Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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COMO DESCARREGAR AS NOSSAS ENERGIAS NEGATIVAS

Muitas pessoas beneficiariam em ser externalizantes, em se deixar levar pelos seus impulsos sem temer as consequências, roubar um lápis ou uma cereja ou ser desagradável com um fiscal das finanças; ou em dar menos atenção a tantas tarefas em que nos envolvemos com grandes razões, entretanto esquecidas; ou, até, responder com um encontrão ou um insulto a alguém que nos maltrata na rua ou a um bêbedo que nos acorda de madrugada.

Ser externalizador é colocar a energia negra que nos alfineta o cérebro em objetos exteriores sem selecionar criteriosamente os que carecem de correção, ser levado como as ondas rebentam pela energia do vento.

Se o mar interiorizasse essa energia as vagas rodopiariam pelos abismos abaixo arrastando tubarões, trilobites, caranguejos, surfistas e outros artefactos que se interpusessem, talvez um submarino nuclear.

Quanto a estes é bom que não sejam externalizadores, que as suas frustrações rumorejem, torturantes, no seu bojo inconsciente e que por lá circulem numa guerra fria interminável.

É a tranquilidade que desejamos para o mundo.

Não lhe chamamos paz, não queremos paz, tememos a paz que submete os externalizadores e deixa os internalizadores à mercê das injustiças que a paz corrige lentamente.

A paz é distraída e egoísta; mascara-se de paraíso e cava assimetrias, confunde justiça e benevolência.

Se mais pessoas roubassem lápis ou cerejas ou fossem antipáticas e mais desresponsabilizadas dos seus deveres, poderiam contar com uma espécie de brandura da justiça que não é benevolência, mas impotência.

 

 

Alexandre o Grande

Seria bom que tivéssemos ultrapassado de vez a época dos impérios e das invasões sob qualquer formato. Sobretudo por uma questão biológica, seria bom que cada pequena população pudesse levar ao limite a sua culinária, a sua linguagem à lareira, a sua ideia de poesia, o corte de cabelo, até os ritos de sedução e de obscenidade. Não resistimos a fazer ferozes comparações e a retirar conclusões sobre o que é melhor para eles e para o mundo, a achar que algumas tribos não estão no bom caminho ou porque encalharam num local errado ou porque deparámos com elas numa má ocasião. Se as achamos atrasadas, invadimo-las, se estão adiantadas cobiçamo-las e invadimo-las. Sempre a superioridade militar comandou a dispersão no território. Perante a premência de sangue as fronteiras esfumam-se, as muralhas não resistem, nem as de Pequim com quatro metros nem a grande muralha com sete. Quando estudamos a cronologia de um império percebemos a própria dinâmica da guerra criar a necessidade de mais guerra da mesma forma que a convicção da própria superioridade legitima massacrar os vencidos, apagar a sua diferença. Nós, os turistas, usamos outros critérios de superioridade: identificamos ilhas de sobrevivência cultural descontaminada das linhas de produção e onde os caminhos entre os lugares não são linhas retas, antes seguem as hesitações dos rios e das montanhas. Essas zonas «preservadas», abandonadas pela nossa contemporaneidade, pertencem a outra época, repousam-nos a consciência ecológica. Somos micro-genghis-khan com a declaração universal dos direitos do homem no emblema. Também nos mataram o pai, roubaram o trono, levaram-nos a mulher e temos tantas outras razões de queixa a chamuscar. Já assimilámos todos os invasores, misturámo-nos. Seria melhor se viajássemos sem vender perfumes nem tirar fotografias ou comprar garrafas de água esterilizada. Viajar sem a logística destruidora de Alexandre o Grande, sem necessidade de construir Alexandrias ou hotéis de cinco estrelas para contar aos amigos como numa confraria de generais.