Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

o que acontece não se destina a nada

Tudo o que acontece nos entra pela casa e fixa-nos o olhar na pantalha do suceder. Há acontecimentos muito inesperados, outros muito espetaculares, outros terríveis, mas distantes, outros menos terríveis, mas que a proximidade torna ameaçadores. A maior parte do que se projeta na pantalha é histeria futebolística ou acontecimentos equivalentes que gostamos que aconteçam porque, acontecendo, asseguram-nos da possibilidade de uma normalidade. Qualquer normalidade nos serve a maior parte do tempo. A morte não é uma saída da normalidade, não é, sequer, uma verdadeira conclusão, nem confere sentido a nada, nem interroga ninguém. Muito do que acontece pode ser referido ao espaço do amor ou ao espaço religioso e, em ambos, todas as confusões semânticas encontram eco. Nem tudo o que acontece enraíza nesta forma de acreditar que aproxima o amor e a religião a qual, quando nos apanha, torna-se um vício que mobiliza tudo dentro do que somos. É a expressão do inexorável total, da desverdade que é a forma da verdade distorcida quando o amor é tóxico, do enclausuramento da liberdade numa diminuta gaiola se saciedades. Dá-se, então, o paradoxo de o que passa na pantalha se tornar indiferente como se tivéssemos visto todos os desenlaces possíveis da humanidade. Tudo o que nos entra pela casa e nos fixa o olhar na pantalha do suceder nos tornou alheios ao que efetivamente acontece. Não chegamos a dizer que a normalidade seja um colete-de-forças, apenas que as casualidades procedem de insondáveis mecanismos dos quais nos encontramos dissociados.

crónica sobre o que deveria acontecer

Hoje, tento escrever uma verdadeira crónica sobre o que acontece no mundo de relevante supondo que seja o que interessa a um leitor ideal: a minha opinião sobre o mundo no dia dezasseis de dezembro de dois mil e dezasseis. «Relevante» implica um impacto na inércia de modo que, ao abrirmos a janela de manhã, logo percebemos que algo se alterou. É um sentimento fisiognómico, uma nova ruga ou um impercetível esgar ou um sorriso apenas muito levemente esboçado no rosto do mundo a que reagimos com curiosidade e inquietação. Creio que o que fez passar o mundo de ontem para hoje sem que nada de relevante se alterasse será o que o fará chegar a amanhã sem guerras atómicas, nem mais morticínios além dos expectáveis, nem novos disparates dos estadistas, nem novas modalidades de injustiça, nem mais corrupção embora reconheçamos também corrupto o que está estabelecido como normal, como eleitoral, como religião e moral. Vou passar o dia à espreita de acontecimentos relevantes nos noticiários de todos os continentes. Entretanto posso adiantar o início do texto: «Tal como a humanidade esperava, aconteceu n_ ______ que foi finalmente decidido que ______. Na verdade, o presidente d_ ________ por ocasião de _____ confirmou que no seu país _______ acontecer__. A população ficou ___ com a notícia que foi ___ em todos os _____. Esperam-se desenvolvimentos importantes para toda a humanidade em diversos sectores e com impacto positivo nos indicadores de ____.». Percebe-se, nas entrelinhas, o meu otimismo histórico. Embora o possa justificar, tenho consciência que o sucesso civilizacional decorreu com momentos de um intenso (e escusado) sofrimento e (atenção!) o sucesso civilizacional anterior pouco diz sobre o futuro, isto é, podemos estar descansados a tomar o pequeno almoço e já larvar o gérmen de um cataclismo ou um dos estadistas com o botão vermelho de acionar a guerra nuclear, subitamente resolver que sim. Talvez seja melhor desejar que nada de especial aconteça hoje e escrever uma crónica sobre o aniversário do leitor, ou sobre a psicologia dos crimes de guerra e a volatilidade dos respetivos valores, ou sobre a morte de um líder maçónico e o tráfico na sua rede de influências. Na verdade, não concebo um leitor ideal e tenho poucos leitores concretos com quem trocar opiniões, mas parece-me que todos os acontecimentos relevantes deste milénio aconteceram de um modo insidioso; foram subacontecimentos que encontraram uma circunstância e uma ocasião e fermentaram, tomaram os hábitos mentais da maioria dos humanos e continuam a estender-se a cada vez mais pessoas. Assim, se antes uma declaração de guerra, ou a descoberta da cura da malária, ou o envenenamento de um papa, ou a conversão dos mórmons foram relevantes e percebemos quando eles se tornaram eminentes, os subacontecimentos de hoje só passados alguns messes percebemos o seu impacto no mundo o que torna especialmente crítico escrever crónicas sobre o que acontece e mais vale escrever sobre o que deveria acontecer.