Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

O EFÉMERO, A SUA INEVIDÊNCIA

Em saltos decididos as coisas passam deixando um rasto num sótão que não nos pertence. Não resistimos aos encontros breves, eficazes e insignificantes –imprescindíveis porque exercitam uma versão do amor politicamente correta. Hoje estamos, em muitos aspetos, no futuro de um mundo que desaba (como um fóssil se pulveriza). Tentamos tenazmente conservar o que poderia ter existido. É isso ser pós-moderno – nunca mais conseguir dormir sem brincar com as bonecas da infância simulando os jogos de poder dos estadistas, imitar as suas vozes agudas em debates parlamentares, muito histéricos, dizendo-se afetados pela situação nacional e manipulando, com variável mestria, os sentimentos populares. Mas hoje que os inimigos foram escalpelizados, a pátria são reservas de memórias que garantem as funções básicas do corpo até que a demência nos consuma. Vivemos de reminiscências soterradas nas cinzas cinéfilas de um grupo de acontecimentos que rejeitámos em tempo. Ainda cintilam os seus néones, os seus melodramáticos sarcasmos ao apogeu de uma natureza neandertal assustada com o mundo. Hoje é diferente: a pressão das frases (plágios, recitações, apropriações) exalta cada minuto do pensamento como outros direitos que atribuímos à humanidade e, quando somos homenageados, comportamo-nos como os estadistas, assim conseguindo que muitos leitores nos defendam. Assim julgamos confirmado que a literatura continua a servir uma completude politicamente necessária. Numa perspetiva eleitoral (ou literária), cada humano é um intestino que num polo vota e no polo oposto é um sofisticado cidadão enaltecido com os seus heróis cinematográficos (longos mantras em ilimitado reservatório de panoramas sociais). Ao adormecer no relento da solidão, resignados à dor do que pode faltar ainda, uma pastilha anti-caca substitui a fome por um ideal de limpeza. Sim, o equilíbrio e sustentação são práticas anti-tecnológicas. Depois, passar a noite de sonho em sonho, a refletir sobre a noite de sonho (e, melhor que o sonho, construir os versos do sonho), com a fadiga de milénios as suas evidências periclitantes descem das nossas crenças e temos todos os poetas abertos sobre o palco do «mim. Podemos plagiá-los numa escrita de hífens como esta. São lépidos os adjetivos que sobrevêm no cinzento terminal da voz, mas riscamo-los para que nada transpareça. É uma estética própria, a obra pode acabar sem nada acrescentar: assume-se a realidade aparecer já construída e valer por si sem precisarmos de trepanar a nossa ténue presença (além da existência, tudo permanece válido no nosso nicho civilizacional). Despedimo-nos. Separamo-nos deste filme. Antecipámos em quantos planos a palavra nos desdobra – a corrente que nos arrasta persuade-nos de um destino – é o significado de pós-moderno. Podemos dirigir-nos a um estrangeiro e confiar-lhe a vida, pagando-lhe. Dizemos a sorte saltar no destino, fugir para outra personagem, para a sombra da musa, voluptuosa e sintética, que diz a impotência mover o poema seguindo apenas inclinações subtis. Nós seguimos por seguir – desejamos o castelo iluminado pela lua e temos a sopa ao lume.

em que nos tornámos?

Hoje em dia todos somos pós-modernos no sentido: 1) da incultura, 2) da superficialidade, 3) do laxismo, 4) da autorreferencialidade, 5) do niilismo, 6) da indiferença mascarada de tolerância, 7) da aceitação da batota intelectual como solução transversal e translata desde que formulada numa versão festiva, 8) do corpo preparado para tudo, mas que serve uma indulgência rasca, 9) do uso endrominado da linguagem. Portanto, não se trata apenas da falta de paciência para escrever um tratado sobre os macacos do nariz com uma demorada argumentação da sua importância. Cada autor do passado apresenta-se com os seus insuficientes méritos e cá estamos para o corrigir e meter no bom caminho. Hoje, qualquer idiota tem uma palavra a dizer a Comte, a Husserl, a Espinosa, até a Sócrates e a Homero e, claro, ao próprio Deus. Não se trata já da realidade, apenas da aceitabilidade do formato linguístico. Assim: 1) qualquer representação da realidade se for coerente, é incomunicável, 2) se for comunicável, oprime alguém, 3) se oprime alguns, ou beneficia outros ou perdem todos, 4) se todos perdem a representação deverá ser substituída por outra que sirva alguns, 5) mas se servir alguns, oprimirá outros, 6) se oprimir outros, poderá oprimir todos, 7) assim, se esta nova representação da realidade também não servir, mais nenhuma servirá, 8) portanto, a realidade ou é irrepresentável ou incomunicáveis as suas representações, 9) assim, cada uma terá uma eventual validade instantânea, precária, local pelo que o seu proprietário se dispõe a tirar o maior uso dela em estilo hollywoodesco, 10) que é o único que funciona, 11) porque é incoerente e comunicável. Não estamos satisfeitos com a pós-modernidade; estamos divertidamente entorpecidos. As suas posições deixam a cabeça partir para férias em fato-de-treino, dormindo até tarde como se tudo estivesse concluído e houvesse lugar para todos e mais alguns, desde que desprezem os autores mencionados e usem «deus» apenas à medida das suas conveniências. As coisas mudam para uma pós-realidade para a qual ainda não encontrámos nome, mas que já não é pós-moderna; é uma realidade interferida pela imaginação e pelo mercado onde os nossos dinossáuricos egos se diluem no jogo: o mercado é um jogo; a imaginação vive no mercado, dá e tira ao sabor do que a possa alienar pois a vida não precisa de ser pensada.

a escrita como veneno (citando Derrida)

Os sumérios inventaram a escrita para a contabilidade agrícola e para a administração do reino. Foi há mais de 5000 anos. Mais tarde acharam que algumas memórias mereciam ser guardadas num formato poético fácil de musicar. Ainda hoje lemos esses cânticos, os salmos hebraicos, a epopeia de Gilgamesh, o Livro dos Mortos. Imaginamos o poder dos escribas e o dos escritores, o poder de lidar com a memória, de fornecer uma matriz a partir da qual a obediência e a submissão estabilizam – à volta de quem escreve. A mensagem escrita comanda. Vinda de Deus ou de quem detenha o poder; o poder sedimenta na escrita. É um contrassenso desvalorizar a escrita como forma de transmissão de mensagens apenas porque «pharmakon» no grego de Platão tanto significa veneno como remédio. É uma evidência histórica que a escrita transmite o poder, que a glória precisa da escrita, que a história veicula a versão do escritor, a versão do poder. Posto isto, justificar-se-á afirmar um relativismo que subordina a realidade à sua versão narrativa apenas para depois a desconjuntar e a submeter aos desvarios literários de qualquer intérprete? Não será idiota defender que qualquer interpretação tem o mesmo grau de legitimidade, a do falsário e a da testemunha, a do perito e a do apenas conversador? Após estes 5000 anos de escrita, poderemos sustentar que a significação é contextual quando os contextos da leitura tanto mudaram? Ignoramos a que se deve a prevalência atual desta cultura da incredibilidade, desta metafísica negativa, desta teologia da dúvida. A democracia e a civilidade não tem que ser justificadas por uma sociologia da mediocridade – antes de qualquer sistema de governação está a cooperação e a solidariedade que não supõem a autoindulgência filosófica, a autorreferencialidade e a referencialidade de um cego guiado por um cão também cego que segue outro igualmente cego e outro e outro ainda e quando conseguimos chegar ao primeiro cão verificamos que ele anda a volta simplesmente para se estontear. Não foi para isso que os sumérios inventaram a escrita (e os gregos, a filosofia).

sobre o atual contexto sociológico

Começo por dizer: «Estou farto da pós-modernidade». E justifico: «Estou farto dos truques linguísticos que passaram a truques cognitivos nos quais acreditamos e defendemos. Ficamos depois à espera que os destruam e que surjam novos propagandistas com novas bandeiras». Eu também estou farto da pós-modernidade e dos seus truques que se sustentam sem qualquer fundamento estético. Também já não conseguia continuar a contar histórias e a falar de mim como observador de mim como se a minha posição fosse privilegiada para o fazer. Nem sempre, como agora, estou de acordo com a minha voz interior e não é fácil imaginar-me a bordo de um fotão apontado aos planetas de vários sistemas solares (aqui o texto agulhou de uma reflexão pessoal para o que é essencial numa literatura abstrata). As viagens são demoradas e tenho pensado no que diria da literatura durante a viagem ou se encontrasse alguém interessado no tema num planeta habitável (outra metáfora sobre a natureza da inspiração na literatura). Também penso que literatura resultaria se me replicasse em milhões de personalidades de mim num planeta esplendoroso, mas deserto. Evitaria os comentários vulgares sobre o sentido e os paradoxos da vida; dedicaria o meu tempo às transições das palavras ao pensamento e deste à construção de uma arquitetura ficcional multifuncional cujas oscilações, por impulsos mínimos de qualquer coisa de indefinido que na Terra se designa por «inspiração», produzisse versões, todas artísticas, de uma espécie de Odisseia. Se não o «mim» sobre que mais poderia escrever que a minha viagem?, o meu texto remete para todos os textos (é isso a originalidade), mas preciso de regressar a casa como Ulisses onde mulher e filhos me esperam. O meu livro será uma obra-prima porque é intertextual, e relativista, porque é politicamente correto, e epistemologicamente neutro, porque é anti-libidinoso e etnodescentrado; será uma obra-prima com a sua própria verdade prática como qualquer produto. A minha obra-prima é como a obra-prima de qualquer cidadão que viaje. Quando chegar a casa, com os meus filhos ao colo, escreverei um grande tratado sobre a evidência ética, outro grande compêndio sobre as incumbências jurídicas e cosmológicas na aculturação dos extraterrestres e, talvez também, uma resenha de culinária futurista já com referência aos ingredientes que se cultivam na escuridão sideral. Continuarei a tomar posições públicas contra a pós-modernidade com os seus obsoletos ovos de colombo. Essas grandes obras parciais/globais que escreverei nunca serão obras-primas. Proclamarão a época das redes globais/parciais; que estamos globalmente condicionados pela ausência parcial, pela verdade parcial, por deuses parciais semi-macambúzios semi-omnipotentes. Estamos convictos de que triunfaremos nesta época da ubiquidade: todos, em toda a parte, simultaneamente.

a nova época

Uma grande parte das ciências procurou estabilizar a realidade que aparenta existir mas, agora que conseguimos uma suficiente compreensão das coisas, temos cada vez maior dificuldade em nos adaptar a ela. Houve uma época propícia a grandes levantamentos de massas populares numa epopeia civilizacional fílmica como se acreditássemos que essas turbas enfurecidas se levantavam contra as condições culturais da sua época e fossem capazes de, racionalmente, erguer outros pressupostos suficientemente distintivos. A modernidade foi uma gloriosa tragédia, os rurais abandonando os campos por fábricas ruidosas que nunca podiam descansar, os operários desprovidos da sua anterior paisagem de sonhos, irmanando-se na luta por objetivos imediatos, ora o pão para boca ora o sangue de quem ocupasse o poder. Todas as revoluções são movimentos culturais interessantes. Essas da modernidade condensaram um propósito espetacular de justiça e uma descomunal confiança no destino no sentido de uma despropositada sobrevalorização do homem na realização do sua história. Tanto que se chegou a negar ao homem o seu direito à igualdade, à liberdade e à fraternidade que parecia relativamente adquirido, em nome de uma superação do homem. Algumas realizações tecnológicas alimentadas por máquinas a vapor, algumas teorias científicas de duvidosa verificação, algumas reelaborações filosóficas mais descristianizadas alimentaram os profetas do super-hominismo (diferente do superhumanismo e mais próxima da heroicidade da própria condição humana desde que aberta à vertigem de uma santidade por definir). Logo, a Europa a ferro e fogo, cada país à sua maneira, destruindo tradições com o simples argumento de que eram infundadas e maléficas por virem do passado. O fascismo donde veio? Dos pressupostos da modernidade, essa inadmissível superação da humanidade, esteticamente sublime? Quando todas as tradições vieram do passado e são maléficas porque o cristalizam, o que é a destruição disto senão uma vertigem de ordem donde o homem desaparece? Por isso têm seguidores todas as doutrinas de uma realidade sobreorganizada com uma figura de opereta à frente, um halterofilista estrebuchando com as suas picaretas ideológica numa tribuna discursante. Em baixo, as massas ululando ou os jovens: os nossos pais e avôs meticulosamente disciplinados ou em fila nas procissões ou dobrados diante dos altares e todos eram devotados cidadãos incapazes de fazer as coisas de outra maneira. E agora, como compreendemos esta nova modernidade que arrasta o homem num destino esvaziado, o homem esvaziado entrega-se ao seu gozo, compartimentado em partes de si que não se compreendem, cada uma procede como se prescindisse da sua vontade de ser, da necessidade de uma unidade da pessoa que possa ser respeitável fora de direitos civis excessivamente regulamentados. É evidente terem-se criado formas de existir completamente novas. Criadas pelo acaso de tecnologias que nos aliciam e nos maquinam como Pavlov transformou o cão numa máquina simples, essas tecnologias prendem-nos pelo prazer, pela curiosidade, pelos fulgurantes desempenhos numa sobre-realidade esquematizada. Não temos nome para esta nova época, tão juntos e tão afastados estamos.

isto é o meu cérebro

Tenho a impressão de que o cérebro se altera, mesmo se tento manter aproximadamente as mesmas atitudes político-culturais que desenvolvi pensando no melhor mundo possível. Não é uma convicção forte, mas uma dedução a partir do ímpeto, seja da cabeçada na porta do armário da cozinha, seja dos noticiários de inspiração religiosa que, na realidade, referem a uma intrínseca brutalidade civilizacional que as religiões não conseguem conter, seja, ainda, dos anúncios diretos da ação dos deuses ou dos cataclismos cósmicos ou telúricos sobre um sistema que pareceria estabilizado. Assim verifico que o cérebro se altera como qualquer sistema físico, com a sua pequena entropia provocando alguma ternura pelos lapsos da memória aos quais antes atribuíamos uma grande carga simbólica. De certa forma, simplifica-se como se a sua anterior motorização se tivesse tornado excessiva. Por outro lado, o mundo evolui ao contrário do cérebro: cada vez mais complexo, parece pretender derrotá-lo, humilhá-lo, perdê-lo. O cérebro, após milénios a produzir e a destruir teorias, resignou-se à boa vida como um vulgar hipogrifo e assim chegamos à pós-modernidade com toda a história num diagrama simples e muita bioética à flor da pele e outras teorias da manha.