Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

O AR DE FAMÍLIA  

É preciso observar cuidadosamente os próprios sonhos. Eles mostram-nos uma engrenagem que liga o passado mais primitivo (até o anterior ao ser e ao pensamento), ao futuro mais distante (até àquele que já não nos está reservado). Os sonhos irradiam de um livro comum, tal como os outros órgãos do corpo, por isso, eles continuam-se de noite para noite, eles completam-se como um teatro que não sai de cena, as personagens juntam-se como se todas se conhecessem e tivessem razões umas contra ou a favor das outras. Observando cuidadosamente os nossos sonhos conhecemos o que silenciámos aos nossos filhos ou o que nunca escreveríamos num poema nem é aludido nas nossas ladainhas aos deuses dos tempos. Como se os nossos cérebros integrassem zonas específicas de silêncio das quais irradia, como poderosas nuvens de fumo, aquilo com que entretemos as conversações. O argumento parece uma simples analogia espalhafatosa, mas apela à unidade comum do humano (o que é um bom princípio de correção política), não tanto a partilha de mitos constitutivos do pensamento (logo, constrangedores, limitativos), mas da existência de aterradoras zonas de vazio, sempre as mesmas em todos os tempos em todos os lugares e circunstâncias, sempre o mesmo calafrio perante uma imagem que imaginamos esfacelada, decomposta, esvaída, mas que nunca ninguém viu – molde de uma verdade negativa. Nem sequer se pode dizer que seja invisível e exista, apenas que nos faz sonhar os mesmos sonhos, temer os mesmos desenlaces, sobretudo, que nos faz falar de coisas que conhecemos e partilhamos como se tivéssemos tido uma infância comum, nascidos de uma mãe universal e intemporal que dá o mesmo a todos os filhos, também os mesmos terrores e o mesmo modo de pensar o que não conseguimos pensar. Por vezes aborrece-nos essa matriz em que reconhecemos em tudo o que vemos de novo e nos devia surpreender e alegrar, um ar de família como de um sonho já sonhado ou como, numa interpretação vanguardista da maternidade, encontramos ainda a Vénus de Willendorf.

D. Sebastião (evocação tentanto evitar o disparate)

«Mar» é uma expressão demasiado genérica, mas se digo o meu mar, aludo a uma intimidade que o mar não concede. Aparece então alguém lembrando as perguntas erradas da poesia, muito ruidosas, que, entrechocando-se, omitem os impactos das ondas que transmitem impactos de forças a que já não sabemos dar nome. Seguem-se, depois, os temas errados da poesia, crisântemos, confusões concetuais e dores de peito, por exemplo. Respondo com tremoços e tímidos caranguejos e as coisas não se desenvolvem mais. Como dizer «mar», apenas água, e não a vontade de contemplar a força da pura individualidade, efémera e pujante, de uma vaga. Não há uma poesia da química do canábis na mente de um marroquino nem uma acústica da amnésia da trovoada nos montes do meu passado. O meu passado é o fundo do mar onde as preces muçulmanas ecoam, os cães ladram, assustados, o galo canta, pontual, a chuva lava as vozes mais renitentes. O maravilhamento do poeta não pertence à poesia, é irrelevante a espuma das vagas, a bruma matinal, as declarações intempestivas de um acordar maldisposto. Entre o amanhecer suave em Arzila e o embate do ruído ancestral do crepúsculo no écran dos símbolos, D. Sebastião desembarca arrastando séculos de uma nação para o puro território do sono e do desejo (a morte e o devaneio). Diante do mar, a pávida evocação de um povo desadministrado – a política do heroísmo para desesperados é uma estética de governação, do abuso total e da violentação da esperança. Sim, os piratas turcos ameaçavam o comércio colonial. Era preciso manter o mito. Criou-se outro, um jovem rei combatendo até à morte arrastando toda a nação. Hoje, esta imagem de uma catástrofe militar alicerça os cérebros como os fósseis nas falésias, mas há coisas que não voltarão a acontecer: no pátio ao luar, o amor apoplético com uma moura muito bela, nem o jogo da história com a pátria. Ouvimo-la maternalmente soluçando e tudo adquire a impressão do engano, a realidade é a fruste sobra de uma convicção primordial. Olho o mar como muitas outras pessoas, mas não como um autêntico poeta porque o interiorizo, como a uma mulher amada, e me fecho em construções amuralhadas como Azzemour, ou Marmegão, ou esta escrita, ou ouvindo apenas as evocações reverberando na planície, nunca alcançando um rei louco nem tanto que ficou pelo caminho. Sem esperança. A contemplação do «mar» aliena a esperança. É o território da pura realidade ou da pura irrealidade no inconsciente fóssil de uma palavra.