Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

um drama subjetivo

Não gosto de palavras que prometem demasiado e «demasiado» é ir além de uma singela sonoridade adequada à dignidade de cada coisa. «Fausto» é excessivo. Desde logo pela opulência opípara que sugere, mas o pior é, desde Goethe, o descontrolado narcisismo da personagem que atrai narcísicos de todos os géneros. Mesmo o recurso dramático de negociar uma abstrata ânsia de perfeição com uma força maléfica, provavelmente pouco fiável, parece demasiado óbvio como mecanismo teatral do mito. De um cão que segue dois bêbedos o que podemos esperar? O que fazer da piedade por um pobre ser que nos segue como se a sua miséria se identificasse com a nossa? Se acreditamos numa versão científica da criação e ela é muda, se desprezamos os dogmas da magia porque dependem demasiado da persuasão, se a linguagem esbarra nos próprios limites e continua falando como se nos ignorasse, se nos trata como se fôssemos papagaios espantados perante uma explosão nuclear, que caminho nos resta senão continuar à procura? «Fausto» é o calcanhar de Aquiles da própria investigação da virtude, é onde a epistemologia da batota se guarnece da luxúria académica, tudo untado com banha de porco, autores a escorregarem e a escaparem-lhes das mãos tachos, canetas, teclados. Tal como falhou pelo calcanhar a invulnerabilidade de Aquiles, também não seria Fausto nem nenhum cientista a resolver o desconhecido. A nossa inteligência não precisa de toda a informação. Muitos cérebros bloqueiam quando sabem demais; saber o mundo, e saber o cosmos, e saber porque mundo e cosmos são assim e são assim as suas criaturas, levar-nos-ia à fragmentação do eu em partes repuxadas por saberes contraditórios e acusando-se. O eu precisa das batotas desde que não minem o próprio jogo com questões absurdas ou informuláveis por serem demasiado abrangentes. A alma ou o fígado de um cientista ou, mesmo, o cérebro poderão servir a maldade? Sim, a ciência prostitui-se por pouco, mas o sábio poderá servir a maldade? Nunca, se «maldade» tiver uma definição certeira e translata. O que choca numa epopeia tão germânica é toda esta confusão entre diferentes saberes como se do princípio de Arquimedes chegássemos a uma cosmologia pós-cristã, confusão entre desmesuradas ambições pessoais e supranacionais, como se uma noção de raça legitimasse um poder expansionista ou como se uma língua feita para meditar tivesse que produzir mais respostas que outra usada para amar ou outra preparada para construir navios e partir com os mapas mal legendados. Depois destas violentas indagações poderemos ainda achar que o amor justifica tudo e garante a melhor solução? Depois de lhe a matar mãe e o irmão, ainda abandonar a amante grávida? Mas quem sou eu que sonho que filósofos simpáticos que me sentam ao colo e me embalam? Cego para o que vejo, cego, também, para o que destruíram, apenas ouço ainda Sócrates mansamente: «Pensar contra o pensamento, contra o teu pensamento, apenas pensar até que a voz tropece». Ilusão a mando de um inconsciente sobre-amado, ultra-mapeado, crescido e continuado pelos autores das sombras e da criatividade da negação, assim Pessoa reverte sobre si uma potente teoria do limite: a consciência é uma praia propícia donde se pode partir ou chegar sem sabermos o que está de permeio. Ele passou a vida de permeio – em Lisboa, pouco propícia ao fausto. O final do Primeiro Fausto, cantado num fado sofrido, sem Margarida que abortara e ficou estéril, freira carmelita. Nem ninguém – só com a obra. Que não lhe deu o conhecimento. Nem a nenhum dos Faustos. Hoje ninguém é romântico desse modo.

não há ninguém na primeira pessoa

Depois de imolar o espantalho da primeira pessoa, o que fica do autor da fala senão um sonambúlico prestidigitador? Na luminosa sombra da mente, fixam-se os contrastes e as indistinções surtem como o luar irrompe das trevas (ou como a língua se rebola no mel, promete um lugar às células da alma – e um vínculo). Sou o autor, mas nada nem nenhuma negação conta para nada. Não sou um lugar com a respetiva estátua, mas uma entidade entranhada na mobilidade da terra: as águas do moinho de maré, os seus desníveis ao entardecer, a respetiva brisa, mesmo o Outono são coisas fugazes, autorias muito sintéticas e coloridas (sobre mim) num destino que o poema percorre vadiando pela transcendência. O verso: leva o pensamento à luz e no regato imóvel da consciência desaparece o pequeno fantoche. Os silvados cresceram e recobrem-no e, do fundo onde o ouço rumorejar, surde algo que avança direito a mim (como na alucinação um sabor estranho me vence). O que quer que seja – sou eu, só posso ser eu esse autor instantâneo da minha impessoal estatura entreaberta sobre o palco onde o meu poema se reconstrói. Chove e os utensílios da voz recortam da nuvem o seu musgo branco. A filigrana dos dias podia afastar-se deste necessário véu de erros onde, planando sobre o mar, me afundo nas nuvens. «Sou a ilha onde chegas com o meu livro nos braços. Habito a vontade inespecificada que diriges ao mundo encriptado cujas cinzas desenham pó no piano da sala», diria de si Pessoa. Lá do fundo, falam da grande casa do mar. Tentam antecipar um desenlace, imaginar alguém para a voz fora do âmbito do espelho, um catálogo de perfumes e vidro que o autor ora limpa ora estilhaça em imagens insustentáveis. Ora tu ora eu. Ora espelho ora vidro. Vidro não, certamente, e o eu não range assim.

insolucionavelmente

Hoje, que possuímos a descrição completa de cada instante do cérebro, podemos focá-lo de diversos ângulos como um vulgar objeto tetradimensional ou deslocá-lo e construir conjeturas de glória ou de humilhação para onde ele nos arrastará se o tomarmos a sério ou o levarmos às últimas consequências. Husserl acabou, podemos afirmar: a objetividade inclui a subjetividade e lá aparecemos, os grandes poetas à frente com as suas fulcrais distinções disfarçadas numa forma de dizer ajardinada a gosto, e, depois, nós em cuja consciência tudo se mistura. Devemos, contudo, respeitar a aridez filosófica, cultivar formas de dizer cuja espalhafatosa precisão já não é acessível, devemos até formular versões alternativas da verdade como na arquitetura dos abrigos antinucleares. O próprio Fausto de Pessoa é um falso problema filosófico, um caso psicológico de inconformidade com as regras do pensamento: da ansiedade de tantos infinitos convergindo sobejava-lhe a noção obstinada de aborrecimento cuja psicocirurgia pouco proporcionou: as cenas paradisíacas dos nossos primórdios não enraizaram na linguagem, provavelmente perderam-se durante a evolução dos sistemas neuronais nacionais. Aguardamos uma desmaterialização cronologicamente orientada até ao surgimento da consciência para julgar os resultados exatos dessas investigações históricas. Antes, as orgias eram a regra quando os matriarcados dominavam, nada estava previsto, a gravidez era um puro arrancamento ao corpo em que o homem procurava envolver-se. Como outros órfãos, amarrado ao silêncio da ausência, Pessoa nunca compreendeu o cérebro nem sequer as suas máscaras triviais na linguagem e na consciência, por isso, viveu à deriva pela literatura clássica. Esteve a um passo de ser um homem de ação, um político, um líder com um variável sentido da oportunidade e da justiça. Rodeado de Ofélias e de Camélias, também de Cremildes e de Beatrizes, teria compreendido o amor estar além da sua enfezada miséria biológica, decidir-se pela avidez do prazer e não pelo histórico das suas masturbações. Ainda hoje o ouviríamos como ao Walt Whitman, gritar o instante da penetração, noite dentro com os soldados nos hospitais de campanha, feridos, ossos quebrados, mas ávidos de dar sentido e uso às suas gónadas hiperativas. Como despojos de guerra, entregavam-se à terra queimada sôfrega de feminilidade que habitava o poeta. No Fausto ouvimos, pelo contrário, a negatividade da consciência interiorizar-se numa culpa castrada. Ouvimos os seus arrepios, assistimos aos seus prosaicos horrores, descremos dos seus sobressaltos por adivinhações sorumbáticas ou por «mistérios» na terminologia do misterioso. Ele tinha razão pois o amor era não-intencional, vazo do querer de uma presença, a própria consciência do amor como estado da alma lhe destruía o desejo. É quando recria Fausto; a personagem é a não-intencionalidade da consciência, o puro pensamento quando falha alicerçar-se, até na poesia, e, assim, puro branco, o imenso que contém é receptivo e feminino como o princípio do mundo.