Nuno Félix da Costa, Relatório sobre o que acontece, Portugal

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Relatório sobre o que acontece

crónicas sobre o que acontece ou o que parece acontecer

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O PAI NATAL COMO PARADIGMA METAFÍSICO  

O poeta fala de orquídeas e camélias desfolhadas com à vontade, mas com timidez fala das tarântulas sôfregas, de visões amorfas e do líquen num plexo de canais por onde micro-personagens circulam. Pouco sabemos do interior de um poema enquanto o interior de uma bomba prediz o massacre (por exemplo, a que rebentou na prisão). «Terrorismo para terroristas para que lembrem o Pai Natal», pensa o bombista: a natureza sincopada da vida, as orgânicas afinidades do belo e da morte. Aqui distingo «prever» e «conhecer». É difícil separar o poeta visionário de um louco já com número e tratamento instituído. Percebe-se o poeta descrever o seu sono, o seu desconhecimento quando as coordenadas amplificam várias irrealidades; em cada verso ele procura escapar, mas o mundo subsiste num ruído de fundo por vezes incomodativo. Exortam-no: «Prolonga o espanto sobre o tesouro vazio da escrita. Encontrarás alimento na espessura dos astros, ou, talvez, o adormecimento definitivo numa palavra que as aves nunca sobrevoaram. Descobrirás as questões onde os nervos ancoram. Lê o teu livro de sussurros, flores raras vezes nomeadas – inventaste-as?» Perante o silêncio do poeta, continuaram: «Atravessas a poesia por um caminho irreconciliável ou cujo final é instável. Nada te é garantido. Só as lágrimas, o riso, os passos para um lugar lá à frente onde chegarás só». Que pode ele responder? Não ter outra oportunidade senão, numa arqueologia da imaginação, jogar símbolos quesilentos sobre o grande desconhecimento. A ideia é colar-lhe uma história e continuar a rodopiar com uma maligna cortesia até uma versão da origem irradiar o ser e convencer. Contam-lhe: «Antes do princípio havia um gigantesco nada (senão o princípio não seria princípio). Esse nada inicial demorou a resolver-se, os elementos do pântano coalesceram num lar muito especializado». Um observador neutro diria o homem plantar uma sirene em cada coisa visível, mais tarde um salmo, depois uma teoria efervescente. Pouco se sabe do interior de um poeta, lêem-se-lhe os pensamentos por ordem de entrada, ele desfá-los num espelho imperfeito, imita-se na compulsão da escrita. Abomina-a, livra-se dela, cospe-a numa fotografia prestes a desaparecer e salva-se sem saber se quer triunfar ou continuar à mercê dos indultos de promotores de cosméticos e de deuses confinados numa humanidade semelhante à sua para a qual não tem antídoto. Dizem-lhe: «Deves falar de ti, provocar admiração ou uma elevada piedade pelo teu rebuscado sofrimento. Sabes o leitor ter o tempo limitado, ir do ciclismo à musculação reforçar os abdominais. Deves ser feminista como uma forma radical de dizer coisas insolúveis». A bomba na prisão tem um propósito indefinido, o mundo começou numa explosão, as festas da aldeia, com um simples foguete e mesmo se a reconstituição não faz sentido, surgiram elementos novos vindos ignora-se donde. As muralhas da prisão racham. Não se sabe o que o poeta transporta na sua pesada biblioteca, se a carroça do lixo ou uma hermenêutica do lixo. Por isso, o Pai Natal existe com as suas volteaduras para as pretensiosas certezas parecerem durar.

ALGUÉM DE PASSAGEM  

Dedos admirados de um corpo, ao vento piparotes de enganos soltam. O pensamento (assim, verso-pão do «alguém» não referido que sustenta a ausência – e a demora) plana numa obsessão de preenchimento. Terno balão no oco de si varre os detalhes do sentido (encontra-o e perde-o). Escutar é partir com alguém que passa, alguém incluso no lume da frase que na memória articula a luz áspera das entranhas. A boca dos mitos abre-se à água das sílabas, semeia e acha sílabas nos buracos do mundo – e absorve-as na vontade de mundo: poema que os dentes trituram e no «alguém» da voz nasce (fóssil imberbe na musculatura da vontade erodido). O poema não tem de explicar porque demoro a abrir os olhos nem de proporcionar soluções para uma estética de assalto que sobrevoe o asfalto da vida (nem de ser a doença do paraíso e da predestinação no âmago da voz – uma alucinação amplamente). Aves acasalam no cume do cedro, os peixes lutam pelo pão que atiro: existe nisto uma beleza intrínseca? Apresentações indefinidas como se as grutas, os jogos, as teorias onde procuramos uma realidade suculenta dessem meia volta no sono do sexo e resplandecessem após. E se o «tu», quando se diz preparado para a palavra, perigasse? As formas que nele se cerram são saliências de uma sombra, alguém em mim – ou não, admirável.