâmica e fácil de falsear que aparece nos livros. A personagem principal é prometida a cada um e a todos. Por isso desculpamos a vileza infame dos nossos baixos sentimentos. Fanfarreamos sentindo-nos heróis à altura da nossa sede de admiração. No momento da aclamação, escorregamos no palco, estatelamo-nos em plena glória, ninguém se surpreende: «A glória raramente se sustém», dizem-nos entre outras explicações políticas moralizantes: «Os heróis revezam-se». O nariz cresce com cada mentira sobre as nossas consciências. Tememos o Tanátos íntimo que nos sussurra, que nos destrói o esforço, que nos mina a comunicação (quanto mais amamos mais destruímos): «Usa esta máscara funerária construída para a tua imortalidade». Mas a imortalidade, visivelmente, fracassou. O caminho espiralava para um progresso que nos deixou de fora, cada um vive num círculo de indiferença e quase felicidade. Não é o que a rotina do entorpecimento faz dos miseráveis; absorve-os numa morte que não mata, mas que, peganhenta, lhes dirige os passos num carreiro de formigas envenenado, que apenas lhes proporciona a ração indispensável à miséria – roubada, traficada, sacada de uma misericórdia pretensiosa que os mantém miseráveis. Nunca se escreverá a história dos que não moveram a história como se as margens não pertencessem ao rio – como se esses rascas figurantes se confundissem nas pedras do caminho, apenas espezinhados pelos olímpicos candidatos à imortalidade.

POLÍTICAS DE NORMALIZAÇÃO 2  

A normalidade é um ideal democrático. E deve ser um ideal democrático essencial à democracia. As crianças deverão ser educadas para se constituírem como réplicas umas das outras, imitarem a genialidade recíproca e imporem-na aos seus assustados pais. Estes deverão segui-las por um amor que é um temor plurifacetado: 1) que o estado as sonegue e os deixe sem subsídios, 2) temor da respetiva deturpação genética: eles conhecem a própria monstruosidade, 3) por uma espécie de «Ide e multiplicai-vos» para paraplégicos onanistas, 4) a própria decifração dos noticiários, a opinião pública, o ondular da cultura perdem as vogais se as crianças forem substituídas por robôs divertidos, 5) pais e filhos amam-se e temem-se tal como os estados fazem alianças e traem-se, tal como os estadistas democráticos fazem promessas e quebram-nas. As crianças normalizadas dão significado a tudo isto pois a democracia implica uma abnegação necessariamente desigual que os pais aceitam melhor do que os cidadãos libertários, que os libertinos e que os celibatários. A normalidade, assim definida como o teatro das parecenças, é um ideal a atingir em família: há uma criação de variedade genética que ou aborta ou pare génios e alguns triunfam, há uma imaginação de devaneios a reprimir, um desejar ainda demasiado incorreto, há, remonta às hordas, uma tumultuosidade que faz as famílias hiper-protegerem-se, a loucura sobrevir de uma auto-centração infantil como um canguru numa matilha de hienas. Neste caso, como normalizar o canguru no referencial das hienas? A maioria está com as hienas e o canguru tem a estupidez natural dos seguidistas incapaz de pensar uma solução revolucionária que levaria a mudar um pouco o sistema democrático.

CLUBE MEDITERRÂNEO

Há um momento na vida em que só resta partir para um clube de férias, desgostoso com a poesia ou para evitar novos imprevistos. Aí troçam da vestimenta, olham-nos como estranhos, jantamos sós, não temos parceiro para o ténis e são eles que têm razão, ou melhor, a razão é um braço de ferro. Percebem-se razões muito fundas desde a forma de ostentar as iniciais ao abordar uma mulher no bar da praia, ao uso de desodorizantes e odorizantes cutâneos e à culinária em geral. Até mesmo em situações difíceis o estilo conta, por exemplo, no gesto de abrir a carteira sem refilar, embora sabendo-nos enganados. Porque a poesia é não gaguejar quando as pontes ruem e se percebe não se poder contrariar a celestial naturalidade da linguagem. Então, é apoderarmo-nos do eco num recanto aluado do medo, ouvir o verso e o reverso. Mais vale esquecer as derrotas, concentrarmo-nos nos objetos pessoais, cuidá-los pelo que nos evocam e não lhes exigir senão um local contentamento. Perto do final, alimentar um desejo íntimo de que as coisas falhem. Percebe-se a sua definitiva insatisfação, mesmo que a mulher nos corresponda, que evitemos os sabores vulgares da culinária hoteleira e tenhamos parceiro para o ténis. Percebe-se a poesia ser um corpo na mente onde algumas coisas se inserem e donde outras são expelidas.

AS CONDIÇÕES POLÍTICAS DEVERÃO SER INTRANSIGENTES  

Proponho gritarmos bem alto (mostrando-nos, também, persuasivos): «Viva a indústria dos enigmas e os seus dispositivos de indisciplina!», «Viva o ócio celestial reciclado em sonhos pragmáticos!», «Viva a investigação do inútil e de todas as suas classes operacionais!», «Viva a teoria do nada e da ocupação do deserto olímpico!», «Viva a queda dos paradigmas num abismo criativo sem fim!». Pode nada acontecer ou limitarem-se a chamarem-nos loucos ou reacionários, ou falarem-nos ao microfone de justiça e de felicidade como se fôssemos deuses salpicando palavras expansivas. Podem tratar-nos como simples esquiadores de pernas partidas, impreparados para a vida política, mas podem mandar-nos para o degredo por sublevação da ordem zoológica como se os deuses fossem susceptíveis às nossas palavras de ordem. Precisamos de esconder o terror mais fundo do que a morte o permite. É verdade que a política aterroriza: nos seus pântanos lúgubres quantos cadáveres tumultuam? Nos seus acirrados circuitos, quantos conluios traiçoeiros? Nos seus programas, quantas hienas se masturbam orando aos deuses da castidade? A inteligência não escapa à vanidade do pai sem rosto que nos infeta a mente e eles lá estão, enfatuados com a sua pesporrência de capoeira. Como pulgas num alfabeto desconjunto, falamos com elegância da nossa vontade de vómito. Enterrada numa sopa de cores, a voz enobrece. Unhas na garganta cravadas, a causa do mundo perde-se. Esperávamos uma ornitologia ordenada como as notas saíam de Mozart e deparamos com sarcasmos literários e surtos de sucessos lambidos. O terror de amanhã está garantido – estamos adaptados. Cerrámos o saco de memórias – que adejam pela doçura retesada dos vales férteis. Concentramo-nos numa forma autêntica e voamos – júbilo aerodinâmico das primaveras numa literatura longamente preparada, mas ignoramos o que a salva. Por isso, gritamos: «Viva a indústria dos enigmas e os seus dispositivos de indisciplina!» Dizemos-lhes que observem o encontro rápido dos amantes, o seu celestial ócio reciclado em sonhos pouco pragmáticos. Façamos que, no lugar do continente afundado, a ilha germine de um abismo criativo sem fim. Só então nos calaremos.