Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

OS DIAS MUNDIAIS DE QUALQUER COISA  

Escolher apenas um dia de novembro para lembrar os mortos é outro paroxismo da organização e das assimetrias sociais: os restantes são dias dos vivos que é uma situação muito heterogénea. Esta clivagem vivos/mortos não é tão nítida fora das categorias linguísticas. Na verdade, há mortos cujo pensamento persiste no sentido em que pensamos com o seu pensamento, ele faz-nos fazer coisas e não fazer outras, e defendemo-lo como defendemos o ar que respiramos ou a pátria. Tudo o que o seu cérebro de melhor produziu continua vivo, audível, legível, observável. Muitas presenças da nossa contemporaneidade são, também, mediadas e não duvidamos que vivam – dizemos que as conhecemos porque o exercício das suas funções implica vida (o presidente de qualquer coisa ou de um país, o guarda-redes ou o guarda-prisional, o próprio preso) e esquecemo-los depressa logo que deixem essas funções ainda que não morram. A maior parte dos mortos não é importante que nos visitem no dia dos mortos (ou nos outros dias também, nos casos de assombramento); enquanto certas obras respiram connosco e, ao lê-las, materializam-se, i.e., existem, como outras ideias nossas procuram realização. Ao pensá-las incorporamo-las ou espiritualizamo-las ou, de alguma forma, emprestamos vida a essas obras (estejam, indistintamente, vivos ou não os seus autores), sejam literatura, ou uma grandiosa concepção das coisas, ou uma memória que oralmente nos chegou, ou uma simples frase sem a qual não viveríamos da mesma maneira, ou toda uma vida como no caso de Buda, de Sócrates ou de Cristo que só anos após a sua morte tiveram escritos os seus pensamentos e os seus ensinamentos e narradas as suas vidas. O que é relevante é que, embora se tenha verificado a sua morte cerebral, ainda hoje estas personagens nos sentam ao colo, dialogam connosco e nos ensinam o fundamento de uma visão do mundo e do humano, como se nos convidassem para um passeio pelos alicerces da humanidade e dos seus habitantes. Explicam-nos a torpeza, mas também, como esta pode ser equilibrada com outras forças, a que não vale a pena chamar «bondade», tão só reconhecer que salvaguardam o gregarismo. Outras obras morreram com a morte dos seus autores (ou até antes), fenómenos do entretenimento e da moda. Portanto, é bom que todos os que morreram continuem quietos no seu repouso, pois as obras verdadeiramente grandes vivem, ainda que não as recordemos todas num dia de novembro.

REFERENCIAL  

Por vezes sentimos que determinada presença representa a incongruência essencial que é a nossa própria presença num lugar: a incongruência da paisagem connosco e a incongruência com ela mesma nesta recomposição abstrata e inútil que é quase toda a literatura. Numa cerâmica chinesa ou grega ou numa tela barroca surge, por vezes, uma figura implausível demonstrando-nos como a improbabilidade organiza a natureza; como a nudez se ritualiza, até quando os cedros se despem ao vento e os carvalhos sibilam enquanto, rápidas, as nuvens saltam de um tempo a outro e é luz o seu ânimo. Dorso de fugida, táctil promontório de um vulcão extinto, memória de fogo domado, de oceano vencido: ferro e seda, o vestido solto no decorrer do salto sobre bandeiras queimadas. Essa presença. Porque a nudez é um estado de confronto, uma pertença esforçada à paisagem, uma entrega ao largo voo sobre uma matriz de destinos traçados no verde calcinado do poente – turvo e rápido caleidoscópio sem simetrias nem andanças da luz curva saltando de estrela em estrela. Pelo odor a memória faz-se aura. Antes a casa total: a edificação da presença sobre a sombra morta; a energia deixada cresce ainda. O que é possível não é imaginável, e vice versa. A memória é a ânfora de titânio que vadia pelo espaço entre as estrelas cujos biliões de anos passados nos iluminam. Sempre uma presença racionada e letárgica relampeja nas mãos que a imaginam. Essa que oclui as soluções nos tubos mágicos da verdade. Da consciência grave os leves átomos do acontecer escapam-se. Nenhuma viagem faz acontecer se desde o início não nos dispusermos à lassitude numa fecunda e porosa desideação. Assim, essa presença e a minha são igualmente improváveis. Igualmente improváveis como figuras humanas naturais e mecânicas se anunciarem numa noite de luar: «Eu resolvo», insistem umas e outras enquanto os ratos simbolizam o nojo. Falávamos de critérios estéticos – a incongruência.