Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

A VIDA NUM SONETO  

Florbela esperava demasiado do amor e, por isso, foi vão o seu amor. Esperava um estado de exultação permanente em que afogasse o desejo de si. O seu espetro desaparecia na sombra de qualquer imagem como uma menina vê o pai que lhe foge e a mãe que morre e a resposta da poesia é o afundamento. Cedo descobriu como é possível desdenhar a vida sem perceber como se sujam as mãos com o nome de cada virtude, cada virtude ter um sentido tão pujante como qualquer síntese de peripécias das que fazem um verso e, contudo, fora da poesia, nunca conseguiu um consenso sobre a sua pessoa – nem na assembleia das suas dispersas vontades, ela própria, ter assento e fazer-se respeitar. A sua poesia pertence ao seu histrionismo como se ensaiasse um Hamlet no teatro da aldeia, o sargento da polícia de rei Cláudio, o filho do merceeiro que se enganava nas contas, de Polónio, o filho do sapateiro que estudou no liceu da cidade e que ainda está desempregado, de Rosencrantz, a própria Florbela representava o príncipe Hamlet; centenas de «ser ou não ser» e os ensaios nunca passaram do terceiro ato, a avidez trágica constrangida pela escala moral: ninguém suficientemente mau, nem nobre, nem capaz da íntima voracidade destrutiva do narcisismo. Por uma questão prática ou por um entendimento de dignidade, ninguém ousou o papel de fantasma e sem o papel impulsionador de um espetro ou de um mito, por quê matar, por quê morrer? Houve um tempo em que as virgens se envergonhavam dos seus sonhos e se refugiavam nas suposições de uma logomaquia tradicional, mas o que parecia insuperável na adolescência tornou-se uma compulsão de completude. Florbela tanto afiava a argúcia da pergunta até desfazer a interdição, como hesitava perante a veemência da resposta até aquilo que desejava fosse abstrato e se perdesse. Em desespero desdenhava os termos em que a poesia não entrasse. Hoje, continuo de flores na mão em Elsinore perante uma espécie de cadáver. Assisto aos seus órgãos serem desmoronados pelo mar, os fósseis polvilham um ecrã onde só aí a sua imagem se reconfigura (como Hamlet). Ofélia foi envenenada com barbitúricos. Abraço-a e fecho o livro de sonetos.

O SONETO TEM UMA CONCLUSIVIDADE MORTÍFERA  

A propósito dos Sonetos de Florbela Espanca visitei as impossibilidades do amor, as que se afiguram definitivas. Ela falava de «fulgor e lastro», dizia «nem filhos nem rasto» como se se bastasse do alucinante exalar de um banquete adiado. No corpo dos seus poemas vibra ainda a falhada festividade do mundo quando refere a nudez viva que as coisas prenunciadas exaltam. Como quando se espera um denso indício entre as nossas sombras. Nelas o pôr-do-sol refulge e é a invenção que nasce – os aritméticos caprichos das sombras: em cada uma abre-se o turvo submundo do nome com os seus zeros absolutos e astros indomáveis. Dito de outro modo, a porosidade que imiscui a morte numa estrela reverbera no infinito. A sua visceral escuridão desabitada é, no relento da noite, o dentro de uma saudade que cresce. As portas abriam-se de par em par, o homem aparecia-lhe com um acre inebriante, banhava-se na espessa seda de uma saciedade oceânica; depois, confundido, partia. Leve cegueira a de um poema, sempre o próximo. Conclusão: não se pode procurar a mãe na natureza, nem no restaurante que frequentamos por ser na esquina, mas antes numa memória de veludos e passagens do leite por navios em construção. Ou numa anti-mãe totalmente genital, a sua dupla face rindo e gesticulando como um boxeur em fuga para o Egito. Há momentos em que vê-la seria recusar o banquete, o tato dos pêssegos rumorejando, morangos púbicos rastejando como girassóis caramelizados, peras bêbadas, seios túrgidos sangrando ópio – apenas a aura; sim: Florbela sugestionava-se e reconstituía-se seduzida. Sem mãe nem pai e distante do que a constrangesse. Eram formas de amar reféns das rosas orvalhadas – sorrisos incontidos até algo morrer. Sempre num versificante desacerto com a paisagem transformá-la em jardim de lamentações, as próprias sombras o contaminaram. Um soneto seu é um aquário noctívago com os seus dançarinos decrépitos, mas divertidos mordendo os sítios do pudor, fundindo-se nela, falhando e desaparecendo. Este contentamento panteísta com a palavra atordoava-a, dessas exultações tirava apressadas conclusões que nunca se sustiveram. Matou-se.

as grandes amantes

«Gostaria, meu amor, de saber dar-te quanto o meu desejo te quer, gostaria de possuir a chave de todas as saciedades e escondê-la-ia para que me procurasses sempre como um adolescente, gostaria de todos os dias descer a escadaria do paraíso para nunca esquecer a tristeza de não te ter, para nunca esquecer a alegria paradisíaca de te ter, gostaria que o paraíso fosse eu aberta a uma eternidade ruborescida pelo desejo e as mil vezes que sobre mim viesses fossem coros de anjos louvando as primaveras mais férteis. Mas a minha beleza não chega ao tanto que te desejo, não chega para o que te quero nem para o quero que me desejes, não chega como aparência para a renovação do mundo que o nosso amor exige. Ele é a pura exaltação do coletivo em que nos fundimos persistindo cada um o calor claro do tempo. Precisamos de todos os mundos futuros numa euforia criativa que nos reverta os corpos e se materialize em todas as utopias que pensarmos. Os corpos nunca se amansam como o mar intransitável dos cabos que se adentram no oceano. Nesse desassossego a beleza cresce e esfuma-se nas nossas mãos de artifícios como esculturas de filigrana e fogo. Gostaria, meu amor, de saber qual o nosso futuro, se este plural com que nos designamos se acimenta e enraizará como um palácio cresce nuvens acima ou se a própria intensidade, como os vulcões se extinguem, levará à exaustão e nem as palavras do outro compreenderemos. O que serão as horas sem o tema da vida, nós como pescadores num oceano contaminado em que não acreditaremos? O que será cada minuto fechado sobre si; o amor como um aquário cada vez mais miniaturizado, cada um de nós como peixes robot paralisados nas suas próprias recordações? A mente nunca se amansa, ávida de uma certeza vulnerável, todos os alicerces que procura, no derradeiro passo do seu alento, sucumbem, castelos de cartas de um jogo mortífero. Ó meu amor, como ainda assim te amar?».