Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

O PENSAMENTO EM AÇÃO  

O que tem o cu a ver com as calças? São alhos e bugalhos, respondem. Mas sê-lo-ão? Um dos grandes problemas do pensamento a todos os níveis é atribuir significado à relação que sempre conseguimos estabelecer entre dois conceitos. É claro que a forma das calças é condicionada pela anatomia das partes que se destinam a cobrir; o que é evidente no caso dos parcial ou totalmente amputados de uma ou das duas pernas: as calças modificam-se. Hoje, também os obesos atingem proporções nunca vistas, os seus enormes rabos são luas cheias obstipadas e de difícil acesso para limpeza; tal como a linguagem reveste o pensamento, as calças acompanham de perto estas deformidades. Portanto, o cu e as calças não são alhos e bugalhos. Mas nem sempre há uma relação entre a forma do rabo e o tipo de calças ao contrário do que poderíamos esperar: 1) há pessoas esbeltas a quem ficariam bem calças justas que não as usam, por discrição, 2) ou porque não se sentem suficientemente esbeltas, 3) ou porque temem que a justeza das calças desencadeie, ainda mais que olhares de admiração. 4) Acresce que muitas pessoas tem ideias próprias sobre a beleza, querem-na insaciavelmente escanzelada ou, 5) pelo contrário, volumosa e arredondada: sobre-nutrida o que solicita calças largas nas macérrimas e grotescamente justas nas nutridas. Mas, 6) alguns distorcem a imagem do corpo, dramatizam-no e as roupas são o pano de cena de um teatro sofrido. 7) Num domingo de verão na praia, vemos todos os tipos de rabos: chocantemente, os que acumularam grandes volumes de gordura e, dentro e fora de água, se movimentam como gelatina durante um sismo. Nós, horrorizados, prescrevemos-lhes calças largas e escuras e que se envergonhem do que petiscam, mas estes gigantescos rabos sentem-se airosos, como se acumulassem uma formusura excessiva. Não escapamos de uma leitura erotizada da sua intimidade: bastas carnes oferecendo-se estremecidamente à preensão, remexidamente atuando sobre o prazer do outro, como se o cozinhasse, como se o revestisse de temperos, como se o fizesse viver a marinar sempre esperando a consumação. Como um carapau de escabeche – não o imaginamos de calças. Portanto, há conceitos estritamente impossíveis de associar como um carapau e as calças (qualquer coisa que envolvesse os genitais e a cauda do carapau enquanto nada no cardume, não seriam calças) e, assim, conceitos como «cu» e «calças» tiveram as suas afinidades demonstradas para todos os animais com pernas, mas não com barbatanas (da mesma forma, uma horta com alhos e bugalhos), assim, como com os rabos, o pensamento dever-se-á acautelar cada vez que reúne ou afasta conceitos apenas por simpatias à superfície da linguagem.

A METÁFORA NEM SEMPRE É UM EMBUSTE  

Alguns poemas começam por uma estrita demarcação do desconhecido. É uma forma de rigor muito exigente como se de trás dos reposteiros nos observassem construindo o pequeno almoço e, de seguida, naturalmente, a transitar para a fase seguinte, a comê-lo. Ainda assim, da estrita observação do que conseguimos pensar nunca chegaremos ao procedimento do pensar e, do mesmo modo, não atingimos o que, embora o conseguíssemos pensar, nunca o pensámos, o que dificulta a demarcação do desconhecido. Alguns poemas partem de pressupostos infundados e alastram como maremotos verticais arrastando os acidentes da humanidade pelos seus cumes e abismos. Cidades nucleares arrasadas por uma ferocidade desconhecida – demente, dizemos da implacável estranheza do desconhecido que está dentro do cérebro. A passagem dos anos tornou familiar o abjeto, como se um simples delírio de cor ultrapassasse as significações do que é ético. Aqui estamos na transição em que os níveis anteriores confluem: o pensamento fica hiperinclusivo, arrepanha o zunir insensato dos triunfantes e eleva-o; inéditas flechas intencionais justificam qualquer crime. A força da voz avançou sobre a própria voz deixando para trás as palavras, os diferendos, as disputas que usamos como razões morais, mas continuamos para sempre fustigados por um historial de imagens que não mais conseguiremos domesticar. Alguns poemas tentam a epopeia convertendo o colapso civilizacional em sofisticação técnica donde fazem decorrer uma justiça assimétrica. Depois, com a loucura completamente consolidada, eles próprios representam o desconhecido, o intransitável da mente, a vitória da negação e da bestialidade como se uma birra infantil tomasse as proporções de um exército em fúria e se prolongasse pela vida fora. Poemas escritos em pino e pensados como glória ao seu eterno retrocesso. É arriscado pensar no que irá seguir-se. A destruição só perante os morticínios declarados é considerada evitável como um impropério que acaba em assassinato. Assim, na metáfora converge o lixo do que pensamos, o caos do pensamento que não acompanhou o caos físico da guerra, trocado por detalhes vulgares ou invulgares. Só com disciplina se vence a idiossincrasia da imagem como se com um funil domesticássemos uma avalanche de calhaus radioativos.

COMO DANÇAM AS PALAVRAS E PARECE PENSAMENTO  

O poema refaz a mente (se isto e se, ainda; aquilo, a hipótese seca) indo sobre auras cerradas. Mas nada nas palavras como num devaneio com alguém que quase nos toca e diz «tudo» com um olhar primitivo (a razão circunscreve – não se fundamenta. O medo). O poema quer partir, ser para isso que é dentro. Largar o que pariu e parece, o que é forma e se desfaz (a vida não se define – interdita-se – seria preciso a coragem de um louco, de um malfeitor em risco, mais uma vez). O que é dito garante o que faz pensar. Termos sólidos convergem numa sombra que abana, que se ramifica; assim as conotações de «palmeira» criam uma escala e uma função que a fazem diferente de «estrela-do-mar». Dizer sem significação, sem desejo; dizer como um enfeite repensado, como a oferta expande o desejo, abre caminho – ou volta a baralhar os termos insolucionados (Eu não posso verificar o que penso, posso não fundamentar o que desejo – a culpa vem antes do desejo, prazer que dói). Com os caminhos assim definidos, um micro-paraíso de saciedades não surpreendentes como um campo de concentração (o poder enlouquece o arbítrio – todos os outros se esbatem – ninguém existe fora da sua intermitência). Tanto faz. Parece que compreendemos o texto, a génese do arbítrio, mas o inconsciente que mata é o coletivo, o monstro é coletivo, ulula sangue, diz a vitória cega (: interpreto-te como da tua mão, uma hipótese). O que escrevo já não é interpretável, são os pressupostos do poema, uma verdade cirúrgica, i.e., definida, delimitada e esterilizada, sujeita às manobras que repõem condições perfeitas (Se falhares o jogo acaba – o poema falha o jogo: desejo branco). Não falo da circunstância como se a vida fosse o agora, um livro aberto, uma página que não li, que ignoro o que possa dizer e não sei se a compreenderia. Não quero pensar a leitura como interpretação, não me serve o direito a opinar, a recriar e a reclamar. Estou mesmo farto do que penso, de um estado de pensar sem acreditar e dizer a pesporrência, a melíflua astúcia. Receio que me digam que sim e não sei se tolerarei que me desmintam. Que razões teria quem me desmentisse? (Não mais fotografar – repudiar o próprio desejo.) As crianças chegam a conclusões mais firmes, dizemos da sua humanidade desarmada e sem anticorpos autoimunes, i.e., uma demonstração de como o pensamento se torna infinito não fora a escrita terminá-lo – até o estilo impõe um final em qualquer texto, deseja que não sigamos Beckett torturando-nos com a recursão das razões em piruetas e pas de deux, maçantes; que sigamos a metáfora do final feliz – os bailarinos cansaram-se, agradecem os aplausos e vão repousar. Interpretaram uma coreografia e uma música minuciosamente pautadas; nós não interpretamos a sua interpretação, deu-nos prazer, fez-nos fome, ceámos e a noite veio, bem delimitada como uma lógica, inaplicável à vida e à dança.

o pensamento

Podemos continuar a pensar cada vez mais coisas e a tratar o impossível como pensável pois é evidente que, mesmo sem chegarmos a uma conclusão estável sobre as coisas que dizemos fundamentais para o pensamento pensar, os resultados práticos são surpreendentes. Pôr satélites espiões em órbita ou chegar com eles a marte, decifrar uma língua pré-histórica, ou a imunidade das doenças, ou o âmago da hereditariedade, ou provocar uma cascata de prazer insuportável, corresponde ao triunfo do pensamento. Triunfo do planeamento da ação, triunfo de uma logística do fazer sempre melhor, sobretudo, triunfo inicial de uma intuição de ordem. Depois, já agora, tentamos ir mais longe, e perguntar como se fundamenta a beleza que vimos numa flor ou na pintura de uma flor ou na alma de um romance ou como justificamos que ajudar é melhor que matar, que compreender e explicar é melhor que insultar e expulsar ou que não destruir a natureza é melhor do que ter uma fábrica fumegante e ser muito rico. É verdade que se fazem coisas impensáveis e que se prometem utopias em várias modalidades, mas ainda não decidimos se Deus existe, se é uno ou múltiplo, nem em que versão o devemos adorar, nem sequer há consenso sobre uma moral religiosa com se os deuses quisessem de nós coisas diferentes como nós queremos que as árvores cresçam diretas à luz, mas que resistam ao vento, que se contorçam, mas não tombem. Porque o pensamento não põe condições preliminares; aonde chegue, inflama-se, anima-se, confirma o que pensou – só no final põe condições. Raramente tem de se provar verdadeiro. É sempre de si que o homem fala e é sobre si que o homem não sabe falar.

o conclusivo e o relevante

O meu pensamento para e contempla. Não julga, não categoriza, nada tem para decidir e pouco se pensa. Pensa o que contempla que é como um amor que não ama, ou que talvez ame, mas é em silêncio, ou talvez tenha amado, mas agora o que tem para recordar cabe num detalhe da paisagem. Parado como se tivesse sofrido todas as doenças do pensamento, todas as desventuras, todas as frustrações, muitas das alegrias maiores, mas o que tivesse presente quando contempla fosse um ponto de tranquilidade donde a paisagem se contempla e o inclui nela. Fica como um moribundo da ação, um inutilizado pela ação, um devotado à harmonia arbitrária entre as coisas, amarrado ao mastro da aventura com um olhar carregado de memórias. Todas as paisagens fazem crescer uma teia de aranha que é um véu sobre o futuro, um filtro que separa entidades, mas ainda longe de ser um critério de benignidade. Ao pensar o que contempla, o pensamento pensa-se e ao tentar simplificar o que examina excluindo-se, é atribulado por questões internas e faz-me surgir explicitamente como um «eu» ativo, como o sabotador das suas engrenagens transparentes, surpreendido a roubar chocolate quando devia estar a trabalhar para o bem da humanidade como qualquer pessoa: «O que fazes aqui? És o intruso dentro de ti.», diz-me como se dentro de mim decidisse em unanimidade ou como se pudesse pedir contas ao que penso. Estou nele como uma árvore no meio da floresta, mas quando vejo algo admirável, forço-o, ou quando algo de inadmissível acontece, tento que ele tome partido bem como se uma causa aparenta merecer ser considerada. Então, ele para e contempla, eu sigo-o nas suas deambulações, mas, ainda que conclusivo, pouco do que ele pensa merece ser dito.

o moralista

Dizia: «Não faças o que eu digo nem o que eu faço. O que eu digo nem o pensei reflectidamente. Ocorreu-me uma matriz de pensamentos encadeados noutros, e estes noutros, e noutros ainda, e, sucessivamente, noutros a perder de vista em pensamentos que já nem me pertencem nem a ninguém. Penso assim a maior parte do tempo e o que penso a nada me serve. É um pensar por amor ao pensamento e às coisas pensáveis que recebe das coisas a energia que existe nos moldes que são as ideias que penso. Consoante esses moldes as ideias surdem: 1) hiperrealistas, como fotografias manipuladas por um vendedor de desodorizantes, 2) naturais, convergindo com outros objetos idílicos num panorama indefensável, 3) holográficas, isto é, convincentes e inevidentes, 4) sonambúlicas, como na realidade minimizada que usamos para imaginar, 5) fluidas, no sentido de gelificadas e dispostas a tornarem-se outras coisas, 6) fósseis, ideias petrificadas, contudo com uma robusta ligação à vida noutra época, 7) conceitos, ideias que habitamos como uma prisão de alta segurança. E o que fazes com isso que pensas?, perguntará o leitor. Desenvolvo uma coreografia em que adoto vários papéis independentemente do género pois o que conta é uma música que muitas pessoas cantam quando sorriem. Desde o morango numa salada de frutas, o oócito da mãe do futuro presidente de um país, o neurónio do caracol numa decisão existencial difícil, a pulga que ataca o motorista do presidente desse país em pleno desfile militar. São papéis improvisados próximos das ideias pensadas e, por isso, falham tanto em fazer que cantem as pessoas. Eis o que acontece: 1) umas, em vez de rir, têm uma convulsão ao ouvir a música e produzem vaticínios terríveis, 2) em vez de rir, gritam razões implausíveis, corretas ou politicamente inaceitáveis, 3) outras, em vez de rir, procuram a metralhadora mais próxima e desatam a matar a eito, 4) ou, em vez de rir, escrevem sobre uma essencial desarmonia, 5) ou fazem o pino com chuchas na boca, 6) ou, em vez de rir, declaram-se desesperadas e carecerem de drogas para isto ou para aquilo, 7) ainda outras, em vez de rir, desatam a discutir com argumentos muito inteligentes e algumas têm razão. Portanto, não conseguindo pensar outras ideias de tal forma é precário o que penso, não consigo corrigir o que digo, como poderia eu fazer algo de exemplar? À noite penso no mundo, se lhe convirá alguma moral; ao acordar, escrevo sem procurar ser conclusivo, apenas por uma esperança, um vislumbre, mas receio que sejam efeitos hormonais».

uma botânica metapoética generalizável a toda a literatura

Quando escrevi um livro sobre a razão de ser das coisas tinha uma convicção apenas: que o absurdo é passear num jardim botânico sem tabuletas: nem o nome latino, nem o nome vulgar, nem a origem geográfica. Portanto, a questão impõe-se: poderemos pensar o mundo com a origem das espécies suspensa sem que as nossas especulações esbarrem numa opaca ignorância? Miramos uma árvore de alto a baixo, provamos os seus frutos, examinamos a relação dos seus ramos com os pontos cardeais; observamos como as aves pousam, como as primaveras que foram absorvidas ao longo de décadas deixam, agora, os minutos soltarem-se dos perfumes de modo a recomporem o próximo outono. Numa árvore exótica causa ainda maior estranheza sentir como a estatura serve a floração. Sentimos a mesma atração pela inutilidade de pensar a origem. O nosso cérebro, ao pensar uma árvore exótica, sente absurdo pensar a engenhoca da árvore, da seiva até à copa, do húmus das raízes até à clorofila ávida da luz do amanhecer. O nosso cérebro pensa o futuro, sofre pensando a razão de ser das coisas. O aborrecimento é pensar como um genealogista quando as direções estão contidas no propósito: não é a razão de ser das coisas que orienta o propósito, mas este que se estabelece da harmonia e de uma esporádica violência estratégica e, assim, cria a razão de ser. Claro que todos os seres comparticipam no resultado final que, como sabemos hoje, pode acontecer da pior maneira. Mas o meu livro não se ficou por aqui. Precisei de descobrir a razão de ser do desalinhamento dos propósitos: porque é que, num jardim botânico, os raios de luz descem sobre ausências e porque não são irrelevantes essas ausências. Dir-se-ia que os fotões têm uma memória amorosa e que se desagregam contra as árvores sem nome como se, a nós, a razão de ser das coisas, se a conhecêssemos e não a construíssemos, passearíamos numa vida sem absurdo, apenas conferindo o nome das coisas, verificando se as morfologias correspondem aos propósitos.

sobre o cantarolar dos sentidos

Qualquer dos tratado da evidência em voga desde Augusto Comte, bem como qualquer dos numerosos tratados sobre a inevidência que Kant inaugurou, são meros circunlóquios para um poeta, ou para alguém faminto, ou, simplesmente, para alguém obcecado com a justiça, alguém que levante a cabeça para olhar em volta e não para se empertigar. É como andar de carrossel à espera de compreender a teoria da relatividade. Não se trata de relativizar ainda mais o estatuto do conhecimento, nem de uma teoria do entretinimento literário, embora este se caraterize pelo desinteresse pela clivagem evidente/inevidente. Porque voam juntos os pássaros? O seu chilreante olhar captura milhares de insetos por dia. Há uma evidência que não vemos e a coesão que vemos no bando é uma visível inevidência. As coisas mais importantes que decidimos são inevidências e isto não é nenhuma apologia freudista do inconsciente pois é no consciente que passam as coisas inevidentes. Nos macacos a evidência amplia-se ou retrai-se? Depende para onde são atirados os despojos de uma crítica da evidência: se se amplia pensaríamos que se retrai a inevidência, mas isto é apenas um efeito de para onde os mecanismos da fala levam o pensamento, pois nada do que é evidente se relaciona com tudo o que é inevidente. Hoje, é mais nítido o papel dos sentidos na constituição da inevidência, percebemos como constroem a evidência, onde tropeçam, como se continuam numa mente ávida de generalizações, mas sobranceiramente inepta, numa mente gulosa de se certificar com absolutos que o vento leva, numa mente superior que não mede a sua superioridade – e duvida.