Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

MELHORES ARES  

Sobre a morte não há muito mais a dizer. Ou nos rejuvenescemos seja por que processo for, ou tentamos que ela nos apanhe num momento favorável. Não se trata de posar para esse momento, mas de não perder uma respeitabilidade e uma integridade que procurámos manter toda a vida. Se for a tempo, a medicina lentifica o aniquilamento: envolve-nos num processo em que vamos largando funções vitais e acumulando dependências abjetas: começamos por perder cabelo, por nos esquecer dos afazeres e não há agendas que nos cheguem; depois, vai-se o controlo dos esfíncteres e voltamos às fraldas, agora de uma forma aviltante, achamos que mais vale demenciarmo-nos para não perceber bem o que se está a passar. De qualquer forma, já nos desequilibrávamos um pouco, tinham que nossa amparar como a bebés. Mais adiante, não respiramos sem ventilação assistida com as botijas de encher balões na feira para os miúdos; o coração, arritmado, subordina-se aos pulso elétricos externos como um vulgar autómato; nem os rins filtram as pestilências do sangue, nem o fígado nos purifica; precisamos de muletas e cadeiras de rodas, de algálias e de uma cama articulada donde podemos já não mais sair com vida. Por vezes, ainda utilizando todos estes recursos, mantemo-nos vivos no sentido de preservarmos uma trôpega dignidade que é, sem dúvida, uma admirável dignidade. Por vezes, uma única dignidade: se ainda falarmos, a voz parece vinda de um oráculo que contém um grande tempo onde as coisas concretas não cabem porque foram esquecidas e o que a voz diz alude ao verdadeiro esqueleto da linguagem onde os conceitos constantemente se purificam. Não numa gruta de sombras, mas numa gruta de deslumbramentos, de evidências ocas, simples, incoercíveis, por isso a morte se aproxima e não há muito mais a dizer. Não foi possível, ainda desta vez, rejuvenescermos, mas resistimos melhor à degradação da idade mais lentamente graças às nossas redes de comboios subterrâneos, aos frigoríficos ultra-fornecidos, aos ginásios que nos robusteceram a alma. Presos à cama, alimentados por sonda, a alma dispõe-se a deixar-nos em busca de melhores ares. Neste momento, gostaríamos de acreditar que existissem.

inventário das formas de morte

Embora haja milhões de modos de morrer – as pessoas morrem de pneumonia no inverno, ou de acidentes de viação, algumas têm um cancro fatal – poucas se desintegram com uma bomba aparatosa ainda que apaixonadas por alguém ou por uma ideia, poucas sangram até secarem como se assim voltassem a uma natureza pétrea adequada aos caminhos de montanha, poucas rebentam de tanto comer como se dominadas por um prazer vinculado a uma mãe inesgotável, poucas se atiram dos seus altos andares cantando o hino da alegria. Na verdade, embora variem as circunstâncias, os modos de nascer são ainda mais limitados. É o que medeia entre um e outro acontecimento que nos diferencia; já acreditámos em várias teorias da vida: 1) que a vida é atraída pela complexidade e que esta se confunde com a perfeição (como certas poesias que se depuram); 2) que a vida é atraída pela complexidade a qual contém o gérmen do aniquilamento (como certa escrita cada vez mais privada); 3) que a vida se executa por um procedimento robótico (como a respetiva poesia cibernética); 4) que a vida evolui (sem que tenhamos de fazer por ela); 5) que a vida guarda o que aprendemos (numa espécie de hereditariedade otimista); 6) que a vida humana não escapa a uma tendência física à degenerescência (alguns poetas deixam de escrever); 7) que a vida humana nos seleciona por uma animalidade pouco sofisticada (sexual e culinária); 8) que o único mérito da vida é a possibilidade da virtude (ou de um bom poema); 9) que a vida humana é marcada pela inevitabilidade da morte (e a melhor arte é um requiem ao modo de Scelsi). Tentamos levar a vida conciliando estas teorias sem sabermos avaliar o seu valor. Como vulgares batoteiros escolhemos as que mais nos favorecem em cada circunstância e mudamo-las com desenvoltura. Muitos mais poetas suicidar-se-ão ainda porque a poesia é mais complexa que a vida (ou vice-versa), ou por desajustes no interior da linguagem (ou no interior da poesia, mal servida pela linguagem e desadequada à complexidade da vida), ou por uma indefinível insaciedade que os traz à poesia sem saberem o que fazer da vida. Provavelmente são diversas as formas da complexidade na vida e na poesia. Talvez que ambas se toquem nos bons poemas. Talvez que entre as milhões de formas dos maus poemas falharem a mais importante seja não se tocarem.

no hospital

O que é assim não poderá ser de outro modo é uma regra adequada à verdade, mas torna a vida aborrecida. A poesia tenta conciliar a possibilidade de as coisas se alterarem mantendo uma relação de harmonia, apenas se tendo que alterar a sua leitura. Um idoso sente-se confortável nas suas rotinas, quer as coisas do mesmo modo, aborrece-o pensar o futuro senão como um carnaval sem divindades salvíficas. Ele receia os tubos de alimentação parentérica e a algália e isto pode não ser o mais ameaçador. Quando começam a sussurrar à sua frente, percebe que lhe compete fingir não perceber que os resultados das análises pioraram, que o antibiótico não funciona, que a respiração assistida não pode durar sempre pois há que dar o lugar a outro. Em novo fora um hábil sofista capaz de conciliar modelos mentais discordantes sem os condicionar a serem outra coisa. Pensava no que era a sua vida e no que não era a sua vida; do que a sua vida era fazia que ela fosse outra e ainda outra sem deixar de ser o que efetivamente era. Distinguia entre uma liberdade que usava limitadamente e a virtualidade do presente onde ele aparecia a sorrir e era o seu próprio profeta e o seu próprio fantasma. Defendia: «Todas as situações merecem uma conclusão alternativa», mas não foi um altrabão. As pessoas estimavam-no, embora não seguissem os seus longos raciocínios; diziam preferir o risco de se enganarem ou de serem manipuladas por outro qualquer pois pensam que o que lhes é evidente é, em geral, desejável. Pelo contrário, ele insistia que tudo o que podia pensar era equiprovável pois o contexto, nunca sendo fiável, sujeita tudo a uma narrativa plausível – «É o argumento do sofista», dizia. Assim viveu procurando o valor estável das coisas. Não se dá ao luxo de formar expectativas na presente situação hospitalar. Quereria, como Asterix, que o céu não lhe caísse em cima, mas a situação parece-lhe inconclusiva, por isso se abstém de a pensar.

Santa Maria

Adoecemos e não sabemos com o que contar. Há momentos em que as razões se tornam indefinidas, vamos parar a um hospital onde nos aplicam protocolos de cura muito experimentados, querem salvar-nos a todo o custo, o corpo enerve ameaça-os, querem repor ordem no corpo doente. Ele abre-se para o teatro: as etapas do mundo passam-se ao contrário no corpo moribundo e é isso a vida. Mas a maioria contabiliza-nos já moribundos e troçam como de caricaturas. Nesta fase, já muitos dos anjos nos abandonaram; as energias correm em todas as direções à procura da saída de emergência e as setas parecem trocadas. Chega-se a desejar uma grande figura no alto planando com os seus sabres e vereditos, mas são fisiologistas que vêm, com os instrumentos de medida aplicados sobre os nossos escarpados órgãos, os seus dedos espremem o humo, impedem que o sangue se perca, submetem-no ao pulsar telúrico de orquestras ferventes, comprimem o seu lancinante trovejar. Percebe-se apenas que as coisas não podem ficar assim: os rios tem de se purificar através de pântanos cujas aves intermitentes devem colorir as nuvens da tarde cujas formas elevadas e periclitantes nos lembram a alma de novo. Sente-se uma extrema necessidade de outra mão, de outro saber, de um poder, que sabemos inexistente, mudar o inexorável da vida. A partir de certa altura são igualmente importantes ação e não-ação, mas os critérios desapareceram substituídos por uma razão inegociável.